A princesa virou uma rebelde. A bruxa uma gostosa. Os animais falantes e objetos animados se tornaram aplicativos. Essas são algumas mudanças na realidade dos Contos de Fada modernos. A liberdade sexual e os avanços tecnológicos mudaram completamente os arquétipos que tínhamos na infância.

Muitos de nossos comportamentos e percepções atuais foram moldados quando éramos crianças por histórias. Se a Bela não tivesse ficado com a Fera, agiríamos diferente. Se o sapatinho de cristal não entrasse no pé da Cinderela, pensaríamos diferente. Porém, atualmente, os signos da nossa infância estão mudando cada vez mais. Não digo isso pensando nas crianças da atualidade ou em nossos pensamentos infantis como adultos. Digo que o príncipe e a princesa mudaram na nossa própria visão. E digo que os vilões e todo o resto dos personagens também mudaram.

A liberdade sexual nos trouxe uma nova realidade. Afinal, um príncipe seria um tanto quanto tedioso se fosse ruim de cama, não?! E o mesmo pode se dizer da princesa. Aquela visão do casal perfeito e apaixonado está sendo moldada em um casal repleto de falhas, mas que se encaixa, como peças de quebra cabeça. O príncipe pode ser um cafajeste tentando se comportar. A princesa pode ser uma prostituta tentando mudar de vida.


Por outro lado, o vilão não é mais necessariamente um malvadão. Ele pode ser um coxinha. Simples assim. Ou uma bruxa má que nada mais é do que uma ex-namorada. O vilão pura e simplesmente mal deixou de existir. O que existe hoje é alguém no meio do caminho de algum objetivo. Especialmente porque o certo e errado estão cada vez mais difíceis de serem definidos (vide eleições, dois candidatos de merda, mas ambos defendidos ferrenhamente por seus eleitores).

A liberdade sexual em si já seria uma grande coisa sozinha. Porém veio acompanhada de tecnologia.
Sério, Tinder e Snapchat... putaria no alcance do seu bolso, literalmente. Você está na academia e seu celular vibra com um fantasminha. Ao clicar na tela é a foto de uma garota de biquíni mostrando os resultados da academia. Ou surge um foguinho na tela e você recebeu a mensagem de uma gata que quer te conhecer. Nos livros e filmes da nossa infância, animais e objetos falantes viriam nos dar notícias sobre alguma princesa, ou algum plano malvado de alguma bruxa. Hoje em dia os aplicativos fazem esse trabalho. A magia se tornou real. Menos pura e inocente... porém extremamente real.

Fico imaginando as histórias que os irmãos Grimm, Hans Andersen e Perrault escreveriam atualmente. Aliás, nem preciso ir tão longe. Posso pensa também em Walt Disney e Will Eisner. Mas infelizmente eles não podem mais fazer isso... entretanto, nós podemos.
Cabe agora aos Storytellers da realidade levarem em conta esses dois grandes elementos que citei aqui para criarem suas histórias. Contos de Fadas  existem e estão por todos os lados. Basta observar e escrevê-los!




Muito tem se falado e esperado do game Middle Earth: Shadow of Mordor. O novo jogo que vai levar os fãs da literatura de Tolkien de volta a Terra Média. Estive no Brasil Game Show e pude presenciar o alvoroço que o título esta causando na garotada -  eu mesmo só fiquei feliz quando consegui um pôster :).

A história do jogo acontece no espeço entre o "O Hobbit" e "O Senhor dos Anéis" e narra a saga de Talion, um Ranger do Portão Negro que recebe o auxílio de Celebrimbor (o mesmo que forjou os anéis do poder) para se vingar de Sauron. Vejam o trailer oficial:







Um dos destaques desse game é o sistema Nemesis, que evolui os nossos inimigos e que promove disputas de poder entre si. Isso vai revolucionar a experiência de uma narrativa interativa, porque mostra o impacto que as falhas devem ter na vida do protagonista.

Sabe aquela batalha em que você fracassou, morrendo e tendo que voltar ao ponto de partida? Pois então... se você fracassou, isso significa que alguém te venceu, Um Orc, que provavelmente ganhou uma reputação maior pela vitória.  


É isso que o jogo compreende. Os NPCs (Personagens não-jogadores em tradução livre), vão ter sua própria vida independente da sua. Vão disputar cargos, poder e podem subir de níveis se forem ganhando batalhas importantes - mesmo que você refaça a aventura.-  Isso nos lembra que "O vilão tem sua própria jornada em que o herói é o malfeitor".




