Edição de março de 2020.

Aqui é Fernando Palacios, o primeiro a estudar e praticar Storytelling aqui no Brasil. Que tal começar Anos 20 com uma pitada de tudo o que está acontecendo no Mercado do Storytelling? Novidades, tendências e dicas. Essa é uma edição anual e compila os destaques dos últimos meses.
Histórias contagiosas. As histórias se transmitem de uma pessoa para outra. Sabemos disso desde quando vivíamos em cavernas. No geral isso é bom. Graças a isso preservamos a receita da cerveja antes mesmo de termos inventado a escrita. Só que também tem o inverno. O Corona vírus é um ótimo exemplo.
Claro que devemos tomar todas as precauções. É interessante ver as pessoas passando mais tempo lavando as mãos e potes de álcool gel espalhados pelos cantos.
Talvez por estarmos na primeira pandemia monitorada, algumas medidas fazem parecer que estamos tratando o vírus como se fosse o Apocalipse Zumbi finalmente acontecendo: destinos banidos, países fechando as fronteiras, expulsando ou "sequestrando" turistas. Cancelaram a temporada de NBA, jogos de futebol e grandes eventos como SXSW, MWC e até mesmo eventos públicos como casamentos e funerais
A questão é que essa narrativa dramática está gerando problemas reais possivelmente maiores do que os impactos da doença em si. A desinformação leva ao medo. O medo leva ao alarmismo. O alarmismo, ao pânico. O pânico leva aos supermercados lotados e gôndolas vazias. Leva ao isolamento e à discriminação quando deveríamos estar nos unindo e trabalhando em grupo.
O pânico, já foi contabilizado no mercado e levou a um trilhão de reais em perdas. Algumas indústrias estão entrando em colapso e se a história alarmista continuar se alastrando, muitas empresas irão quebrar. A começar por companhias aéreas… e chegando às bolsas. Uma história de muita incerteza, mas também esperança. E que a o hábitos de higiene adquiridos não se percam quando tudo isso acabar.
Enquanto alguns adoecem, outros curam. Quem marcou o maior gol da temporada foi Cristiano Ronaldo, que transformou seus hotéis em hospitais. Quem se deu mal por tabela foi a cerveja Corona, que não tem nada a ver com a história, exceto pelo nome.
Falando em saúde, Storytellers tomam do próprio remédio. Para planejar os Anos 20s, os Storytellers contrataram o método StoryStorm da própria Storytellers. Tem sido uma experiência interessante com um cliente difícil. Exigente em termos narrativos. Pois é, estamos num processo de usarmos internamente as ferramentas que aplicamos aos clientes na hora de planejar uma plataforma transmídia de conteúdos. Estamos desenhando uma década de projetos e programas. Se quiser saber em primeira mão, assine a newsletter mensal: Penúltimas do Storytelling.
Enquanto o Corona quebra o mercado, Parasita quebra as bilheterias mundiais. Além de levar suas quatro estatuetas no Oscar, o filme está batendo recordes de bilheterias em diversos países e, por tabela, influenciando o consumo. Storytelling tem esse poder de influência. Na década de 50 James Bond inseriu a vodca no mercado americano. No começo do milênio Sex And The City levar o drink Cosmopolitan para cardápios de bares de todo o mundo. Agora é a vez de Parasita tornar o jjapaguri prato obrigatório em restaurantes famosos (e que, há quem diga que é ótimo pra quem pegou o Corona vírus).
Por fim, como não podia deixar de ser, Parasita também impactou o turismo da Coreia do Sul. Assim como Código Da Vinci levou multidões a percorrer uma rota em Paris e Game of Thrones tem seu roteiro de pontos de interesse pela Europa, agora existe um tour pelos subúrbios de Seul.
Uma das histórias mais inusitadas do ano envolve o rei dos roles aleatórios, Ronaldinho Gaúcho. Que o bruxo dos dribles foi pego no Paraguai por falsificação de documento todo mundo já sabe. Mas alguém previu isso muito antes, em 2015. Mauricio de Sousa - no melhor estilo "previsões dos Simpsons" - fez uma edição da Turma do Ronaldinho que prova que nem sempre é a arte que imita a vida. Nesse caso, a vida plagiou a arte.
Do RH para o Storytelling, Ingrid Perussi é a nova sócia da Storytellers: "executiva de RH de grandes empresas, mas exatamente por querer estar próxima de pessoas e ajudá-las a contar suas histórias fez sentido virar uma Storyteller." Pra saber o que tem por traz disso tudo ouça o podcast ;-)
NA HORA DO RH tudo que envolve histórias nos tais Recursos Humanos. Nao só no sentido empresarial, mas de gente, de comportamento, de melhores versões de nós mesmos, de como nos capacitar melhor, o que gostaríamos de ver e receber das empresas em que trabalhamos... Novos episódios toda segunda.
Algoritmos estão aprendendo a escrever cada vez melhor, e logo mais não saberemos se o que estamos lendo foi escrito por uma pessoa ou uma inteligência artificial.
Inteligência Real. Enquanto muitas empresas recorrem à automatização via inteligência artificial para atender seus clientes, aqui na Storytellers preferimos um atendimento mais pessoal, individual e personalizado. Abrimos um canal de "Inteligência Real" via WhatsApp. Pra testar, mande um 'alo' via whatsapp para +5511990033673
"Você tem 96% de chance de ficar sem seu emprego." Duas décadas atrás depois de ter sido um dos primeiros a perder seu emprego pra uma inteligência artificial, o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov afirmou que ao invés de brigar contra o inevitável, é melhor aceitar que os empregos ficarão nas mãos das máquinas e que nós humanos devemos aprender a colaborar com elas.
A notícia tem mais de um ano, mas ainda não tinha sido anunciada. Dedicamos meses na idealização da STY, o braço Boutique Criativa da Storytellers. Comandada por Guilherme Petrilli, a STY coordena processos de reinvenção. 
Por exemplo, reinventamos slides em espetáculos de teatro. Reinventamos cursos em experiências simuladas. Reinventamos projetos como jogos. Reinventamos inclusive a forma de comunicar. Se você estiver com produtos precisando de reformulação ou novidades precisando de um lançamento diferente, reinventa com a gente!
Sonho de consumoarmário inteligente que limpa e passa roupa sozinho. Talvez só donos de lavanderias não gostem da novidade.
Outra novidade é o StoryLab, um centro de desenvolvimento e experimentos. Nele surgiu a Jornada a Marte: uma caminhada através de experiências imersivas. Um curso com começo, meio e fim. A cada etapa, a trilha sonora conduz os participantes, que vivenciam simulações de situações. Começa com autoconhecimento, passa por pensar como investidor, agir como startup e termina com um mergulho futurista. Já realizamos versões no Google Grind, na Fiap, no FutureCom e agora em 2020 estaremos com a Jornada a Marte 4.0 no IT Forum. Quer embarcar nessa jornada? Responda esse e-mail com "eu vou pra Marte!"
No balanço de 2019, o treinamento best-seller nas empresas foi "Storytelling Para Não-Criativos: como fazer um roteiro nos Oito Passos do Palacios". Além dele, temos mais 9 treinamentos para você chegar à melhor versão da sua história.
Quer saber mais? Entre em contato imediato
2020 já começa com treinamentos evoluídos. Programas dinâmicos com metodologias ativas e inusitadas, com práticas avançadas de Storytelling para imersões de transformação. Os novos treinamentos vão dar o que falar e revolucionar a forma de fazer. 

