Dizem que não é bom escrever um post conceitual. Afirmam que as pessoas só querem saber de aplicações práticas. Defendem que o certo é fazer listas das 10 Coisas Que Podem Mudar Radicalmente Seu Negócio. Pela quantidade de listicles por aí, talvez seja verdade. Mesmo assim, esse post não tem listas. Mas com certeza pode ajudar a ver o seu negócio de outra forma. Vem comigo.

Se fosse para fazer uma lista, teria sido algo na linha de 5 Conceitos Que Você Precisa Conhecer. Uma das principais ferramentas de quem trabalha de frente para o computador é saber onde começa e onde termina um conceito. Mas existe um problema nessa tentativa de delimitar e definir. Por definição, as definições são sempre reducionistas.

Basta ver o exemplo de Storytelling. Pela definição da Neurociência (outro conceito), Storytelling é a forma de comunicação que mais estimula o cérebro e por isso garante maior lembrança dos dados transmitidos. A Antropologia (uma disciplina, que não deixa de ser um conceito) reforça essa ideia ao dizer que Storytelling foi a forma principal de difusão de cultura e conhecimento em todo o decorrer da Humanidade. Se quisermos simplificar, podemos dizer que Storytelling é o simples ato de contar histórias. Mas é mais do que isso.

Se olharmos sob a ótica do Marketing, Storytelling é contar uma história para atingir um objetivo de vendas e persuasão. Acontece que ninguém paga ingresso de cinema pelos 5 minutos de propaganda antes do filme. Storytelling tem mais a ver com o filme de entretenimento do que com o filme publicitário. Se Storytelling tem um objetivo primordial é o de encantar, de formar fãs. O que também não quer dizer que todo e qualquer filme ou livro conte boas histórias.

Quantas vezes você não saiu do cinema com uma sensação de frustração? De achar que os dois minutos do trailer foram melhores do que os noventa do longa-metragem? Nesse sentido, Storytelling é saber agarrar a audiência logo na primeira frase e não soltar até o ponto final... e ainda deixar todos em estado de reflexão depois da sessão. Muito do poder de encantamento só acontece depois do agradecimento dos atores aos aplausos da plateia. Quem nunca ficou com vontade de ir à Paris depois de reviver mentalmente os cenários de um filme romântico?

Aí que entra o Place Branding, que anda de mãos dadas com Destination Marketing. Mais dois conceitos. O primeiro tem a ver com a consolidação da marca de uma cidade ou país, que vai desde o Design de Logomarca até o estabelecimento do "clima" que cidade deve causar nos potenciais turistas e importadores: a cidade é arrojada? Ou seria clássica? Ou seria histórica? Ou seria luxuosa? Ou talvez cercada pela natureza...?

O conceito de Destination Marketing está ligado às ações capazes de atrair turistas, desde o desenvolvimento de pontos de atração até a divulgação do destino em outras praças. Você está no Brasil e vive vendo anúncios de outros países como Cuba ou Colômbia... O problema é que nem sempre as duas coisas estão alinhadas. A cidade pode ter um clima romântico e o material de promoção ressalta a beleza natural da região. Isso gera confusão e frustração.

Volta à cena o Storytelling. Ao pensar o destino através de um enredo, fica mais fácil de desenvolver um material promocional que coloca um personagem para viver a experiência posicionada pelo Place Branding. Já escrevi sobre o exemplo do cineasta Woody Allen, que há mais de uma década vem colocando essa ideia em prática.

O Sebrae de Minas Gerais também entendeu essa ideia e me convidou a propor um projeto nesses moldes para a cidade de Ouro Preto e a Associação dos Hoteleiros ABIH foi a primeira a se dispor a ajudar. Foram meses de conversas e planos, até que a ideia ganhou forma e se tornou uma engrenagem: articular, conversar, pesquisar, criar, escrever...

Isso não é tarefa para uma só pesso, mas de uma grande equipe, que vai desde a pesquisa até a produção da obra. É preciso juntar esforços. A editora é outra parceira nesse projeto. No caso dos seriados, que tem equipes tanto de roteiro quanto de direção, entra em cena o papel do Showrunner (um conceito relativamente recente) que é a pessoa que guia a história. Nem sempre o Showrunner é o autor da ideia original. O Showrunner do seriado The Walking Dead não é quem criou a versão original da história em quadrinhos.

