Quando alguém pergunta o que há de novo nessa história de contar histórias, a resposta básica é a de que o storytelling nasce de uma demanda por novos caminhos para se comunicar. E no momento em que jornais, além de venderem seus produtos físicos impressos em papel, também limitam e cobram para ler notícias a mais na internet, como tem feito e irritado o portal da Folha, o jornalismo também não escapa dessa necessidade por novos estilos.
A cada trinta segundos vemos um novo comercial na televisão, a cada minuto o Facebook tem de selecionar as atualizações que vão aparecer em nosso feed e a cada cinco minutos os portais de notícias atualizam suas manchetes. No fim das contas, seja um detergente, um automóvel ou uma série de reportagens, a preocupação é a mesma: como vender o meu peixe no século XXI?
Em linhas gerais a resposta para essa pergunta será: conte uma história sobre seu peixe. É a partir disso que se diferenciam as histórias contadas pela publicidade e pelo jornalismo. Seguindo com a metáfora, podemos dizer que a segunda delas não pode ser história de pescador. Ou seja, quando o produto é a notícia, o fato, só o que resta para inovar é o telling jornalístico.

 Em uma realidade de constante busca por atenção na comunicação, vale ficar atento para os exemplos que não param de surgir. Se há pouco tempo o único caso de storytelling em jornalismo era “Snow Fall”, do New York Times, recentemente o mesmo jornal lançou também o “Tomato Can Blues”. Quem sabe um dia os jornalistas daqui aprendam com o “NYT” e nós até passemos a considerar pagar para ler mais notícias. 

Toda narrativa começa com um high concept, grã-conceito ou sinopse, chame como quiser, esse é um elemento fundamental, é a ideia geral da sua história, é o que você promete, portanto deve entregar, ao seu espectador. High-concepts de filmes podem ser pensados como viagens, partindo de um ponto A para chegar em um ponto B. Syd Field, autor de Screeplay e um dos mais famosos especialistas na técnica da escrita de roteiros, defende que antes de colocar qualquer palavra no papel o autor deve saber o final da história. Quem viaja sem destino, nunca chega a lugar nenhum. Escrever é um exercício tanto de reflexão quanto de disciplina, quando não sabemos para onde vamos, tendemos a nos perder no meio do caminho. 

Em uma série de televisão, porém, o caminho em si é tão importante quanto o ponto A e o ponto B, afinal, uma série é um formato narrativo longo, e é ai que mora o grande desafio: você tem que convencer as pessoas, o tempo todo, a voltarem para aquele mesmo canal, naquele mesmo horário, semana após semana, para continuar assistindo a sua série. No fim das contas, estamos falando de um produto cultural que depende única e exclusivamente da atenção dos espectadores para sobreviver. Acreditem, somos mais econômicos com nossa atenção do que jamais seremos com o nosso dinheiro. 

Apesar da importância de termos o nosso trajeto planejado, do ponto A ao ponto B, séries normalmente não são como filmes e não se baseiam em uma situação específica, ou seja, ao invés de escrever uma série sobre um cara em busca de uma namorada, normalmente se escrevem series sobre as aventuras de um cara solteiro. Mas por quê? Se a história é sobre um cara que procura uma namorada ela tende a acabar quando ele encontra uma namorada, mas se a sua história é sobre as aventuras de um cara solteiro, ele pode ter diversas namoradas, viver diversos relacionamentos, e no fim, sempre terminar solteiro. O ponto A e o ponto B, são bons guias para quem está criando a narrativa, mas podem ser um problema para alguns espectadores, talvez seja por isso que as séries de maior sucesso dos últimos tempos tem sido baseadas em universos ou personagens mais generalizados. 

Dexter, por exemplo é a história de um serial killer de serial killers, não tem, em sua promessa, os pontos A e B, assim como House, uma série sobre um médico especializado em diagnósticos difíceis de casos raros, com uma promessa como essa há uma imensidão de doenças e situações que são capazes de segurar a série e atenção dos espectadores por várias temporadas. Friends, uma série sobre um grupo de jovens adultos que moram em Nova York, colecionou fãs por 10 anos. Outro aspecto interessante, que podemos nos aprofundar em outros posts, é que em sua maioria as séries de maior sucesso dos últimos anos são baseadas nos personagens e não nas situações, ou seja, em Homeland ao invés de  uma série sobre um grupo terrorista, temos uma série sobre um soldado americano que foi prizioneiro de um grupo terrorista por oito anos e voltou para os Estados Unidos transformado, com um diferente ponto de vista sobre a vida. 

Até mesmo Breaking Bad, a série que entrou para o Guinnes book como a melhor série da história, continha em sua promessa ao espectador a jornada de um professor de química super-qualificado que se tornou fabricante de drogas ao ter que refletir sobre a vida enquanto enfrenta um câncer de pulmão. Podemos analisar mais 20 séries e iremos perceber a importância dos seus protagonistas para a narrativa e um dos principais motivos é que uma pessoa interessante é capaz de gerar histórias para várias temporadas, uma pessoa não tem limite de tempo como uma situação. É claro que há exceções, como em todas as regras, mas caso você esteja pensando em criar uma série, seja para se divertir, ou para divulgar os serviços ou produtos da sua empresa, pense no ponto A e B e depois preencha o caminho entre um e outro com um bom personagem que te permita mobilidade de ação. 