Os 1001 Usos do Storytelling. Um semestre dedicado a direcionar exemplos e aplicações de Storytelling para diversos segmentos, como por exemplo, Storytelling no agronegócio. Participe da votação para ordem de lançamento
Bom, por hoje é só pessoal. Inscreva-se na nossa newsletter mensal Penúltimas do Storytelling. Na próxima edição vamos contar sobre histórias de mercadores, anunciar notícias fantásticas e revelar algum dos 1001 Usos do Storytelling.



O termo 'marca' tem uma história: vem da marcação dos bois. O ícone tatuado à ferro quente diz que aquele não é um boi qualquer, é um boi da Fazenda Tal. Nasceu o conceito de marca. Todo o mundo achou legal.

Assim que uma marca é apresentada ao mundo, começam as histórias. Primeiro pelas especulações sobre as peculiaridades do produto. 'Como é que esse produto dessa marca pode mudar a minha vida?' Afinal a quebra de rotina é de onde parte toda narrativa. Não é por acaso que a palavra mais empregada na propaganda seja 'novo'.

Depois a marca vai para o mercado e começam as experiências dos consumidores, que acabam por gerar pequenos contos. "Eu vagava na madrugada profunda quando resolvi admitir o que mais temia: eu estava perdido nos becos da cidade do Porto. Começou a Sessão Imaginação do meu corpo sendo encontrado semi devorado pelas gaivotas do cais. Não estaria aqui contando essa história se não tivesse lembrado que meu Nokia E71 tinha um dispositivo GPS embutido..."