Acontece que o projeto em questão não é um filme nem um seriado e sim um livro. Obras literárias costumam ser feitas por uma só pessoa, o escritor, que leva meses e até anos para lançar a obra. No mundo das marcas - mesmo que seja a marca de uma cidade - esse prazo não existe. Ainda mais quando o livro em questão tende a se desdobrar em uma plataforma trasmidiática (juro que esse é o antepenúltimo conceito). Foi assim que surgiu a ideia do conceito central do post: o Storyrunner.

Antes de falar do Storyrunner, vamos tratar do último conceito do post, a Franquia Cultural, que deixei para o final por se tratar de algo importante, já que faz com que as histórias passem a ser vistas como tendo valor tangível, estimável e reproduzível.

O Storyrunner é o Showrunner de uma Franquia Cultural que nasce pensada dentro de uma plataforma transmidiática. Na prática, a história nasce maior do que uma única mídia. O livro, por exemplo, pode continuar seu enredo em um filme de cinema ou parte da história que só ficou pontuada no texto literário pode ser aprofundado nas páginas de um quadrinho. O Showrunner é quem deve pensar tudo isso. Pensar, planejar, coordenar e executar.

Se você trabalha em uma empresa e quer entender melhor como contar histórias ou se você trabalha com turismo e quer saber mais sobre essa metodologia, mande uma mensagem e vamos conversar.

Agora se só tiver curiosidade para saber o que vai sair da combinação de todos esses conceitos, acompanhe os próximos capítulos dessa jornada:

Diário de Bordo feito pelo personagem fictício W. Dáblio no Facebook.

Dicas secretas de Ouro Preto pelos ouropretanos no Dubbi.

A Fanpage criada para o projeto, com histórias contadas por pessoas na cidade.




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Um momento curioso da semana. Estava num restaurante com amigos e um deles comentou com o garçom que só queria carne se fosse Angus. Outro amigo ficou curioso, perguntou se dava para notar alguma diferença. Entramos em uma conversa que tem muito a ver com a aplicação do Storytelling no agronegócio.




Mas antes de falar disso, vale uma explicação sobre percepção. Daria para escrever um livro sobre isso, mas vou arriscar ser direto ao ponto. O fato é que nada por si só tem valor. Um diamante nada mais é do que um mineral. Só é caro porque todos resolvemos concordar que o mineral diamante é mais valioso do que o mineral ametista ou o minério de ferro. A questão é: por que decidimos dessa forma?




Alguns podem dizer que é pela raridade do material. Mas se for seguir por essa lógica, então o cupim deveria ser um dos cortes mais caros de um boi. Já que um abate rende 2kg de cupim e 10kg de alcatra, por exemplo.




Então pode ter a ver com o fato de que dependendo da região do animal, a característica da carne muda. Nesse caso, por que um presunto espanhol Pata Negra custa dez vezes mais do que o presunto nacional? Afinal, ambos são feitos do pernil do porco.




Podemos ser levados a pensar que a variação de preço é devida ao processo de fabricação, muito diferente nos dois casos. Mas como fica o caso do vinho? Afinal, com ingredientes e processos semelhantes, a variação de preço entre vinhos pode ser duzentas vezes maior.




Storytelling ajuda a responder todos esses questionamentos: atribuímos valor às coisas (e até mesmo às pessoas) de acordo com as histórias que nos contam sobre elas. Tem vezes que a história pode estar focada em processo de produção, tem vezes que a história gira em torno das características da matéria-prima… já catalogamos 20 diferentes tipos de histórias que as marcas e os mercadores nos contam. Tem vezes que uma história é combinada com outra, formando um enredo com essas histórias, um commodity assume um patamar de valor diferenciado.




No mundo do agronegócio, uma das histórias mais marcantes é a de denominação de origem controlada. Algo que só pode levar aquele nome se for produzido numa determinada região. Por exemplo a champagne, que pra ser champagne, tem que ser feito na região francesa de Champagne. Para não ficar para trás, outras regiões de outros países inventam variações… a Itália por exemplo tem o Lambrusco na região de Emilia Romagna e o Prosecco na região do Vêneto. Nesse caso, não é apenas uma mudança de nome, mas o tipo de uva é diferente de um para o outro. O mesmo acontece com os queijos gorgonzola na Itália e roquefort na França.




