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Todo mundo conta histórias. Poucos fazem storytelling.

A diferença? Técnica. Centenas de técnicas, na verdade. Mas todas derivam de sete habilidades fundamentais.

Domine essas sete e você passa de quem chuta bola no quintal para quem joga na seleção.

Se você ainda não domina os conceitos básicos, comece pelo Guia Definitivo de Storytelling.


1. Criar Contexto Intrigante

Histórias não existem no vácuo. Elas precisam de uma topografia de interesse.

A habilidade aqui é selecionar. Não contar tudo, mas recortar os melhores momentos.

Uma empresa de 100 anos tem milhares de fatos. Mas não precisa de um documentário ano a ano. Precisa dos 5 ou 6 momentos que definem quem ela é.

O erro comum: Confundir história com histórico. Tratar todos os acontecimentos com o mesmo peso. Quando tudo é importante, nada é importante.

O caminho: Antes de contar, pergunte: qual é o campeonato? Então conte apenas os melhores momentos da final.


2. Humanizar Através de Personagens

Não existe narrativa sem pessoas. Pode ser um protagonista real, um personagem fictício, ou até uma marca personificada.

Wilson, a bola de vôlei em "Náufrago", virou personagem. O Tio Patinhas e sua Moeda #1 também. A questão não é se o objeto está vivo, mas se a narrativa dá vida a ele.

O erro comum: Contar histórias sobre empresas, produtos ou processos. Histórias são sempre sobre pessoas vivendo experiências.

O caminho: Identifique quem está vivendo a transformação. Dê nome, desejo, obstáculo. Sem protagonista claro, não há história.

Veja como aplicar isso na prática no Guia Prático de Storytelling.


3. Construir Tensão Progressiva

Histórias são máquinas de gerar expectativa.

O protagonista quer algo. Encontra obstáculos. A tensão aumenta. Parece que vai dar errado. No último momento, acontece o inesperado.

Essa estrutura existe há milhares de anos porque funciona com o cérebro humano.

O erro comum: Entregar a conclusão no início. Eliminar a incerteza. Matar a curiosidade antes de cultivar.

O caminho: Aprenda a dosear. Cada resposta deve gerar uma nova pergunta. Até o grand finale.

Xerazade segurou 1.001 noites. O mercador do Aladdin leva 90 minutos para vender uma lâmpada. Novelas duram meses. O problema nunca é duração, é falta de tensão.

4. Dominar a Arte do Gancho

Os primeiros segundos definem se alguém vai prestar atenção ou continuar rolando o feed.

Um gancho intrigante não é clickbait. É uma promessa velada de que vale a pena continuar.

O erro comum: Começar com contexto. "Olá, meu nome é fulano e hoje vamos falar sobre..." Perdeu a plateia antes de terminar a frase.

O caminho: Comece pelo conflito, pelo resultado surpreendente, pela pergunta que ninguém faz. Depois volte e explique o contexto.


5. Extrair Histórias de Qualquer Material

Um storyteller profissional não espera histórias caírem do céu. Ele escava.

  • Num relatório financeiro, há uma história de superação.
  • Num briefing técnico, há um conflito a ser resolvido.
  • Num produto commodity, há uma transformação esperando ser contada.

O erro comum: Achar que só certas áreas têm histórias. "Meu setor é muito técnico para storytelling."

O caminho: Todo dado esconde uma narrativa. A habilidade é fazer as perguntas certas até ela aparecer. Quem estava envolvido? O que estava em jogo? O que quase deu errado?


6. Adaptar a Narrativa ao Formato

A mesma história funciona diferente num post de Instagram, numa apresentação de 20 minutos, num pitch de 60 segundos.

A habilidade não é ter uma história, mas ter versões calibradas para cada contexto.

O erro comum: Usar o mesmo texto em todos os canais. Ou pior, achar que basta encurtar.

O caminho: Entenda as regras de cada formato. O que funciona em vídeo não funciona em texto. O que funciona ao vivo não funciona gravado. Adapte a estrutura, não apenas o tamanho.


7. Fechar com Transformação Clara

Toda história existe para dizer algo. Se no final a plateia pergunta "e daí?", você falhou.

A transformação pode ser externa (o protagonista venceu) ou interna (o protagonista aprendeu). Pode ser triunfo ou tragédia. Mas precisa existir.

O erro comum: Histórias que simplesmente terminam. Sem moral, sem lição, sem chamada para ação.

O caminho: Antes de contar, defina: qual é a transformação que quero que minha plateia experimente? Então construa tudo em direção a esse momento.


Como Desenvolver Essas Habilidades

Não existe atalho. Existe prática deliberada.

Consuma histórias conscientemente. Quando um filme te prende, pare e analise: como ele fez isso? Qual foi o gancho? Onde estava a tensão?

Pratique fragmentos. Você não precisa escrever um roteiro completo para treinar. Um post curto já exercita todas essas habilidades em escala menor.

Estude os mestres. Shakespeare, Hitchcock, Spielberg, os roteiristas da Pixar. Todos usam as mesmas estruturas. Aprenda a reconhecer os padrões.

Erre em público. A única forma de calibrar é testando com plateia real. Poste. Apresente. Observe o que funciona e o que não funciona.


O Ponto de Virada

Storytelling não é dom. É craft.

A diferença entre você e alguém que já domina essas habilidades é tempo de prática e intencionalidade no estudo.

A pergunta não é se você consegue aprender.

A pergunta é quando você vai começar.