As pessoas contam seus contos. Os contos mais poderosos são recontados "tenho um amigo que estava perdido no Porto e foi ameaçado por piratas, até que...". Os contos recontados são somados aos que os comunicadores publicam. Toda essa somatória forma o repertório da marca.

O gene está para o meme, assim como o DNA está para o repertório. A incidência de um gênero narrativo no repertório define uma espécie de vocação autoral da marca. A Skol, por exemplo, seria um humorista.

Uma vocação interessante gera expectativa, que instiga desejo, que leva à compra. Viu como storytelling marketing é simples? A marca só precisa se ocupar com duas coisas. A primeira é óbvia: bons produtos vão gerar boas experiências.

A segunda é contratar comunicadores hábeis em publicar histórias fabulosas, capazes de potencializar o repertório. O comunicador hábil entende que histórias são o encadeamento de acontecimentos relevantes. Tanto que o glossário de autores é cheio de termos da tecelagem: a trama é uma espécie de entrelace, enredo é costurar uma rede, o próprio texto vem de tecer. Quando um ponto leva ao outro você tem estrutura narrativa.

O comunicador, por sua vez, tem que se ocupar de duas coisas: encontrar ou imaginar acontecimentos relevantes e dominar essa arte do entrelace. O comunicador tem que se usar de cobaia da marca, uma espécie de überconsumer, que consome de tudo - sem preconceito - e sempre como uma experiência. Busca viver os rituais. Mergulha nas sensações. Entrevista outros consumidores. Só assim vai ter algo interessante a retransmitir.

Sobre dominar a arte da narrativa, é mais complicado. A regra de ouro nessa caso é: antes de querer contar uma história para uma marca, queira contar uma história por você mesmo.


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Entrevista sobre Transmídia Storytelling publicada originalmente para o portal Trespontos


Sobre Fernando Palacios: No meio do caminho entre um passado de publicitário e futuro de romancista, junta as duas coisas como transmídia storyteller.