A mesma coisa acontece com o vinho do Porto. A variação espanhola é o Jerez, palavra que deu origem à variação inglesa Cherry.




Moral da História: se você trabalha com agronegócio, busque uma história que torne o seu produto mais específico. Produtores, por exemplo, podem se articular para conseguir o selo DOC para algum produto típico de sua região. Outra possibilidade seria inovar no processo e explicar pras pessoas a diferença que isso faz no produto final. É exatamente isso que fazem os autores de filmes, livros e seriados: as jornadas de um herói são muito semelhantes, mas os autores sempre buscam um jeito de criar as histórias e os personagens com algo inédito com relação a tudo o que já foi contado.




Se você conhece outros exemplos de aplicação de Storytelling no agronegócio, comente abaixo. E se quiser dicas de algum outro segmento, conte pra gente. Se quiser ajuda pra contar sua história, conte com a gente ;)




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Dizem que a noite de domingo virou a nova manhã de segunda. Pelo menos para mim essa afirmação faz sentido. É sempre um ótimo dia para responder emails, preparar a agenda da semana e, no meu caso, pensar em projetos e aulas e palestras que estão por vir.

Quem foi meu aluno mais de uma vez sabe que não gosto de repetir aulas. Para que eu mesmo não comece a ficar entediado com o assunto, preciso estar em estado constante de atualização. Neste exato momento preparo um curso inédito de Storytelling com foco em Design e também aproveito para atualizar a terceira edição do Inovação em Branded Content.

Ao mergulhar nos estudos tenho alguns momentos de preciosos em que descubro coisas geniais que aconteceram nos últimos tempos, mas a maior parte do tempo fico frustrado com a maior parte do que encontro. Foi aí que ocorreu a ideia de criar um módulo sobre Os Sete Pecados Capitais do Branded Content. Tem tanto material e exemplos para isso que fica até difícil selecionar os sete principais erros. Ainda assim, existem três gafes que são tão básicas que resolvi compartilhar por aqui, na esperança de ajudar a diminuir as ocorrências.

1. Não perceber que tudo é conteúdo

A palavra 'conteúdo' carrega uma espécie de valor intelectual. Como se fosse preciso 'conter informações úteis' para que algo possa vir a ser considerado conteúdo. Quando falamos em 'branded content' a carga fica ainda mais pesada. É como se branded content fosse algo restrito a empresas descoladas, que fazem coisas muito diferentes. Enquanto isso, empresas tradicionais fazem comunicação tradicional. Seria impossível estar mais errado do que isso.

Toda vez que uma empresa contrata um comunicador para escrever um texto, um designer para fazer uma embalagem, um publicitário para fazer um anúncio e até mesmo estagiários para alimentar a fanpage, ela está contratando um profissional para fazer o seu conteúdo. Quando uma marca faz um conteúdo, ela faz branded content. Então quer dizer que tudo é conteúdo? Sim.

QUAL EMPRESA NÃO ERROU NISSO: A Red Bull, que ao perceber que tudo pode ser um conteúdo de valor, criou uma segunda empresa que ao invés de produzir energéticos, produz apenas conteúdos com a marca.

Mas se as marcas fazem conteúdo o tempo inteiro, então por que é difícil encontrar um bom case sobre o assunto no Brasil? Pois vamos para o segundo erro...

2. Confundir o que é sério com chato

Apesar de podermos categorizar como conteúdo praticamente tudo o que um profissional de comunicação produz, isso não quer dizer que tudo seja interessante. A verdade dolorosa é que a maior parte do conteúdo produzido pelos profissionais em nome das empresas é considerado como entediante. Dessa forma é praticamente impossível que o conteúdo da empresa consiga vencer a concorrência na internet contra videoclipes de bandas e sites de humor. E como a internet não está só no computador, mas também no celular, e como o celular está em todo o lugar, os conteúdos das empresas estão perdendo em todas as frentes.

