Eu devo admitir que nunca fui uma pessoa muito visual, nem nunca me aventurei pelo mundo das artes plásticas. Sempre achei bonito e sempre quis saber desenhar, mas apenas isso, apenas uma vontade adolescente que vira e mexe volta a me assolar em dias de garoa e poucas palavras. Algumas  imagens, principalmente fotografias, me chamavam a atenção, mas sempre por causa de alguma coisa que eu nunca consegui entender, algum tipo de curiosidade difícil de controlar sobre aquele momento eternizado pelo pintor ou pelo fotógrafo.

Quando descobri minha paixão pela escrita e comecei a me jogar cada vez mais dentro de livros, blogs, textos e filmes eu percebi, meio que de maneira inocente que a escrita é visual e que o leitor deve conseguir imaginar a partir de suas referências pessoais o mundo que o escritor criou. Comecei a encarar as narrativas como quadros, um sequência de imagens como em um filme, construídas apenas com palavras, significantes e significados montando um universo de engenharia completa. Essa minha visão surgiu bem antes do storytelling entrar na minha vida, mas quando conheci a escrita de narrativas para a publicidade acrescentei técnica aos meus "quadros mentais" construídos a partir das imagens escritas por Carrol, Douglas Adams e muitos outros. Foi após conhecer o storytelling que entendi o importante papel das perguntas durante a criação de uma narrativa, por exemplo.

O vídeo abaixo me chamou a atenção e me convenceu a virar post por dois motivos, sendo que o primeiro é a simples inversão de papéis, ao invés de criar a imagem mental para a narrativa, criar a narrativa para a imagem mental. Segundo que o processo criativo apresentado, algo meio que "perguntas e respostas" é uma técnica útil e bastante usada para escritores em momentos difíceis de suas obras. Vale a pena ver o vídeo e terminar o feriado pensando em belas imagens e palavras.





Post de madrugada, um tanto atrasado, mas ainda no clima de Halloween e ainda falando de transmídia. A série True Blood da HBO já colocou nas prateleiras dos super-mercados americanos a bebida Tru Blood que de acordo com a história é um sangue sintético desenvolvido por cientistas que permite que os vampiros sobrevivam sem se alimentar de seres humanos, o que faz com que os vampiros parem de se esconder e se revelem na sociedade.

No episódio de número 3 da quarta temporada um dos personagens da série convidas todos os humanos a entrarem em um site, e adivinhem só o que acontece quando realmente procuramos a página na internet. O site realmente existe é nada mais é do que uma página de blog dedicada a provar a existência de vampiros em nossa sociedade. Caso você seja como eu e ainda esteja no clima do Halloween, vale a pena dar uma conferida no site http://www.vamps-kill.com

Eai, você acredita em vampiros?



O poder do storytelling fica evidente com o Halloween... uma festa que nunca fez parte da cultura brasileira, mas que hoje toma conta dos posts no Facebook. É o poder das histórias de levar a outros povos a sua cultura.

Mas o que o Halloween tem de tão fascinante? Ora, os monstros! Mais do que um "roleplaying" de heróis, essa é a festa do "dark side". E como sabemos, é justamente a sombra que destaca a luz. São os vilões que mostram do que os heróis são feitos.

Falando em monstros, a DisneyPixar acaba de fazer mais uma jogada de mestre: expandiu sua franquia Monstros SA de forma surpreendente... mostrando o passado dos personagens. O raciocínio é genial: o que as pessoas fazem antes de irem para as corporações SA? O trailer a seguir dá a resposta...



Não só está trabalhando seu universo de forma exemplar, como ainda está criando toda a plataforma de transmídia com mais afinco do que muita instituição do mundo real. Veja só esse site da Universidade dos Monstros... melhor do que muito site de universidade real, não é mesmo?


E se não existissem histórias? Esse recurso amplamente utilizado no storytelling pode ter servido de inspiração para a criação desse conto de origem africana. O autor não se sabe ao certo. O conto foi recolhido na tradição oral da África ocidental e está recheado de simbolismo e elementos mágicos. Não estamos falando de um sabre de luz, mas um elemento comum na região: um pássaro. Mas não é qualquer pássaro. Ele tem algo especial. Temos também uma bebida, que carrega forte simbolismo religioso. E no retorno com o elixir ainda ganhamos uma preciosa dica para colocarmos em prática com o storytelling que fazemos hoje. 