Isis – Transmedia storytelling é um termo ainda pouco conhecido entre os profissionais de comunicação. Fale um pouco sobre este conceito e sua importância no cenário atual.
Fernando – É verdade, o termo é ainda uma criança: não tem uma década de existência. Foi cunhado por Henry Jenkins, professor de estudos de mídia do MIT. Ele se refere ao ato de contar uma história ‘storytelling’ através de vários veículos de mídia ‘transmídia’. Talvez fosse o caso de simplesmente chamar de Transtelling…
Além de esquisito, o termo também é impreciso. Pode dar a idéia de replicar uma história em diferentes mídias. Mas não é isso. O princípio é simples. Imagine a história como o Sol e cada planeta do sistema como uma mídia. Todos os planetas se relacionam com a mesma fonte luz, mas cada qual na sua órbita e com seu ponto de vista.
Então talvez fosse o caso de chamar de deep mídia storytelling? Mas será que cabe story…TELLING? Hmmm… Por que não storyshaping? Ou ainda storymaking, storysmithing, storycrafting, transmedia storyspreading… Afinal, mais do que contar uma história é preciso criá-la.
Seja como for, o pensamento por trás da terminologia trata de uma coisa muito nova… com outra das mais remotas: o encontro entre a comunicação nas cavernas com a tecnologia prevista típica das ficções científicas.
O ato de contar histórias acompanha – e até define – toda a humanidade como conhecemos. Mas não de uma forma estanque. Pelo contrário. Nosso corpo não sofreu nenhum tipo de evolução nos últimos séculos. Já o ato de contar histórias tem passado por muitas revoluções.
A preciosidade do transmedia storytelling é o que se pode chamar de ‘share de ouvidos e olhos’. Explico. Há 40 anos um economista chamado Herbert Simon previu um dos maiores problemas atuais: “O que a informação consome é um tanto óbvio, ela consome a atenção do seu receptor. Assim, a riqueza de informação cria a pobreza de atenção, e a necessidade de alocar a atenção de forma eficiente em meio às abundantes fontes de informação que irão consumi-la.”
A atenção é cada vez mais fragmentada e dispersa. E sem atenção é impossível transmitir uma mensagem. Não existe comunicação. Sem o processo de comunicação não tem marketing. Fica cada vez mais difícil vender idéias ou produtos. É disso que o transmedia storytelling extrai seu poder.
A semelhança entre quem ouve uma história, vê um filme e lê um livro é o fato de estarem todos compenetrados no enredo. Assim, quando se trata de histórias, ouvintes, audiência e leitores são todos atentos.
Isis – Você afirma que imaginar personagens e histórias o ajudou a ser um planner mais criativo em agências de marketing promocional. De que forma esta técnica pode ser útil para os profissionais que atuam nesta área?
Fernando – Imaginar um enredo ajuda a sair da página em branco. Além disso, pensar em personagens, artefatos, lugares ficcionais pode ajudar a preencher lacunas criativas. Outra possibilidade é usar um personagem para simular o comportamento de um target e, a partir disso, antecipar seu comportamento.
Vamos supor um briefing fictício sobre o lançamento de uma bebida energética premium, cujo diferencial é ser verde. Quando se trabalha com eventos, tem uma hora que qualquer evento é mais um evento. Começa ficar difícil para a criação encontrar algo que a entusiasme. Quando isso acontece, os eventos passam a ter detalhes bem pensados, mas sem nada de muito especial. É aí que uma história pode fazer toda a diferença.
‘Mas esse não é um evento qualquer… é a festa de aniversário do Sir John Preston, o sul-africano que domina o comércio de esmeraldas e que resolveu fazer uma grande festa de aniversário no Brasil, em homenagem a um grande amigo brasileiro. Aí vai contratar o que há de bom e do melhor no mundo para fazer disso um acontecimento inesquecível… ele vai chegar no ponto de desenvolver a melhor bebida energética de todos os tempos!’ Pronto, daí pra frente criar se torna uma grande diversão.
Isis – Na sua opinião, transmedia storytelling tenderá a ser mais utilizado em agências que trabalham com comunicação below the line, ou não?
Fernando – Minha experiência também incluiu agências online, ATL, culturais, de relações públicas, de marketing esportivo e em cada novo segmento fico mais convencido de que tudo em comunicação fica melhor com uma boa história. Inclusive, basta uma história de sucesso para se fazer verdadeiras fortunas. A agência que dominar a arte de criar e contar histórias certamente vai se destacar no mercado, seja BTL, ATL, digital e até mesmo nas mídias sociais.
O que não pode é confundir storytelling com a utilização de elementos narrativos. Criar um clubinho do ‘Super Sua Marca Aqui’ não é contar uma história. É bem menos simples do que isso.
Isis Poderia citar alguns casos de transmedia storytelling que considera interessantes?
Fernando - Aí depende muito. Mitologias são casos interessantíssimos, por exemplo. Imagine que a bíblia é uma coletânea de livros com diferentes histórias que se cruzam e que se expandem para subprodutos como afrescos, esculturas, narrativas orais e, além de tudo, permitem o paralelo com as histórias de vida de todos os fiéis.
Se pensar na indústria cultural o JJ Abrams é um gênio do Transmedia. Mesmo quando produziu um filme de baixíssimo orçamento para os padrões de Hollywood ele fez questão de investir em uma série de ramificações para a Internet e isso direcionou muito interesse para a película, que foi um sucesso de bilheteria.
Com relação às marcas de consumo, a Coca-Cola fez um trabalho primoroso de branded content com a máquina da felicidade. No Brasil, a iniciativa da Galera Animal da Nestlé chamou a atenção.
Isis – Neste momento, você está se dedicando a projetos autorais. Qual contribuição da sua experiência na área de comunicação em geral, e em transmedia storytelling em particular, nesta nova etapa profissional?
Fernando – Trabalhar com projetos autorais faz parte de um processo de amadurecimento. Primeiro tive que aprender a contar uma história, depois a criar um universo ficcional. Agora a bagagem de comunicação me dá uma vantagem.
Todo o mundo já deve ter visto um filme por acaso, amou e depois ficou pensando: como eu nunca tinha ouvido falar nele antes? Quanto desperdício criar um conteúdo genial e não fazer chegar às pessoas. A comunicação pode me ajudar a resolver esse dilema.
Nesse contexto, a experiência com transmídia storytelling pode tornar essa divulgação ainda mais interessante, a partir dos trechos da própria história. É usar o poder de envolvimento do storytelling, logo no primeiro contato com a audiência.
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Se os norte-americanos já tiveram uma coisa difícil de se ver por aqui essa coisa é o fato de terem sido governados por bons presidentes. Roosevelt era um cara que sabia das coisas. Do alto de seu pragmatismo, ele ensinou uma das mais valiosas lições corporativas: "onde chegam nossos filmes, chegam nossos produtos". Gênio.