Seria injusto culpar o profissional, já que muitas vezes ele não recebe liberdade do cliente para realizar algo mais condizente com a qualidade do entretenimento contemporâneo. Também seria injusto culpar o executivo, que tem metas cada vez mais difíceis de serem alcançadas e muito pouco espaço para errar. Quem não pode errar, não pode experimentar. Então os projetos começam a ficar sérios e sisudos. Acontece que num mundo que muda tão rapidamente, muitos acabam errando ao tentar repetir sucessos do passado. Quando o contexto muda, a regra também. Tente fazer uma receita de bolo no fogo caseiro e depois repetir a mesma fórmula, com os mesmos tempos, em um forno de pizzas. O mundo mudou e os conteúdos das empresas não podem continuar sendo feitos nos mesmos moldes das décadas de 60 e 70.

QUAL EMPRESA NÃO ERROU NISSO: a comunicação governamental é muito difícil de ser feita por tratar de assuntos delicados e polêmicos. Até por isso o exemplo da prefeitura de Curitiba é surpreendente. Não é por acaso que a forma como eles se comunicam nas redes sociais vem sendo estudado até mesmo fora do Brasil.

3. Ignorar as regras de placement

Todo o mundo quer expressar alguma coisa. Seja na embalagem do produto, seja no post pessoal da rede social. Em cada texto que escrevemos, queremos transmitir uma informação. Em cada roupa que escolhemos, temos a expectativa de causar uma certa percepção, quem sabe até um certo impacto. Sempre temos um peixe para vender.

Quando uma marca entra no conteúdo de outra pessoa, ela estuda muito bem a forma ideal para fazer isso. Por exemplo, se uma marca participar de um reality show ou de um episódio de uma novela, ela vai conversar com os profissionais da rede de televisão sobre a melhor forma de figurar a marca naquele contexto. O nome disso é product placement. Esse é um estudo muito raro por parecer específico, mas aí que está o erro.

Acontece que quando a marca é dona do próprio conteúdo, isso não faz com que ela possa simplesmente colocar sua marca e suas mensagens comerciais como bem entender. Pelo menos, não sem irritar a audiência. O fato é que a maior parte das empresas e dos comunicadores acaba ignorando isso. Aí, além de chato, o conteúdo da marca passa a ser abusivo.

Às vezes, alguns executivos percebem isso e acabam fazendo o oposto e excluindo completamente a presença da marca. Quando isso acontece, temos uma comunicação que tende a ser interessante, mas no final se você perguntar para a audiência qual era a marca, ninguém vai saber responder.

QUAL EMPRESA NÃO ERROU NISSO: Até por lidar com um público sofisticado, a Johnnie Walker sempre soube respeitar a audiência. O último anúncio, Gentleman's Wager, é uma demonstração de como a marca pode estar presente o tempo inteiro no filme, reforçando seus valores, sem que fique forçada.




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Esse é meu primeiro post por aqui. Estava reservando o espaço para um tema de grande importância. Não achei que teria nada digno do espaço até o fim do ano, mas estava enganado.

Tudo começou quando a Revista Exame lançou a matéria chamada “Toda empresa quer ter uma boa história. Algumas são mentira”. O tema central da matéria é a crítica à "pseudo-história", quando uma marca inventa uma história. Ela cita os casos como os sorvetes Diletto e os sucos Do Bem. Agora a bola de neve cresceu ou, como diriam na gíria de Hollywood "the plot thickened". 

A própria Revista Exame publicou hoje que o Conar está investigando as empresas, que inventaram um avô e um fazendeiro, respectivamente. Para quem fez os cursos de Inovação em Storytelling ou Desvendando o Storytelling essa notícia não trouxe novidade alguma. Os dois casos sempre foram citados como exemplo de que não se pode criar uma ficção e dizer que ela aconteceu no mundo real. Nem o maior mentiroso do mundo consegue dar conta de cobrir todas as evidências. Sempre tem algum indício que vai indicar a mentira. Como sempre digo nos cursos: o Storytelling pune.

A questão da ética é fundamental ao se contar uma história e a mentira, que tem pernas curtas, vai acabar aparecendo mais cedo ou mais tarde. Por isso, a regra é simples: se você estiver contando uma verdade, diga que é baseado em fatos reais e se for mentira diga logo que é uma ficção. As pessoas não se importam com ficção, a lista dos 100 filmes mais assistidos na história do cinema prova isso. As pessoas só não querem ser enganadas.

Não há dúvidas de que o Marketing às vezes exagera em suas histórias, só que da mesma forma como algumas marcas foram longe demais com a invenção de histórias, a matéria também foi longe demais na crítica ao embaralhar os conceitos de pseudo-história (quando uma marca inventa uma ficção e diz que é real) com DOC (denominação de origem controlada).

