Ninguém viu a principal técnica de Storytelling das Aventuras de Pi. Literalmente. Ela não pode ser vista nem pelos olhos de quem apreciou o filme na maior das telas de cinema. Nem os óculos do Google seriam capazes de revelar esse segredo bem oculto.

Pois é, apesar de todo aplauso para os elementos estéticos e visuais, desde os efeitos especiais alucinógenos até a fotografia hipnótica. Ainda que a direção atenciosa seja digna de Oscar. Mesmo com toda a estética capaz de traduzir imaginação, a principal técnica de Storytelling do filme é invisível aos olhos.

A técnica tigre de Pi está presente desde o livro, mas também não pode ser vista nas palavras. Aliás, é o contrário disso. Assim como um ninja ou uma mensagem escrita em entrelinhas, a técnica em questão não quer ser vista e vai fazer de tudo para se camuflar. É isso que confere seu poder.

Assim que a Storytellers vai revelar dentro de algumas linhas que técnica é essa. Mas não sem antes alertar que o post só deve continuar sendo lido por aqueles que viram o filme e/ou leram o livro, sob pena de estragar a experiência de uma grande história.

A técnica tigre de Aventuras de Pi é chamada de diegese. Ainda falando tecnicamente, é tudo aquilo que não extrapola os limites da quarta parede. São todas as coisas que nascem dentro do próprio universo da história.

Começando pelo próprio autor. Yann Martel. Ele existe no mundo real, mas ele também está presente na ficção. O motivo é simples: ele diz que é mais barato viver na Índia do que no Canadá enquanto ganha tempo para escrever um romance.

Depois vem a questão do barco com os animais, incluindo nosso amigo, o tigre Richard Parker. Um tigre com nome e sobrenome, que para alguns é uma metáfora, mas que faz sentido no universo da história... afinal, tanto o menino quanto o tigre compartilhavam o navio que naufragou pelo mesmo motivo: o Zoológico fechou.

Uma técnica fundamental para quem quer inserir marcas e produtos numa narrativa. Uma forma simples e eficiente para melhorar numa numa escala geométrica o chamado product placement, também conhecido como merchandising de novela. Se não fizer sentido para a história, então, qual o sentido?



"Ela tinha 8 anos de idade no nosso primeiro dia do terceiro ano fundamental, quando a chamaram de feia. Nós dois fomos colocados no fundo da sala para não sermos mais alvo de bolinhas de papel e cuspe. A escola virou zona de guerra e nós, sempre em menor número, ficávamos do lado de dentro no intervalo, pois o lado de fora era ainda pior e nós teríamos que ensaiar corridas de fuga ou aprender a ficar parado sem deixar pistas da nossa presença. Na quinta série eles colaram um papel, que dizia "Cuidado com o cão", na mesa dela. Até hoje, apesar no marido apaixonado, ela não acredita que é bonita por causa de uma marca de nascença que cobre menos da metade de seu rosto. As crianças costumavam dizer que ela era como uma resposta errada que tentaram apagar e não conseguiram. Eles não vão nunca entender que ela está criando duas crianças para as quais a definição de beleza começa com Mãe, só por que suas filhas enxergam seu coração antes de olhar para a sua pele." - Shane Koyczan 

O Texto acima foi retirado (e traduzido livremente por mim) do vídeo "to this day" criado pelo poeta, especializado em poesia oral, Shane Koyczan. "To this day" é um projeto do poeta para combater o bullying nas escolas americanas, e o vídeo conta três histórias de arrepiar, muito bem contadas e muito bem escritas. O texto bem trabalhado sabe usar os pronomes certos para te convidar para dentro da história ou te distanciar dela de acordo com a intenção do autor. Além disso as frases curtas e ritmadas usadas pelo poeta facilitam o entendimento e o uso constante de verbos mantém a narrativa em movimento. Além disso, o autor soube usar muito bem o conflito e a complexidade dos personagens para dar aquela sensação de "nossa, esse sou eu!" em muita gente. 

O vídeo está em inglês e até onde eu vi não tem legenda, mas é inspirador. 