Os filmes contam histórias e, assim como seus primos contadores de histórias - novelas, peças de teatro, seriado, etc. - não representam apenas uma das formas mais ancestrais de comunicar mensagens e idéias, mas também uma das principais formas de entretenimento. Em suma, todos nós gostamos.

Só que nos dias de hoje pra existir tudo isso que a gente gosta - seja filme, seja outra forma de história - tem que ter alguém que financia: as empresas, por meio de anúncios, patrocínios ou doações. No linguajar popular, elas “são as donas da bola”.

E nesse contexto os marqueteiros são os responsáveis por decidir o que fazer com ela. Quais jogos serão jogados, quais serão postos de lado. Mas nem tudo são flores, pois como diz o tio do Homem Aranha, “com o poder, vêm grandes responsabilidades”. E é mesmo, afinal, sem bola de cristal é difícil de saber qual é a melhor decisão tomar em meio a tantas opções. A oportunidade normalmente aparece para todos, mas muitas vezes ela vem disfarçada e por isso acaba sendo tão fácil deixar escapar por entre os dedos. A Regra de Ouro da Oportunidade é que agarrá-la é tão difícil quanto pegar a bola dourada numa partida de quadribol: é preciso estar atendo ao redor, sempre procurando, e quando ela estiver ao alcance, jogar-se sem medo para pegá-la... Justo, afinal ela sozinha tem o poder de vencer qualquer jogo; ela vale o risco, a aposta.

Para ilustrar essa dificuldade, vou me valer da saga da publicação do Harry Potter: uma verdadeira mina de ouro que só precisava da aprovação de um editor para que todos no processo – ele inclusive – ficassem milionários. Certo? Certo. Mas não é que ele foi recusado 27 vezes, por 27 editores diferentes? Durante um ano inteiro, nenhum fez a única coisa que deveria ter feito: apostar; ou, pelo menos, dar na mão de 3 crianças e pedir a opinião delas ao invés de “achar que era um livro muito longo para crianças”.

Qual o caminho seguro? Quando se trata de histórias, as empresas gostam de “pegar carona” nas histórias dos outros. É o “product placement”, também chamado de “merchandising”. Mas aí quase sempre fica aquela coisa estranha do branquelo chegando na praia no meio das férias de verão. Mas há outras formas, como o The Hire da BMW, o Náufrago da FedEx, Família Soprano e Prozac, a Sony com Cloverfield, o McDonalds no Pulp Fiction, a Gap em vários episódios de Seinfeld... São todos ótimos exemplos de ficções de marcas, ou seja, de histórias que transformam as mensagens das empresas em parte importante da trama.


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Alguém, algum dia, ditou que “conteúdo é uma coisa e comercial é outra” e aí todos copiaram em seus caderninhos, mentes e corações. Talvez os veículos de comunicação tenham achado que esse formato fosse mais prático, ou então foram os publicitários que preferiram criar anúncios sem a obrigação de conectá-los ao conteúdo.

Seja como for, a conseqüência é que o que o publicitário faz costuma ser uma interrupção para o que a pessoa está fazendo. Não é à-toa que se chama de intervalo comercial.

Por isso, os publicitários precisam ser objetivos, cada segundo conta, e muito. Normalmente o que eles têm para trabalhar são 30 segundos ou uma página de revista.

Então, se o interesse é baixo, o tempo é curto e o espaço é pouco, tudo o que eles precisam é da famosa “Big Idea”, daquela grande sacada que vai ganhar um pouco da atenção da pessoa em favor de uma marca ou produto. Eles vão fazer qualquer coisa, nos lugares mais inusitados, dizendo e mostrando o que for preciso para chamar a sua atenção.

O que, de certa forma, só reforça a interrupção.

Essa cultura da “big idea” acaba criando “histórias de fachada”, ou seja, sem profundidade, nem riqueza de detalhes. Criar universos ficcionais como os escritores? Nem pensar! Por que gastar tanto tempo para construir a cada aspecto da vida de um monte de personagens que só vão aparecer sorrindo numa mesa de café da manhã?

Essa superficialidade, somada à ótica das empresas torna a publicidade um campo fértil para a inverossimilhança... Em outras palavras: fica tudo fake.

Bom, mas isso não quer dizer que não funcione – ou as empresas já teriam parado de anunciar há muito tempo; mas só porque dá algum resultado não quer dizer que esteja tudo certo, ou não haveria o TiVo nem toda a crise estabelecida no setor.