Ao criticar a água Fiji que de fato vem das Ilhas Fiji e faz um trabalho fantástico com as comunidades locais, a matéria automaticamente critica todo o mundo que se preocupa com a qualidade dos ingredientes: qualquer vinícola; os produtores orgânicos; boa parte das marcas de luxo; as tecelagens mais especiais; os chefs de cozinha... é como se qualquer produto fosse igual, de forma indiscriminada. Não é bem assim.

O grande problema da matéria da Exame acaba sendo a falta de um contraponto. Existem inúmeros bons exemplos de quando uma marca conta uma boa história e a matéria falhou ao não citar nenhum.

A Intel uniu-se à Toshiba para criar uma mentira deslavada: um homem que acorda todos os dias em um corpo diferente. Às vezes ele é jovem e bonito, noutras acorda com o aspecto de uma senhora cansada. Essa metáfora é genial por ajudar a entender um dos dilemas de um processador, que cada vez está em um computador diferente, mas vai ainda mais além quando dialoga com o espírito do momento. Uma geração de jovens no mundo inteiro sente dificuldades de identidade num mundo tão globalizado e disseram que essa história ajudou com que eles se sentissem mais compreendidos.

A mesma coisa vale para a marca Chipotle que inventou a história de um espantalho que se sentia mal ao ver o processo cruel com que os animais eram tratados pelas marcas de fast-food e resolveu se rebelar e fazer algo mais natural. A mesma marca também mentiu ao criar uma websérie em que vacas eram alimentadas com petróleo e podiam chegar a explodir. Duas mentiras que ajudaram a propor uma reflexão importante sobre o que consumimos.

Pelos estudos que fizemos, essa revelação vai manchar a marca para uma boa parcela das pessoas, algo em torno de 40%. Dessa parcela uma parte vai deixar de consumir. Mas existe a parcela das pessoas que não se importa nem um pouco com isso. Seja como for, é uma estratégia que não recomendo a nenhum cliente e já dissuadi alguns a seguir por esse caminho no passado.

Isto posto, ao não existir um contraponto inicia-se um processo de caça às bruxas que é desproporcional ao erro cometido pelas marcas. Ao olharmos todas as marcas no microscópio do puritanismo, nenhuma das 5000 maiores empresas do mundo vai escapar ilesa. A matéria cita algumas marcas que inventaram alguma história, mas existem muitas outras como o Coca-Cola que reinventou o Papai Noel e que falou que as frutas do suco infantil Del Valle Kapo são provenientes de um vale mágico.

Além disso, também podemos falar das marcas que se passam por uma nacionalidade diferente daquela que prometem, como é o caso da estadunidense Häagen-Dazs que inventou uma palavra eslava ou da rede Outback que não tem nem origem e nem cardápio australiano. Mas existem outros problemas como esconder parte da história que de fato aconteceu.

Diversas marcas que apoiaram o nazismo durante a Segunda Guerra não colocam nada disso na sua timeline corporativa, assim como empresas que nasceram de roubo de patente contam uma versão 'higienizada' no seu vídeo institucional.

Esse formato lançador de pedras é bom para inflamar, mas ruim para instruir. Esse tipo de argumentação é que acaba dificultando uma compreensão mais aprofundada sobre temas. Gera-se muita opinião e pouco conhecimento. Assim ficamos reféns de ter que apostar todas as fichas em uma única cor e nos esquecemos de que existe toda a variação de tonalidades.


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Demorou, mas finalmente consegui escrever esse post. Ontem a noite acabei a primeira temporada de Cobra Kai, no YouTube Red, e não consigo pensar em outra coisa. Foi uma das melhores coisas que assisti na vida!

Cobra Kai revive a antiga rivalidade dos anos 80 de Daniel Larusso e Johnny Lawrence, do filme Karatê Kid: A Hora da Verdade, nos dias de hoje. Ao mesmo tempo que a série é nostálgica, também revoluciona a história original do filme ao mostrá-la por outro ângulo. Junte isso a personagens bem construídos, músicas dos anos 80, plot twists inteligentes e um enredo muito bem amarrado e dá para entender o sucesso de Cobra Kai. Mas vamos colocar o olhar do Storytelling para entender tudo isso um pouquinho melhor.



