Recentemente fui entrevistado pelo Tiago Bosco da Revista Wide sobre como o storytelling pode ajudar a promover marcas. Abaixo segue um trecho da entrevista:


WIDE Você criou o Storytellers, um pioneiro escritório de Innovative Storytelling. Em que consiste este projeto? E quais tipos de clientes vocês atendem?
FERNANDO PALACIOS Innovative Storytelling é uma tecnologia de comunicação e marketing que nasceu no Brasil, já foi exportada para outros países e que, basicamente, parte da premissa de que não basta apenas contar uma historinha. Essa metodologia divide storytelling em duas etapas: Story e Telling. Cada qual funciona como uma engrenagem composta por dezenas de técnicas. Por exemplo, temos 25 etapas para criar um personagem. Só assim ele vai deixar de ser uma mera mascote e vai passar a ser um verdadeiro branded hero, capaz de protagonizar narrativas marcantes.
"A grande euforia das empresas com relação ao storytelling está na busca por metodologias que sejam aplicáveis para marcas e replicáveis em níveis industriais"

Atendemos quatro perfis de clientes. Nas consultorias de branding vamos entender o posicionamento proposto e assim concretizar a personificação da marca. Para isso, desenvolvemos a partir da persona de marketing a construção de um herói para a marca. Em um desses casos, transformamos 1.248 slides de pesquisa de marca em uma peça de teatro de uma hora. Assim foi possível fazer com que mais de 200 executivos da alta gestão fossem capazes de entender cada detalhe e cada nuance dos posicionamentos.

Clientes podem ser agências de publicidade, para as quais fornecemos um rico material com dezenas de possibilidades de histórias que podem virar anúncios. Clientes podem ser assessorias de imprensa, para as quais vamos buscar no histórico da marca os fatos mais noticiáveis e, a partir dele, desenhamos as estratégias transmidiáticas para narrar essa história por meio de múltiplas plataformas. Finalmente, os clientes podem ser as próprias empresas, para as quais vamos desenvolver um projeto contínuo de captação e composição de Story, além do design de novos Tellings. Essa estratégia tem sido fantástica para alinhar todos os esforços dos fornecedores ao redor da marca.

No fim das contas, nosso intuito é fazer com que as histórias de empresas e suas marcas sejam tão bem contadas quanto às narrativas da indústria cultural. Aliás, o objetivo é que as histórias comerciais passem a ser um produto de entretenimento com valor cultural. Assim, todo o mundo ganha - agências ganham prêmios, consumidores ganham bons conteúdos e empresas ganham pessoas mais atentas às suas ofertas.

WIDE Como você define o conceito de Storytelling?

WIDE E de que maneiras as marcas podem se beneficiar por meio do storytelling?

WIDE Em sua opinião, por que storytelling se tornou uma tendência no mundo corporativo e como e empresas e agências podem se beneficiar disso?

WIDE Poderia citar um exemplo mundial e outro local de storytelling?

Entre na página e confira todas as respostas. ;)



Eu sou do tipo de cara que é capaz de assistir uma (ou duas) temporadas de uma vez. Sou fascinado pela mecânica complexa da construção de séries, pelo trabalho envolvido em manter uma narrativa viva e interessante por um longo período e por isso, ouvindo as sábias palavras de J.J. Abrams eu tenho mania de desconstruir essas narrativas, separar todas as peças e ver se consigo reconstruí-la sem deixar sobrar nenhum parafuso do lado de fora. 


SEJA CONSISTENTE

Crie um universo, um personagem, ou até mesmo um plot capaz de segurar a história, algo que outra pessoa seria capaz de escrever caso você não consiga terminar o trabalho sozinho. O primeiro motivo que faz disso algo tão importante é que se você conseguir criar personagens fortes e narrativas envolventes o suficiente o espectador irá continuar a história na cabeça dele, criar suas próprias teorias, desenvolver os seus próprios projetos para os personagens e assim ficar cada vez mais curioso para saber o que você, autor, irá fazer com "os planos dele". Isso aumenta o engajamento do espectador na sua história. 

Outro motivo importante para isso, falando especificamente de séries é que muito provavelmente não será você quem irá escrever toda a série. Homeland, por exemplo, já teve 11 roteiristas diferentes e todos eles dependiam dos personagens e da história para fazer a coisa funcionar. Se a sua história é fraca, entregá-la na mão de outra pessoa pode ser um desastre, o novo ponto de vista pode atingir aquela rachadura que você estava tentando esconder, mas se a sua história é boa, um novo ponto de vista só vai te ajudar a manter o espectador atento e curioso. 

O que nos leva ao segundo ponto desse post:

SEJA IMPREVISÍVEL 

Sabe aquele plano que o espectador criou para os seus personagens e para o futuro da sua narrativa? Aquele que eu falei ali em cima que é o resultado de uma boa narrativa? Então, tenha certeza de não seguir esses planos. Se o espectador espera que o personagem pule, faça-o voar, ou ficar sentado, ou sei lá, mude de núcleo e conte outra história enquanto o espectador fica na dúvida se ele estava certo ou não. 