No passado pode ser que as pessoas gostassem de ver anúncios e é a nova geração que está mais resistente... Ou talvez tenha sido a própria publicidade que mudou de perfil. Aliás, onde estão os comerciais que contavam histórias e tornavam o produto um verdadeiro protagonista?

Cadê os novos personagens que irão durar mais 30 anos nas mentes de todos nós?

Pois é. O fato é que antes a missão era falar com as pessoas. Agora a mania é falar com "targets", ou seja, grupos de pessoas de acordo com um determinado perfil demográfico. A mensagem é feita para elas, e para elas somente. O objetivo é impactar o maior número de pessoas possível dentro do "target" e, pra isso, dispara-se a mensagem num veículo de massa. 

Sem se preocupar muito com aqueles que não deveriam ser impactados.

Então, pra quem está fora do target, a interrupção é ainda maior (e algumas vezes, pior). Só que a modernidade oferece opções: está havendo uma grande migração de audiência para a Internet, até porque lá as pessoas conseguem driblar os anúncios com maior facilidade.

Ao contrário do escritor, o publicitário tem um espírito tão comercial que não é exagero dizer que o dinheiro é sua religião.

Mas a publicidade não é o diabo que se pinta por aí.

Afinal, a atividade tem um papel fundamental num sistema capitalista: catalisar trocas. A publicidade é responsável pelo principal elo de ligação entre as corporações e seus consumidores e tem a missão de encontrar formas criativas de vender produtos e serviços. Então, a crise que paira sobre a publicidade reverbera em outras áreas.


Talvez o problema só esteja na forma como a publicidade é feita. Pode ser que a raiz de todo o mal seja o conceito de “intervalo”, de ter que separar o que é conteúdo do que é comercial, como se as duas coisas não pudessem andar de mãos juntas, casar e ter filhos.

Obs: a versão original do texto foi alterado devido às preciosas colaborações da Czarina das Quinquilharias e da Leka.


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Escritor com cartão? Algo como “Luis Fernando Verissimo – Escritor”. Acho difícil. Nunca vi, pelo menos. São em sua maioria desprovidos de um espírito comercial de modo que muitos enfrentaram e ainda enfrentam dificuldades financeiras; e até por isso consideram vocação o ato de escrever histórias. Tanto que atualmente é uma das poucas profissões não regulamentadas e são pouquíssimas escolas superiores que ensinam o ofício.

Assim tornam-se os escritores pessoas incomuns e interessantes. Diferente da maioria, os grandes autores - e as mensagens contidas em suas obras - podem atingir imortalidade. Além disso, há o fato de que se trata de um dos poucos ofícios que é ao mesmo tempo artístico e intelectual. E por tudo isso há uma aura de status que os cerca.

As notas de Dostoiévski para o capítulo 5 da obra Os Irmãos Karamazov ilustra o aspecto solitário do ofício, que pouco mudou nos últimos séculos: continua artesanal, mesmo com ajuda do computador. O que os escritores faziam há 300 anos continua sendo o que fazem hoje: escrevem a partir de suas inspirações. Como algo que parte de dentro pra fora, e que vem de uma fonte desconhecida e incontrolável.

A maioria acredita na inspiração, a exemplo do romancista turco Orhan Pamuk que fala do “Anjo da Inspiração” que muito visita alguns e pouco outros. A minoria, como o caso de Carlos Heitor Cony – que chegou a demorar 23 anos entre um romance e outro – diz que não conta com a inspiração na hora de escrever.

Mas o fato é que há uma máxima entre os escritores: “o escritor não escolhe seus temas: é escolhido por eles”. São raríssimas as exceções como Monteiro Lobato. E aí, a partir desse tema que os escolheu, começa o trabalho de construir todo um universo ficcional. Paulo Coelho fala que é como pegar um barco e explorar uma “Ilha”, Pamuk diz que é como compor “mundos”, Mario Vargas Llosa utiliza o termo “realidades fictícias”.

Ernest Hemingway - que se refere ao universo ficcional por meio do termo “país” - descreve o processo mais ou menos assim: “você precisa enxergar o país em sua totalidade o tempo inteiro, não bastando ter uma sensação romântica acerca dele. Mas tem dias em que o processo fluiu tão bem que era possível andar nele por meio de suas árvores, atravessar uma clareira, subir a montanha e, lá do topo, avistar as colinas após o lago”. Carol Bensimon também fala sobre isso em um de seus posts.