ALERTA SPOILERS

A série começa em 19 de dezembro de 1984, na final do torneio de karatê do filme Karatê Kid: A Hora da Verdade, quando Daniel Larusso vence de Johnny Lawrence usando os ensinamentos do senhor Miyagi. Essa vitória consagra Daniel como herói e Johnny como perdedor, não apenas do torneio, mas do resto de suas vidas.

Logo na cena seguinte o público vê que Johnny nunca se levantou da queda que levou na final do torneio. Ele está jogado em um apartamento minúsculo e acorda para mais um dia medíocre de uma vida que ele detesta, com um emprego insatisfatório, falta de dinheiro, um casamento terminado em divórcio e um filho que o odeia e o ignora. Esse é o primeiro level da Jornada do Herói (Joseph Campbell) de Johnny: o lugar comum. Seu objetivo é deixar de ser um fracassado para ser bem sucedido, e ele encontra no karatê um meio de alcançar isso, reabrindo o dojo Cobra Kai. É a partir disso que a série se desenvolve em um primeiro level.


Enquanto Johnny tem uma vida medíocre por nunca ter se recuperado do chute de Daniel e do destino no passado, seu antigo rival se encontra em uma situação totalmente diferente. Daniel Larusso é um homem profissionalmente bem sucedido, que vive em uma casa grande e confortável com uma família estilo comercial de margarina. Entretanto, logo também vemos que o personagem tem seus pequenos conflitos, bem menores do que os de Johnny, mas não menos importantes. Daniel sente falta de um discípulo, como ele foi para o senhor Miyagi. Além disso, está em constante dúvida e preocupação sobre o modo que educa seus filhos. Se Johnny é inicialmente mostrado como o protagonista que vai percorrer um tipo de Jornada do Herói, Daniel pode até ser seu antagonista, mas não pode ser considerado como "vilão" da série, como no formato original de Karatê Kid. Apesar de Daniel se opor a reabertura do dojo Cobra Kai, seu objetivo na história é ser um bom pai e passar seus conhecimentos de karatê a diante, e isso não entra em conflito com o objetivo final de Johnny.

Com os dois personagens principais da série sendo opostos, mas inspirando simpatia do público por terem caminhos diferentes a percorrer, a audiência precisa de alguém para odiar. Afinal, se todo mundo torcesse a favor de todo mundo em um caminho linear, a história fica chata. Não haveria conflito ou desafio para ela se desenrolar de forma interessante. No filme original Daniel é a personificação de bondade e coragem que precisa derrotar Johnny, a personificação da prática de bullying e covardia. Em Cobra Kai esse dualismo se desenvolve em um segundo level, a partir de um jovem latino chamado Miguel, que é perseguido por Keene, um garoto popular e babaca do colégio. É quando Johnny dá uma surra em Keene e seus amigos que estavam humilhando Miguel que ocorre o segundo passo da Jornada do Herói: o chamado para a aventura, tanto de Johnny quanto de Miguel.


Uma coisa que achei extremamente irônica na série é que ao mesmo tempo que Johnny vira o mentor de Miguel na trama, Miguel vira o mentor de Johnny na Jornada do Herói. Enquanto Johnny ensina karatê Cobra Kai para Miguel, que vai muito além dos golpes da arte marcial, Miguel ensina Johnny a ser uma pessoa melhor e, a partir disso, um homem bem sucedido. O chamado da aventura de Johnny vem de Miguel, que inspira a abertura do dojo Cobra Kai. Em compensação, Miguel também tem sua própria Jornada do Herói para percorrer em um modelo dualístico muito mais próximo ao filme original que a relação de Daniel e Johnny na série atual. Daí a história se desenvolve em dois leveis interligados.