Surpresas são a chave da atenção, é através da surpresa que você irá conquistar a fidelidade do espectador, mas tenha cuidado, não exagere, não destrua o personagem, não force a narrativa. Não importa qual seja a ação, ela tem que ser consistente, você não pode simplesmente, de um episódio pro outro, ou de um capítulo pro outro, transformar a sua moça nerd e delicada em uma ninja super habilidosa. Surpreenda sem exageros. 

NÃO ESCREVERÁS EM VÃO

Esse conselho, na verdade, eu não aprendi com a série, mas Homeland é, pelo menos as duas primeiras temporadas (ainda não assisti a terceira) o melhor exemplo disso que eu já vi em uma série até hoje. Mas afinal, do que estamos falando? 

Certifique-se de que nada do que é apresentado ao espectador seja em vão, ou seja, como diz Cyd Field (o cara de quem eu "roubei" essa ideia) "tudo na sua narrativa deve fazer uma de duas coisas: revelar o personagem, ou mover a narrativa adiante". Toda e qualque cena, interação ou até mesmo fala deve servir ou para apróximar o espectador de um personagem ou para avançar a narrativa. Tudo é ação, tudo é importante, tudo é movimento. É esse movimento que irá manter o seu espectador na ponta do sofá com as mãos cobrindo o rosto, é esse movimento que garante a atenção completa do espectador. 

É esse movimento que irá garantir que os passos acima funcionem de maneira eficaz, dê ao seu espectador tempo para imaginar o próximo passo, mas não deixe-o com tempo para desvendar o resto da história. 



Há um tempo estou para escrever sobre este MMORPG, também conhecido como LoTRO o jogo transmídia do universo do Senhor dos Anéis leva os players de volta a Terra Média para aventuras fantásticas e a gente do blog a discussões intermináveis - perdi a contagem de quantas vezes discuti com o Fernando Palácios os aspectos desse game realmente intrigante.  Se quiser desbravar como os mistérios da narrativa do game acompanhe agora o post!
Lord of The Rings online é um jogo no estilo MMORPG, desenvolvido pela Turbine, e lançado em 24 de Abril de 2007 (na época chamado de Térra Média Online). O jogo narra acontecimentos que acontecem durante os acontecimentos de "O Senhor dos Anéis".  Isso significa exatamente que ele não é uma adaptação, você não vai acompanhar a exata história de Frodo e da Sociedade do Anel. Na verdade aí entra uma ótima estratégia de transmídia: a produtora contratou escritores especialistas na obra de Tolkien para costurar a trama entre a história principal. 
Algumas das várias perguntas que pensamos quando assistimos os filmes ou lemos os livros podem ser entendidas durante o game. O que Radagast o castanho realmente estava fazendo que não pode se juntar a Gandalf na batalha direta contra Sauron? Pois é, no game você descobre isso e passa um bom tempo ajudando ele em suas quests.

O player se torna um tipo de suporte para a saga da Sociedade do Anel, resolvendo problemas para abrir caminhos e aliviar a barra dos bravos heróis e pra que tudo isso funcione de maneira progressiva, as missões foram dispostas nas Quests Épicas divididas em 15 livros.  Realmente a falta de Tolkien escrevendo esse caminho entre sua história original faz uma grande diferença, mas dá pra aproveitar muita coisa e se divertir bastante.


Já no primeiro livro "Shadows of Angmar" você começa a encontrar humanos leais ao inimigo e ajudar Aragorn a impedir que suas forças aumentem. Essas missões somada ao todo da obra de Tolkien torna seu conhecimento sobre a Terra Média uma experiência sem igual.  Toda sua visão é enriquecida com os fatores sociais do tipo conflitos dos povos da Terra Média e quem está por trás da corrupção de cada lugar e cada personagem.

A noção geográfica do mundo também vem a tona, mas isso é uma característica natural de jogos como este. Após um tempo desbravando o mapa é provável que você desenvolva um senso de localização, mas nessa hora a transmídia volta a fazer toda a diferença. Um simples rio que você estaria atravessando a cavalo se torna aquele rio em que Arwen invocou a correnteza em forma de cavalos para levar os cavaleiros Nazgûl para longe e então você percebe que está andando perto das terras antigas dos Elfos. Tudo o que você conheceu antes passa a fazer sentido e a tornar sua experiência com o game melhor.
Ou quando você está em uma instância fora da Quest Épica defendendo uma Torre de vigília contra um Nazgûl e vem a memória que é exatamente a mesma torre aonde Frodo foi ferido pela espada de um dos cavaleiros negros no primeiro filme. 
Só que não adianta ter uma bela história dando suporte para tudo se você não consegue conta-la e criar a emoção e nesse ponto também gosto da Narrativa incorporada de Lotro. (já falamos desse tipo de narrativa por aqui). A remediação da cenas, ambientes e personagens dentro deste game é um caso a parte. Ela intensifica realmente nossas memórias a cerca da obra de Tolkien e agrega esse sentido a experiência do game.  Quando lemos ou assistimos o caminho que Aragorn faz até Rivendel podemos perceber suas dificuldades, não é uma subida fácil é bastante hostil e em certo trecho da conversa com Sam podemos perceber que era um lugar tomado por Ogros e eu convido vocês a experimentarem este mesmo caminho no LoTRO para perceberem que a sensação deve ser a mesma que Aragorn tem viajando a cavalo - aliás se gosta de desbravar o mapa em games de RPG se prepare, pois as viagens em LoTRO podem ser bastantes longas.