Alguns universos ficcionais se tornam tão ricos e complexos que personagens de uma história aparecem em outra, tornando tudo ainda mais interessante. Contudo, criar esses universos para, a partir dele, recortar uma história é um trabalho árduo e incessante: cerca de uma página publicável por dia. Manter o fôlego e a disciplina para poder criar tal nível de complexidade e detalhamento exige uma dedicação exclusiva e excludente. Compor histórias ocupa a existência e extrapola as horas que alguém se dedica à escrita, impregnando tudo mais que se faz.

Isso faz dos escritores verdadeiros caçadores de inspiração, sempre observando tudo ao seu redor e refletindo sobre tudo o que se passa dentro deles. Afinal, é desse exercício que encontram a matéria-prima para escreverem suas obras. Mario Vargas Llosa constata que a raiz de todas as histórias está na experiência de quem as inventa, de modo que toda ficção parte de uma semente visceral de quem a forjou.

Com isso, o escritor acaba tendo o importante papel de falar de coisas que as pessoas sabem, mas que só se dão conta a partir do momento em que se identificam com situações ou personagens e se projetam nas histórias. Ou como resumiu Pamuk: “o escritor fala de coisas que as pessoas sabem, mas não sabem que sabem”.

E é assim que os escritores partem de suas inspirações para inspirar os outros.

OBS: obrigado pela dica da dupla Nana e Frei que corrigiram um dos erros mais indesculpáveis que cometi nos últimos tempos: é verdade, Verissimo não tem acento.


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Alta madrugada e dentro do bar todos se amontoam, de pé, entre as mesas e o palco improvisado. Mesmo com o visível desconforto, quem está lá gosta e diz que é pela qualidade da banda e seu samba raiz; mas talvez seja pelo ambiente que relembra a sensação de estar em um CA universitário ou então pelo deslumbrante janelão que dá para a rua (e para o cemitério ao cruzá-la) que, inclusive, exibe agora uma movimentação estranha aos olhos mais atentos: dois carros mais negros que a própria madrugada e equipados com vidros igualmente escuros estacionam como se nada houvesse ali na frente, local demarcado como proibido pela prefeitura. Desembarcam pessoas tão intimidativamente destoantes quanto os próprios veículos, sendo visível tratar-se de seguranças oito dos dez corpos estranhos que rapidamente se deslocam das portas dos carros à do bar.

Lá dentro, aqueles dotados de olhos atentos resolvem usar as mãos para avisar os mais distraídos; e muito rapidamente murmurinhos podem ser sentidos como um vírus se espalhando pelo salão, passando a se tornar uma massa de som, que concorre com a música, que cessa. Todo o barulho que preenchia o ar foi empurrado pelo silêncio para dentro de cada um dos presentes em forma de apreensão.


A tensão é quebrada pela voz familiar do vocalista da banda, que informa entusiasmadamente:

-Senhoras e senhores, é com grande orgulho que em nossa casa temos hoje a presença de um rei!

A história teria parado por aí, não fosse a presença de alguém que considero um grande (ainda que recente) amigo. Apesar de ter o apelido de “Chinês”, ele é um verdadeiro cidadão do mundo, daqueles que já morou nos 5 continentes. Com o oportunismo de quem já viveu muitas histórias, resolveu tirar o máximo dessa quebra de rotina incendiando o arredor ao insuflar perguntas como “e aí, é rei mesmo?” sobre a curiosidade dos amigos. Motivado pela comoção que tomou conta do pessoal, foi então conversar com os funcionários do estabelecimento, dizendo que “pagaria uma pinga pro rei se fosse verdade”. O funcionário falou com o segurança, que fez sinal para que o nosso amigo se aproximasse. Sim, eles falavam inglês; sim, era um rei africano e, não bastasse, estava acompanhado pelo seu filho e, sim, ele pagou um dose de pinga para cada: o príncipe bicou a bebida como um pássaro diante de um lago, já o rei virou o copo como um errante quando encontra água. Mas o que mais impressionou nosso amigo não foi nada disso.

O que fez o nosso amigo tão vivido nos contar essa história foi o fato de que, quando a música voltou a tocar, nem o mais carrancudo dos seguranças ficou inerte: cada nota despertava pelo menos um ligeiro movimento de pés ou batucadas de mão sobre a mesa. Não importa a posição social, o cargo, a região em que nasceu ou foi criado, somos todos incontrolavelmente tomados por uma boa melodia.


