Alguns minutos depois do trem sair da estação a solidão de Chetan é interrompida pela aparição inesperada de uma moça, que anunciava ser sua nova companheira de viagem. Chetan, um tanto distraído pela beleza da nova companhia, se apresenta e fica ainda mais distraído quando é reconhecido pela moça. O escritor não estava acostumado a ser reconhecido, não era exatamente famoso e jamais imaginou que seu primeiro livro teria sido lido por uma moça tão jovem e tão bonita.

 Ao perguntar para a moça sua opinião sobre a obra o ego de Chetan sofre um golpe repentino. Um tom malicioso de aprovação expressa a qualidade mediana de seu trabalho através da voz delicada da moça de olhos hipnotizantes. Por entre discussões e alfinetadas de ambos os passageiros, a jovem moça oferece ao escritor uma história para seu próximo livro e impõe a condição de que, antes de contá-la, Chetan teria de prometer que usaria a história em seu próximo romance. O rapaz, resistente, nega a promessa por algumas horas, não seria prudente da parte de um escritor prometer escrever sobre uma história desconhecida. Porém, eventualmente vencido pela insônia e pela beleza da moça o rapaz resolve ceder ao pedido em troca da história.

A história acima é usada no livro “One night @ the Call Center”  para explicar como Chetan Bhagat obteve a idéia do livro. A viagem de trem que parecia apenas mais uma viagem de volta para a casa acabou rendendo ao autor duas ótimas histórias, a primeira sobre a realização do sonho de dividir a cabine do trem com uma moça bonita, ao invés de senhoras falantes. E a segunda sobre um grupo de amigos indianos que trabalham em um Call Center de madrugada e recebem uma ligação inusitada.

Viagens, mesmo curtas, são capazes de render inspiração para muitas narrativas, a viagem de trem do autor é um exemplo disso, mas caso queiram acompanhar outra viagem que irá render muitas outras histórias é só entrar na página do W’writer e ler o primeiro capítulo de APróxima Maravilha.




Junior aprendeu os truques com o avô. Na mesa todos assistem seus movimentos com a maior atenção que podem providenciar por entre as luzes e sons das máquinas do cassino. A linha entre a verdade e a mentira é tênue e todos dividem o interesse em descobrir a verdade. Os olhares rápidos e atenciosos do rapaz, que aprendeu a lidar com as cartas antes mesmo de se formar no colegial, fazem parte de seu show. Tudo é ensaiado desde a pequena dança com os dedos até o discurso leve e engraçado. Muitos outros já haviam sido enganados por blefes e brincadeiras como aquela. Não era a primeira vez que ele fazia aquilo. Na verdade, ele era um especialista. Com as cartas escondidas entre as mangas, bolsos e qualquer outro lugar propício, Junior ganhava a vida. Não é um jogo, muito menos uma brincadeira, o que o jovem rapaz faz é uma arte.

A moça de vermelho o olha com ar de desconfiada, como quem assiste a um charlatão dando seu golpe. O homem de terno italiano não consegue esconder a surpresa em seus olhos e entre uma dose e outra desvia o olhar para a saia da garçonete. Tudo ali parece proposital, planejado para que o golpe dê certo. Inclusive a saia da garçonete. É um mundo de fantasia onde todos perdem a noção do que é real. As leis da física parecem desaparecer. Não saber se é dia ou noite causa confusão na cabeça das pessoas e em algum momento elas acabam por se perder em um tempo próprio. A senhora de vestido florido dá gargalhadas ao perceber o que tinha acontecido. Parecia até, que ela não estava presente durante todo o processo.

No fim das contas, Junior responde aos aplausos do público com um aceno sorridente enquanto cartas voam pelos ares e o melhor mágico do mundo desaparece por detrás das cortinas.

Ser um storyteller é como ser um mágico, mostrar para o atento apenas o que é interessante, pulando as partes chatas da vida e deixando no ar o delicioso sabor de “quero mais”.