Uma das maiores vantagens de usar storytelling na publicidade é que você dá a oportunidade do consumidor virar fã e depois, é só uma questão de tempo até o fã virar evangelizador. Para quem está conectado o conceito de fan fiction não é novo, mas eu vou explicar:

Fan Fiction é um termo em inglês que dá nome ao ato de criar arte com base em universos ficcionais famosos. Como exemplo disso podemos citar, entre muitos outros, a série animada The Clone Wars que conta novas histórias no universo do conhecidíssimo Star Wars. Outro exemplo recente e famoso de fan fiction é o livro 50 tons de cinza que originalmente surgiu em um fórum norte americano como fan fiction de crepúsculo. 

O poder de engajamento de uma história leva a inspiração e a inspiração leva a novas histórias. Não é uma lógica difícil. Mas o que é que marketing político tem com tudo isso? 

Nos estados unidos, durante o período eleitoral, é comum encontrar os "attack ads", ou seja, uma propaganda eleitoral que ao invés de dizer os motivos pelos quais devemos votar no Sr. Y ou X, ressalta de maneira sensacionalista, por assim dizer, os motivos pelos quais NÃO devemos votar no Sr. Z ou V. 

Durante a última eleição norte americana a revista Mother Jones, especializada em conteúdo político decidiu misturar fan fiction e attack ads como formo de protesto, ou não, aos ataques públicos entre os candidatos. Para isso eles criaram uma série de vídeos baseados no universo, de R. R. Martin, "A Guerra dos Tronos" e o resultado foi esse ai, olha só: 







Para ver os outros vídeos da série de Attack Ads criada pela Mother Jones entrem no site http://www.motherjones.com/politics/2012/06/game-of-thrones-attack-ads.


Então vieram as hordas de Orcs. Ninguém sabia de onde vinham tais criaturas e ninguém estava preparado para o terror que espalharam...

Vamos falar um pouco sobre jogos? Em especial os da série Warcraft e por um motivo interessante. Muita gente pode não reparar, mas sem dúvida ele “cultiva” um dos maiores universos de ficção da cultura pop/nerd, que eu julgo ser tão engajado com o público quanto Star Wars.

Se é que não houve um grande vencedor da premiação do Oscar deste ano, o que mais levou estatuetas para estampar as capas de DVD em breve na locadora mais próxima, foi “Aventuras de Pi”, do taiwanês Ang Lee.
Com o título original “Life of Pi”, o filme conta a história de um garoto indiano que teve seu barco naufragado em plena Fossa das Marianas – área das águas mais turbulentas dos sete mares – e viveu grandes emoções cruzando os oceanos à bordo de um bote e ao lado de um tigre. Digno de tirinhas de Calvin e Haroldo, o extraordinário impera e não poderia ser diferente nesse épico solitário pelos mares.


(ilustração de Victo Ngai para a revista "New Yorker")
Pra quem assistiu o filme e até agora só relembrou o que viu, deve lembrar também da grande questão que o espirituoso Pi (que é ao mesmo tempo cristão, muçulmano e hindu, isto é, as 3 maiores religiões do mundo) nos deixou na cabeça ao fim do filme: Qual história você preferiu, a do garoto, do tigre, do orangotango e da hiena ou a do garoto, da sua mãe, do budista e do cozinheiro?
A não ser que você preencha o clássico estereótipo do “crítico chato de cinema”, ou que seja um dos representantes da companhia do cargueiro japonês naufragado “Tsimtsum”, você deve ter preferido a primeira. Porque histórias são sobre fatos extraordinários, e contadas nas telonas resultam em prêmios como de melhor diretor para Ang Lee, ou de melhor fotografia para Claudio Miranda.
Ainda que uma história cheia de espiritualidade (com direito a primorosos capítulos sobre o assunto no livro de Yann Martel – que deu origem ao filme), nota-se que em nenhum momento discutiu-se sobre qual é a história verdadeira. Para tal, e para encerrar o texto, faço minhas as palavras do sábio Mario Vargas Llosa:
“A ‘irrealidade’ da literatura fantástica se transforma, para o leitor, em símbolo ou alegoria, quer dizer, na representação de realidades, de experiências que se pode identificar na vida.”