A conclusão óbvia é: dançar está no sangue. E o fato é que a mesma coisa que corre por nossas veias e nos compele a entrar no ritmo da música, também nos faz contar e ouvir histórias. Ao contar uma história, revelamos um pouco daquilo que carregamos em nossa essência, daquilo em que acreditamos, daquilo que somos. Da mesma forma, quando nos projetamos em uma narrativa, ela nos afeta e nos transforma, soma algo à nossa essência. Isso porque sempre que nos identificamos em uma história, ela ajuda a mostrar quem somos.

É como se a nossa identidade fosse um acúmulo de histórias: nossas e dos outros. São elas que têm o poder de baixar nossa guarda, de driblar nossa defensiva, e nos fazer enxergar um outro ponto de vista e, quem sabe até talvez mudar uma opinião. É de nossa natureza brincar de decodificar falas e ações passeando pelos porquês por detrás das escolhas dos personagens, refletir sobre o intrínseco e assim ler as entrelinhas. E a partir daí, estabelecer conexões com nosso próprio background produzindo conclusões.

Quanto mais conexões possíveis entre um assunto e o nosso arcabouço referencial, mais interessante este assunto se torna. Então o interesse por um assunto depende muito do referencial que já possuímos. E aí está o truque das histórias: elas podem introduzir um assunto totalmente novo em meio a assuntos conhecidos e assim gerar uma familiaridade - ou como chamam os estudiosos: contextualizar.

Todo esse emaranhado de assuntos se unem em um mesmo universo ficcional (lugares, personagens, tramas...). Boas histórias são recortes de universos ficcionais interessantes, ou seja, compostos por assuntos que atraiam nossa atenção e estimulem nossos pensamentos. Elas têm esse poder de se estender em sua ausência (quando interrompida ou mesmo depois de terminada), fazendo com que continuemos a repeti-las mentalmente, desenvolvê-las, compará-las, comunicá-las, traduzi-las, rir de piadas sobre elas, usá-las para entender outras coisas, estabelecer memes como “zero-meia o senhor é um fanfarrão”, imaginar derivações a partir delas, buscar mais informações e, finalmente, elas nos faz querer nos comunicar com outras pessoas que também as ache interessante.

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Ingrediente básico de uma boa história, a "verossimilhança" não deve ser confundida com "veracidade" já que um fato não precisa ter acontecido para que pareça real. Para ser verossímil basta ter aceitação lógica, ser intuitivamente verdadeiro.

É um conceito simples, que torna complexa o ofício de escrever histórias. Dizem que o papel aceita tudo, mas uma história, não: não dá pra ser contraditório ou "forçado" sem arrancar da audiência protestos descrentes tais como "ah, vá; até parece que ele mergulhou nessa água gelada e não vai morrer de hipotermia...". É depois de um momento como esses que a Dulce levanta de seu sofazinho e vai ao banheiro, ou que Isa retorna o livro para repousar na prateleira.

E não é apenas culpa da audiência. Muitas vezes o autor gostaria que uma das tramas da história seguisse um rumo estratégico, que deixaria tudo mais fácil para a construção do climax. Para isso, bastaria que um de seus personagens tomasse uma determinada atitude. Mas o problema é que se essa atitude for inverossímil, o próprio personagem refuta.

É como burro quando empaca, não adianta, o Caio não vai adiante se não tiver uma boa justificativa e uma motivação real para sair correndo do restaurante e acabar sendo atropelado por um ônibus, para então ser levado às pressas para o hospital onde irá conhecer a não-tão-bela enfermeira Neide, por quem irá se apaixonar. Ainda mais ele, Caio Gama-Schwartz, considerado como "o mais centrado da família" pelos próprios parentes de classe média-alta.

Mas talvez seja a verossimilhança uma das grandes bênçãos para um autor, pois ela o obriga a explorar mais todos os assuntos tratados e também a mergulhar mais profundamente no universo interno da mente humana. E aí acaba construindo um universo muito maior e realizando descobertas; e são elas que acabam mostrando o caminho.

Afinal, se não fosse pela verossimilhança, o autor jamais saberia que a Neide - que trabalha no hospital das Clínicas e escolheu ser enfermeira porque perdeu os pais muito cedo e se sentiu culpada por não poder ajudar - visita semanalmente o cemitério Araçá para distribuir flores doadas pelo Chico do Box 4 da Dr. Arnaldo. Trata-se do mesmo cemitério em que está a tumba dos Gama-Schwartz.


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