Era apenas mais uma quinta feira e já da porta de entrada da escola eu podia ouvir meu professor. Era possível perceber na música que saia daquele instrumento a felicidade e a confiança de quem conversa com um amigo intimo de outros carnavais. O som rouco rasgava o ar como se o instrumento e o instrumentista por alguns momentos se tornassem um só. Toda aula eu entrava na sala perguntando como é que ele fazia aquilo? Porque é que o som dele saia tão limpo e seguro, enquanto o meu ainda era fraco e pouco marcante? Toda aula eu tinha a mesma resposta: “Um dia você descobre” – dizia, Jairo, um homem sorridente e sempre bem humorado, antes de bater com os dedos na partitura para que eu começasse a tocar e parasse de falar.

Quando achei que meu instrumento não era capaz de criar um som como aquele, o Jairo provou que era possível e que o instrumento, coitado, não tinha nada de culpa. Mesmo sabendo que a culpa não era do sax, gastei uns dois ou três salários entre instrumento e acessórios novos. Aumentei as horas de aula semanais. Eu precisava saber como é que ele conseguia tirar aquele som. Transformei o saxofone em uma espécie de obsessão adolescente, gastava horas do meu dia tocando, experimentando, estudando, todos os dias, esperando que um deles fosse o dia em que eu descobrisse como tirar aquele som.

Um belo dia, a resposta para a minha pergunta mudou: - Cante as notas enquanto toca, use a língua e a boca, faça pressão na palheta e escute, é assim que vai aprender a tirar esse som!” – me disse Jairo  com seu sorriso bem humorado disfarçado por detrás de um olhar sério de professor. Eu escutei aquelas palavras como se estivesse escutando algum tipo de segredo universal, como se alguém me entregasse a fórmula da felicidade. Tentei cantar com as notas, fazer mais pressão, tentei escutar enquanto tocava, até tentei gravar meus estudos para me escutar tocando. Mas não consegui chegar nem perto do som que pretendia chegar. Dormi tentando decifrar o que estava fazendo de errado.

Na aula seguinte montei o saxofone e comecei a tocar, depois do primeiro exercício o Jairo me elogiou, era difícil conseguir um elogio dele, soltei um sorriso, mas não me segurei – Jairo, não consegui tirar aquele som rasgado que você tira, tentei fazer tudo o que você disse e não consegui, porque? – perguntei com um ar de adolescente inconformado.

- Luis, calma, você melhorou muito seu jeito de tocar porque tentou tirar aquele som, mas eu não te ensinei tudo, falta um truque.

- Qual truque? Por que você não me ensinou o truque então?

- Porque se eu te ensinasse o truque você ia parar de procurar por ele, e é procurando que a gente aprende. – respondeu o professor com o mesmo sorriso de sempre enquanto batia na partitura para que voltássemos a tocar.

Anos depois disso, outro professor, outro grande mestre meu me ensinou que quando escrevemos uma história o leitor deve procurar por respostas para continuar lendo. Uma boa história dá a sensação de curiosidade e confiança de quem tem uma conversa íntima com um amigo de outros carnavais. 




O relógio bate naturalmente, mas a sensação é de que o tempo acelera e parece acompanhar o batimento do coração daqueles que anseiam por uma resposta. A mochila pronta está deitada na porta de entrada do apartamento, como um cão que espera a hora do passeio. O artista, que aguarda o início de sua jornada pelo mundo, corre contra os batimentos cardíacos do universo para que fique tudo organizado antes de partir do seio de sua pátria para as novas páginas de um romance moderno.

O celular apita, mas ainda não é hora de partir, é apenas mais um sinal de ansiedade de quem fica e apenas sonha em protagonizar uma história fantástica. Nosso herói esboça um piscar de olhos de quem ameaça acordar, mas é apenas um pequeno lapso entre os sonhos e o mundo em que vivemos. A fina linha entre a verdade e a ficção talvez desapareça em um piscar de olhos que revele as maravilhas do mundo. Talvez demore mais do que algumas voltas completas de um relógio de parede para que o tempo se acostume com a ideia de ser deixado para trás. Talvez seja um apito como esse, ameaçando o sono de outra pessoa, que revele em uma simples mensagem de celular, as mais belas cores e formas de um universo completamente novo.
   