Se na história original de Karatê Kid temos uma luta clara do bem contra o mal, em Cobra Kai a coisa não é mais assim. A luta de Cobra Kai não é mais uma doutrina de ódio contra uma doutrina de paz porque a vitória de um dos lados pode amplificar a força do outro. Por exemplo, ao vencer torneios no passado, Daniel acabou sem discípulos para passar seus aprendizados no futuro e o "ódio" saiu dos tatames para curtir festas do colegial. E, ao seguir a doutrina de "sem misericórdia", Johnny acabou fracassando em todo o resto de sua vida. A questão aqui é equilíbrio, e isso pode ser melhor explicado pelo psicoanalista junguiano Robert A. Johnson. Para Johnson, nosso "lado sombrio" não é algo a ser dominado ou expelido. Essa repressão causa um acumulo de "trevas" que cria uma divisão de ego, pela qual se projeta tudo que é ruim em si em uma outra pessoa , o que resulta em uma luta sem fim, como na rivalidade de Karatê Kid. Na história original do filme essa projeção é feita de forma muito literal na luta dos personagens, com Daniel usando um quimono branco com o símbolo pacífico de uma árvore enquanto Johnny vestia quimono escuro com o símbolo de uma cobra prestes a atacar.


Ao invés de manter a distinção do que é bom e o que é mal (ambas dentro dos personagens), Cobra Kai adapta a fórmula básica junguiana. Afinal, se Jung sugeria que nós devemos reconciliar nosso lado sombrio com o resto de nossa personalidade, o dojo Cobra Kai não deveria voltar para o vale?

Sendo assim, os acontecimentos do filme Karatê Kid: A Hora da Verdade são recontados a partir do ponto de vista de Johnny, o que faz o personagem, antigo vilão e praticante de bullying, ganhar simpatia e admiração do público. A partir de relatos, sonhos e lembranças, vemos que Johnny não era um garoto rico e mimado, mas que sofria maus tratos de seu padrasto e por isso encontrou no karatê Cobra Kai um estilo de vida e uma forma de autoproteção. E também vemos que ele não estava agredindo Daniel de forma gratuita ou praticando bullying. Para Johnny, ele estava apenas se defendendo e lutando pela garota que amava. E, por incrível que pareça, suas atitudes na história original tornam-se justificáveis e compreensíveis. Do ponto de vista do Storytelling, isso é muito importante. Afinal, a audiência precisa torcer pelo protagonista. E ficaria meio difícil torcer para um babaca praticante de bullying, não é?

Em compensação a essa releitura do passado, Johnny apresenta uma mentalidade agressiva e ultrapassada para a atualidade. Ele não mostra compaixão, compreensão ou maturidade diversas vezes no começo da série e tenta resolver as coisas como fazia nos anos 80. É Miguel quem o ensina a viver na atualidade e no ambiente digital. Por outro lado, Miguel também adquire conhecimentos dos anos 80/90 que são benéficos para sua trajetória na série (como a sugestão de local do seu primeiro encontro). Essa troca é um ponto alto da série, já que toca em um ponto sensível a audiência. Os fãs da versão original de Karatê Kid vivem ou viveram essa readaptação de tempos. Afinal, muito mudou desde os anos 80. E, apesar e muita coisa ter mudado para o bem, outras coisas deixaram saudades.


Conforme desafios e conflitos são superados, outros surgem dando movimento e fluidez à série. Miguel se envolve amorosamente com a filha de Daniel em uma espécie de romance proibido. O filho delinquente de Johnny vira discípulo de Daniel. Os alunos de Johnny deixam de ser perseguidos no colégio para se tornarem aqueles que perseguem. É no andar dessa carruagem que a primeira temporada acaba em uma espécie de cliff hanger que está me fazendo contar os dias para o lançamento da continuação. Entretanto, apesar do cliff hanger, o episódio final mostra que Johnny aprendeu uma valiosa lição: uma vitória suja não é uma vitória. E seu desafio para temporada seguinte será ensinar isso para seus alunos ao mesmo tempo que mantendo-os prontos para o combate contra o dojo Miyagi, prestes a ser reaberto por Daniel. O dojo Cobra Kai pode não querer mais uma vitória suja, mas também não vai querer ficar sem vitória. Se nessa primeira temporada os caminhos de Johnny e Daniel não eram conflitantes, as aparências indicam que na segunda temporada as coisas serão diferentes.

Em suma, Cobra Kai é uma série nostálgica sobre uma antiga rivalidade que passa duas mensagens poderosas: 1- nunca é tarde para se recuperar de chutes do passado; 2- encontre seu equilíbrio. Ambas as mensagens se encaixam perfeitamente em necessidades do público em um momento de mudanças radicais e busca por identidade diante de um cenário mundial binário. Sendo assim, aguardemos a o futuro da série. Mas, de um modo geral, a primeira temporada foi um show de Storytelling.