Te colocar diante dessa situação fará que o envolvimento emocional se intensifique, que seja possível você desenvolver uma narrativa única (emergente) criando inimigos íntimos diferente dos outros players e gerenciando a tensão entre eles: "Então você se tornou general?! Será mais interessante vê-lo cair de um degrau mais alto... hahahaha" - É o que eu diria para um inimigo importante :p

Segundo os desenvolvedores a ideia do sistema não é penalizar mais as derrotas, mas em incentivar os jogadores a supera-las. Pessoalmente ainda não experimentei se isso funciona no game, mas logo que o fizer trarei as devidas conclusões para vocês.


Já não era sem tempo de corrigir uma falha. Há anos defendi na USP o primeiro estudo acadêmico relacionando Storytelling e Comunicação Corporativa e até hoje não havia disponibilizado por aqui.

Contudo, o Brasil não oferece uma formação para quem quer viver de histórias. Acabei estudando na USP Comunicação Social, a ênfase foi em Relações Públicas e a prática em Publicidade e Propaganda. Logo no primeiro ano comecei a estagiar e rapidamente já estava no mundo das agências. Foi aí que percebi que seria possível juntar o antigo sonho de escrever histórias com a carreira corporativa. Mergulhei no assunto em 2007 e escrevi o primeiro estudo acadêmico relacionando Storytelling com comunicação corporativa. 



Toda carreira começa na infância e a minha não foi diferente. Meu avô, Alfredo Palacios, foi um grande cineasta e pioneiro da TV brasileira. Ele foi o responsável pelo primeiro seriado nacional, o Vigilante Rodoviário. Do outro lado da família, meu bisavô foi um kossaco russo que escapou de um campo de concentração. Com isso, cresci cercado por histórias e desde cedo quis ser escritor.




Política e Storytelling têm tudo a ver! Projetos de governo, propostas e até mesmo rivalidades partidárias históricas possuem simbolismos que remontam a várias questões socioculturais estudadas pelos Storytellers! 

A dualidade direita e esquerda, por exemplo, remonta a monarquia onde os nobres e o clero se sentavam a direita do rei, enquanto que o resto da população, ou o chamado terceiro estado, ficava a esquerda representado por comerciantes, fazendeiros e artesãos.

Além disso, se você não percebeu os dois partidos em foco nesse segundo turno, um claramente de esquerda e outro de direita possuem cores que historicamente são tidas como opostos e representantes de grupos rivais, ou seja, um é representado pela cor vermelha e outro pela cor azul. Jogos como World of Warcraft, por exemplo, se valem desse artifício cultural para diferenciar os dois grandes grupos de jogadores: a horda (vermelho) da aliança (azul).

Fora que, como o já incessantemente citado Freud diz que cada um conta a história que quer sobre o seu passado, o que nos leva a imaginar o quão romantizada podem ser as histórias de vida dos candidatos, assim como as lutas e conquistas dos seus partidos.

No fim das contas, que vença o melhor Storyteller! 

Como uma boa história é capaz de evitar roubos?


Quem vai ao Chile acaba por não resistir a uma visita às vinícolas do país. A mais famosa delas é, sem dúvidas, a Concha y Toro, multinacional dos vinhos chilenos responsável, entre eles, pela produção do lendário Casillero del Diablo. Entre uma taça de vinho e outra, quem visita a vinícola aprende sobre a história da principal marca de vinhos da companhia.

Reza a lenda que Don Melchior, o fundador da Concha y Toro, sofria com os constantes roubos daqueles que se interessavam pelo sabor único de seus vinhos. Sem nenhuma solução efetiva, um dia Don Melchior começou a espalhar o boato que daria fim aos roubos de sua produção: o diabo habitava sua adega de vinhos.



Sem saber, Don Melchior colocava em prática duas lições de storytelling: o seu poder de persuasão (ou dissuasão, no caso dos roubos) e a sua capacidade de rever conceitos. Que marca hoje arriscaria trabalhar com o diabo na sua comunicação?

Em 2014, a Concha y Toro é disparada a maior vinícola chilena, representando 37% do mercado do país e mais de 30% das exportações de vinho chileno para o mundo. E a lenda do Casillero continua a se perpetuar com novos desdobramentos de campanhas.


Por fim, a última lição de storytelling que a lenda de Casillero del Diablo ensina é que, acima de superproduções cinematográficas, não é preciso mais do que um boato como mídia para eternizar uma comunicação quando a história é poderosa. Não fosse o medo do demônio através da lenda, talvez a empresa de Don Melchior nunca tivesse se tornado a lenda que é hoje no Chile.