Enquanto o futuro é preenchido por palavras fabulosas e histórias grandiosas, o apartamento já apresenta os primeiros sintomas da solidão vazia por se tornar um baú de memórias de quem se afasta do que é, em busca do que poderia ser.  Há quem diga que já pode sentir o cheiro das palavras saindo das mãos do escritor que se prepara para viajar pelo maravilhoso mundo do outro lado do oceano. Outros dizem saber onde é que está o que o W’writer procura em sua jornada. Mas no fim todos anseiam por uma resposta para a pergunta que permeia todo esse maravilhoso universo novo: qual será a Próxima Maravilha da humanidade? 




Tyrion Lennister é um anão que só teve sua vida poupada por pertencer à família mais rica de todos os reinos. Por causa de sua situação física Tyrion voltou todos os seus esforços para desenvolver habilidades intelectuais, se tornando um mestre em estratégias de governo. Tyrion é a “mão do rei”, ou seja, o segundo em comando no reinado de seu sobrinho Joffrey, um jovem despreparado para o trono. Tyrion tem como único objetivo proteger a integridade de sua família e defender o trono de seu sobrinho.
   
Para Robb Stark o trono da capital é apenas um trono e não possui muita importância. Ele luta para defender o povo do norte, assim como seu pai lutou antes de ser assassinado. O reinado de Jofrey representa, para a família Stark, o reinado da corrupção e da injustiça. Além de vingança, Robb marcha em busca de suas irmãs, Aryia e Sansa, que supostamente permaneceram como prisioneiras do rei e sua família. A luta de Robb Stark é pessoal e não carrega tanta carga política.

No último post falamos um pouco sobre a importância de um bom personagem em uma narrativa e como toda história precisa de um ponto de vista. Mas será que precisamos mesmo, de apenas um ponto de vista?
George R. R. Martin, o autor de “A Guerra dos Tronos” parece discordar que um ponto de vista seja o suficiente para sua história e nos apresenta a narrativa em uma espécie de “carrossel” de pontos de vista, sendo cada capítulo apresentado por um personagem e seu ponto de vista único da situação.

Quando pensamos em criar uma narrativa, pensamos automaticamente em um protagonista, ou seja, o personagem responsável pelo ponto de vista que irá apresentar a história. E em um antagonista, aquele que irá nos apresentar um contra ponto ao protagonista. O antagonista não é necessariamente um vilão típico, que quer dominar o mundo ou destruir o mocinho e isso fica claro na saga de “A Guerra dos Tronos”.  

 Ao assistir a série, ou ler o livro, o atento é levado a participar de uma experiência nova e curiosa. A sensação de não saber para quem estamos torcendo é algo com o qual não estamos acostumados. Ainda mais quando queremos torcer por todos, ou quando o personagem para quem torcemos se demonstram inimigos de outro personagem com motivos e objetivos justos, tornando-se de certa maneira um vilão.
 Mas para que isso seja possível não adianta apenas apresentar a história por vários pontos de vista. É preciso que o autor tenha, assim como George R. R. Martin, a maravilhosa habilidade de criar bons personagens. Fazendo com que cada personagem seja o “herói” de sua própria história e dando para cada um deles uma verdade humana forte o bastante para que nós, os atentos, possamos nos relacionar com seus motivos e entender seus objetivos.

Quando todos os objetivos, independente de quem é o protagonista ou antagonista, são verdadeiros, a história fica autêntica e crível. Somos naturalmente atraídos por bons objetivos e boas histórias, e para que as histórias sejam boas, os pontos de vista devem ser honestos e claros. É a honestidade do personagem que nos faz acreditar em todo o universo da narrativa e prende a nossa a atenção, cria expectativa e nos transforma em atentos, além de espectadores ou curiosos.