Quando falamos das razões para fazer storytelling na comunicação contemporânea, inevitavelmente falamos em conquista de atenção. Aliás, o primeiro a falar sobre isso foi Herbert Simon, quando disse:
“O excesso de informação gera a escassez da atenção.”
Essa frase é a base do que chamamos por “Economia da Atenção”, ou, resumindo em poucas palavras, “está cada vez mais difícil fazer o seu consumidor prestar atenção no que você tem a dizer”. Recentemente, dois grandes pensadores da comunicação também colaboraram com o mesmo diagnóstico. Umberto Eco foi o primeiro deles:
“O excesso de informação provoca amnésia.”

E em sequência, foi a vez do filósofo polonês Zygmunt Bauman, ao afirmar que nos dias de hoje o excesso de informação é mais perigoso do que a falta dela. Levando essas três cabeças em conta, como comunicar a sua marca para um público cada vez mais distraído aos intervalos comerciais?
Pois é em meio a isso que o storytelling surge, ou ressurge, e fica tão em voga à tudo que diz respeito a comunicação publicitária. Se contar histórias na publicidade é um artifício de longa data, é também pela falta de atenção do consumidor que atualmente se fala em storytelling para inovar.
Também por isso é que quando falamos em storytelling, os exemplos não são só da publicidade ou do marketing. Afinal, se os publicitários penam para conseguir manter 30 segundos de atenção, enquanto o Quentin Tarantino continua fazendo filmes de sucesso com quase 3 horas de duração, nos queremos entender o porquê e como podemos fazer semelhante para uma empresa.




Olá pessoal de RECIFE e região: no fim do mês teremos curso intensivo de Storytelling. 25 e 26 de outubro com técnica e prática de como contar histórias na comunicação, no branding e na publicidade. 


MÓDULOS:
- Storytelling, a grande inovação: De onde veio, por que surgiu, o que é e como usar Storytelling. Por que se tornou uma tendência no mundo corporativo e como empresas e agências podem se beneficiar disso.
-Storytelling em apresentações: como transformar um .ppt em uma performance inesquecível. -Storytelling corporativo: a evolução possível do storytelling dentro das organizações e como tem ajudado os executivos a otimizarem seus principais atributos: liderança, engajamento e viralização.
-Storytelling e Branding: como as marcas podem ganhar personalidade a ponto de se tornarem verdadeiros personagens.
-O Story do Storytelling: como compor uma história realista capaz de englobar tudo aquilo que se quer e que se precisa dizer.
-O Telling do Storytelling: como contar a sua história da forma mais intrigante possível e fazer com que seja adotada por uma cultura.
-Transmídia Branded Content: como planejar a distribuição da história em diferentes veículos de forma orquestrada e harmônica.
PÚBLICO-ALVO

Publicitários, designers, empreendedores, gestores e interessados em inovação de maneira geral.
CRONOGRAMA

Carga horária: 10 horas
Dias: 25/10 Sexta - 19h às 22h
26/10 Sábado - 09h às 18h

Mais informações e inscrições aqui:
http://www.3emeio.com.br/?p=1311&curso_detalhe

Quem assistiu ao filme “Obrigado por fumar” deve lembrar da sugestão do protagonista Nick Naylor em colocar atores fumando nos filmes como tentativa de elevar o número de fumantes nos Estados Unidos. Sete anos após o filme ir ao ar, os produtores da série “Mad Men” parecem, senão ter se consultado com Nick, ao menos aprendido com a sua ideia.

A questão é que, na série, Don Draper, diretor de criação da Sterling Cooper Draper Pryce, não só tem a Lucky Strike como cliente, como também fuma os cigarros da marca. Ainda que não dê pra vincular diretamente um fato ao outro, foi o que o britânico The Telegraph fez e constatou: desde a estreia da série, em 2007, as vendas de Lucky Strike aumentaram em 10 bilhões de maços anuais.
Se o tema “publicidade e cigarro” já é pra lá de polêmico, quando storytelling e product placement entram no meio, a discussão ética fica longa demais para um só post. Fato é que a inserção contextualizada de um produto considerado tão nocivo à saúde gera questões para as duas faces da moeda.
Por um lado, usar o poder de persuasão de uma boa história como Mad Men em prol do fumo pode parecer errado.

Por outro, proibir a inserção do cigarro seria, inevitavelmente, sinônimo de censurar que boas histórias, como a de Mad Men, fossem contadas.
Como uma última tragada desse post, uma frase que ouvi certa vez de um defensor da liberdade na propaganda, de um Nick Naylor por aí:“proibir a comunicação e permitir o consumo é considerar a publicidade mais nociva à saúde do que o próprio cigarro”.
A pergunta que fica é: o que é mais perigoso, uma boa história ou o cigarro?