Mas não há nada mais dramático neste game do estar sozinho entrando em uma instância cheia de Uruk Hai, marcados de mão branca conversando com algum Nazgûl e quando você se aproxima as bordas da tela ficam claras como se estivessem queimando, mas no fundo você sabe que é porque está sendo observado pelo senhor das trevas Sauron.  Acredito mesmo que a sensação que alguns dos heróis na história original sentia era essa mesma que podemos sentir quando isso ocorre no game.

Existe um problema com a ordem cronológica dos acontecimentos, entre a morte dos anões em Moria (por exemplo) e a chegada da Sociedade do Anel nessas minas. Mas particularmente eu acredito que a não existência de um ritmo progressivo e controlado dentro de jogos de MMORPG ajudam a compensar (um pouco) esse conflito. Afinal você pode passar horas em uma cidade e sentir que isso é alguns meses antes de voltar para a Quest Épica.  Mas LoTRO ainda está longe de ter a narrativa perfeita para os jogos, porém ainda consegue conquistar bastante gente. Esse gênero de jogos no geral está passando por uma certa crise de narrativa e estão tentando se adaptar ou mudar sua forma de contar histórias... e nós acompanhando por aqui.

Quem curtiu e quiser jogar basta acessar http://www.lotro.com/en



Esse post é uma pequena homenagem tardia ao aniversário de 50 anos da série Dr. Who, mas como ainda estou na primeira temporada e ainda não tempo de analisar tudo com cuidado, vou falar especificamente da versão para o cinema. O filme chamado Daleks' Invasion Earth: 2150 A.D. foi lançado em 1966 e nos possibilitou um dos mais inusitos product placements na ficção científica.

O caso é que Doctor Who acaba em um futuro excentrico londrino, onde a água, nem comida, e o mundo foi dominado pelos Daleks, vilões mortíferos que matam praticamente tudo o que vive. Nesse cenário futurístico e tecnológico o filme ficou conhecido pelo exagero da exposição da marca Sugar Puff de cerais. Isso mesmo, não foi a iserção de um carro como na série e filme A Super Máquina, não foi nem uma marca de relógios para garantir que o nosso viajante não perca em suas aventuras temporais, não, meus caros, foram vários e vários cartazes de Sugar Puff distribuidos pelo cenário de uma londres em ruínas. 

Não preciso nem dizer que para tanta inserção  Quaker Oats, na época responsável pela fabricação do cereal, financiou a produção do filme, né? Mas tal financiamento não foi só para que a marca pudesse ganhar o seu tempo na tela, o acordo também incluia uma ação de tie-in que vinha nas caixas temáticas do cereal, o ganhador da promoção levaria um boneco de um Dalek, raça de alienígenas vilã no filme. E para finalizar a Sugar Puff conseguiu o direito de usar a imagem dos personagens do filme em seu comercial e outros materiais promocionais da marca. 




Olá, sou Tiago Cabral, o “novato”do site. Sou psicólogo e (pretenso) escritor. Vim parar aqui a convite do nobre Fernando Palácios pra conversar um pouco com vocês sobre Storytelling e sua relação com a psicologia! O que essas duas práticas teriam em comum? 

Antes disso muita gente sempre se pergunta "o que raios é Storytelling"? Com uma pesquisa no Google qualquer um descobre que é um daqueles termos de publicidade. No entanto, ele é algo que faz parte da natureza humana: é a arte de contar histórias.

A simplicidade do termo nos faz subestimá-lo por alguns instantes. Mas não se engane pela simplicidade da definição, afinal você pode definir a medicina como "a arte de curar pessoas", e mesmo assim a  prática não vai ser algo simples. Ao estudar o assunto me descobri um “storyteller” sem saber. Muitos dos livros recomendados eu já havia lido e usava muitas das técnicas que citavam em meus textos.

“Storytelling? Isso é desculpa pra vender workshop” eu mesmo já disse. Até que num livro li que "saber apreciar uma música tocada num piano não te torna um pianista”.  Ou seja, ser capaz de apreciar um bom livro não significa que você possui as ferramentas pra escrever!

"Mas o que isso tem a ver com psicologia social?"

Como eu disse eu sou psicólogo. Atendo a crianças e adolescentes e suas famílias e as vezes é necessário “ensinar” as pessoas a lidar com determinadas situações. E o método mais prático que encontrei de fazer isso é contando histórias!


E eu só sei disso porque eu aprendi com o storytelling que a maioria dos mitos tem por objetivo passar conceitos de moral. As histórias ajudam a definir quem somos, e também influenciam diretamente na nossa comunicação. Seja na psicologia ou em qualquer outra prática social.