Por isso sou apaixonada pelas histórias africanas.   




Porque os contadores de histórias têm boa memória e apreciam bons vinhos

Os pássaros não podem escrever, eles têm penas demais.
Ora, conta-se na África ocidental que no início dos tempos não havia histórias e também não havia sabedoria. O mundo era muito triste. Por isso, o primeiro contador de histórias foi também o primeiro buscador de histórias que saiu pelo mundo afora acompanhado de um pássaro-escrivão: o marabu.

O marabu é o único pássaro que sabe qual das penas do seu traseiro deve ser arrancada para que, com ela, se possa escrever, o que faz dele um pássaro especial. É por isso que foi escolhido para sair pelo mundo, pousado no ombro do primeiro buscador e contador de histórias.
Andaram pelo mato afora, pela savana e ao longo dos rios para escutar os ventos, as pedras, as águas, ás árvores e os animais. E encontraram muitas pessoas até então desconhecidas que iam lhes contando suas histórias.

Munido da pena arrancada de seu traseiro e utilizando uma tinta feita de água, pó de carvão e goma-arábica, o marabu-escrivão anotava conscienciosamente todas as histórias que escutava. O buscador e contador de histórias caminhava e pensava:
“Não me será possível recordar todas essas histórias.”
Mas o marabu continuava a ouvi-las e a escrevê-las.

Pois saibam que, uma vez tendo voltado para casa, o primeiro buscador e contador de histórias obteve a solução para o problema que o atormentava. Seguindo os conselhos do marabu, encheu de água uma grande cabaça e nela mergulhou todas as histórias escritas. Durante a noite, naquela cabaça, que na África é chamada de canari, as palavras escritas com tinta se dissolveram na água. No dia seguinte, na refeição da manhã, o marabu mandou que o buscador e contador de histórias bebesse todo o conteúdo do canari como desjejum.

Assim, todas as histórias bebidas tornaram-se histórias sabidas.

Se por acaso você precisar beber uma história, escute o meu conselho: beba tudo. Não deixe nada no fundo do copo, porque isso poderia dar um branco em sua memória.

Essa é a razão pela qual, em todos os tempos, os contadores de histórias sempre foram, também, bons bebedores de vinhos.  

Conto publicado no livro O Ofício do Contador de Histórias, de Gislayne Avelar Matos e Inno Sorsy



A mesma história pode ser contada de várias formas e uma das mais frequentes companheiras do storytelling é a transmídia, então, eu preparei um "conto publicitário" em várias mídias e vou postar os pdfs aqui. A ideia é que cada mídia faça sentido individualmente porém que a união de todas as mídias forme uma narrativa ainda maior. Nesse caso comecei com um conto literário: 

"Ela entrou na sala, doce como sempre, meio como doce de limão, eu imagino. Afinal, nunca comi doce de limão, nem sei se existe para ser sincero, mas sei que se existe deve doer na boca, bem fundo no maxilar, você sabe como é, já deve ter comido abacaxi. A moça, apesar de doce, estava dura, dura como alegria que dura pouco. O copo do rapaz do outro lado do salão caiu e quebrou de espanto, ela andava até ele, em silêncio, como se até as suas palavras estivessem economizando energia. Pedro, um pobre-quase-coitado nem sabia o que estava por vir. Sua vida agora seria uma miséria, eram palavras tristes, copiosas lágrimas, gritos, todo o show normal de qualquer mulher traída. O que o homem antes usava para causar inveja nos amigos: suas duas mulheres. Agora era o motivo de todo o o sofrimento do seu coração miserável. Meus olhos a seguiam por cima de seu ombro, vendo Pedro, assustado, sentado ao lado da outra, sem nem a mais absurda das ideias para salvá-lo.

Pedro corre na direção de Mariana, mas não consegue alcança-la antes de ouvir o barulho alto e ameaçador do disparo. O rapaz acorda em seu quarto, assustado, olha no relógio e vê que ainda é madrugada, respira fundo e deita novamente no travesseiro. Olha para o lado, vê a pequena embalagem colorida onde lê: "Deixe o drama para os escritores. Durma em paz com sleepingpills". 
Depois do conto literário a história continua em forma de roteiro de vídeo.



Por fim escrevi uma parte do conto em forma de roteiro de revista em quadrinhos, adoraria ter a habilidade artística de realmente produzir os quadrinhos, mas infelizmente não tenho e prefiro ater-me ao uso de palavras.