Próximos Passos


Fernando Palacios é fundador da Storytellers, primeira empresa de storytelling da América Latina, e duas vezes campeão mundial de storytelling.

Da Série: Desvendando o Storytelling #Post 2
Veja o #Post 5: O QUE É STORYTELLING
Veja o #Post 4: O QUE PODERIA SER Storytelling, MAS AINDA É storytelling
Veja o #Post 3: O QUE TODO MUNDO DIZ SER STORYTELLING
Veja o #Post 1: O QUE NÃO É STORYTELLING
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A Entrega



Lívia abriu a porta e viu aquela caixinha familiar que recebia todas as semanas. Era rosa, com uma fita prateada, suas cores preferidas. Pegou o pacote e o colocou na cozinha, já imaginando as trufas que estariam lá dentro, junto da carta de amor que ele sempre lhe escrevia. Nem ela tinha tanta criatividade para tantos poemas. Ela estava feliz. Eles pertenciam um ao outro e nada podia atrapalhar seu amor. Em um ano, se mudariam para o mesmo apartamento, e dali a seis meses, casamento. Satisfeita, Lívia abriu seu pacote, e, como esperava, lá estavam as trufas de maracujá e morango ao lado de sua carta perfumada. Ela suspirou apaixonada, beijando o papel com delicadeza. Abriu a caixa de chocolates, e então lhe surgiu a dúvida: Qual sabor comeria primeiro?


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O texto “A entrega” não é Storytelling, porém tem o poder de mexer com o imaginário das pessoas ao trazer um artifício familiar. Consiste na utilização de personas representadas desde os tempos da Comédia Dell’Arte:  Os enamorados. Por ser um tema que traduz o desejo de diversas pessoas, consegue ganhar popularidade, mesmo sem ter uma narrativa forte por trás. 

Veja quais artifícios são usados para disfarçar a ausência de história e como são usados hoje em dia.

1. Um casal de apaixonados


Pode ser utilizado como apelo funcional ao público, como em comerciais de produtos diversos. Um exemplo são os comerciais de chocolate, que fazem uma abordagem mais romântica. Normalmente nesses comerciais, não há nenhum conflito e tudo funciona perfeitamente, sem nenhum empecilho.


2. Animais ou bebês


Quem nunca passou um tempo considerável vendo vídeos no Facebook sobre animais ou bebês fazendo o que fazem de melhor: sendo fofos?  Apesar de também não apresentar uma narrativa, esses artifícios funcionam, já que cativam uma grande audiência.



3. Muita ação e efeitos especiais


Alguns filmes de ação parecem ter gastado todo orçamento com o After Effects e cenas de destruição, esquecendo-se da importância de um roteiro consistente. Os resultados são personagens sem conflitos, escolhas sem sentido e fatos que não encaixam.



4. Gênero Sick Lit Crianças doentes ou qualquer coisa que faça te sentir culpado, se não gostar.


Artifício tipicamente usado pelas ONG’s. Ele funciona por tentar evocar compaixão por parte das pessoas e fazê-las ajudar em uma boa causa. No entanto, acabam atraindo pela tragédia, e muitas vezes se tornando inconvenientes, ao invés de explorar a comunicação de modo rico, através das histórias. 


5. O artístico demais – É tão artístico que acaba não dizendo nada.




Pode ser artístico? Pode. Pode investir em direção de arte e cenografia, deve. Funciona? Claro, mas depende para o quê. Se o objetivo for criar uma estética e uma atmosfera que represente o produto, está perfeito.. Mas estaria enganado a audiência se dissesse ser Storytelling.


6. O desabafo do escritor



Além das cenas em que o personagem resume o que aconteceu nos capítulos anteriores, ou explica para o público como está se sentindo ou conta sobre seu plano maligno, temos também algumas falas de personagem que expressam a opinião do autor sobre determinado assunto. O uso desse artifício é completamente perceptível, pois as palavras ditas não cabem na boca e caem no monólogo. No Storytelling, o personagem é tão bem trabalhado que parece ter vida própria independente de seu autor, de modo que podemos retirar os nomes dos personagens de um roteiro e ainda conseguir identificar quem está falando qual fala.


7. Usar atores famosos de filmes ou novelas conhecidas


Utilizar atores famosos é um dos artifícios mais manjados no entretenimento. Afinal, se é um filme com o Bradley Cooper deve ser bom. No entanto em filmes ou séries que dependem somente da reputação dos atores, a narrativa pode deixar a desejar, apresentando enredo e conflitos fracos.


8. Adaptar histórias que já funcionaram para campanhas publicitárias.




Pegar carona em uma história que já funciona, é um artifício com grandes chances de dar certo. Isso ocorre, pois as referências e o sentimento buscado pela marca já foram colocados pela história. Apesar de funcionar, torna-se perigoso se a marca tentar se adequar à história sem que essa faça sentido para a sua comunicação. O ideal é que a história se adeque a marca, ou seja, que a empresa crie suas próprias narrativas.


9. Usar metáforas visuais


As metáforas visuais traduzem um conceito em imagem de modo prático simples, para que a mensagem seja entendida imediatamente. São um tipo de artifício efetivo, dependendo do propósito da comunicação. No entanto, torna-se fácil de cair no clichê. É bonito, pode ser forte, mas não é Storytelling, já que não tem nem um personagem central, mas sim uma pessoa que poderia ser qualquer um. Podendo ser qualquer um, acaba sendo ninguém. E sabemos que a audiência só se relaciona com alguém.


10. Recorrer a mascotes 


Mascotes podem ser utilizados, mas devem ter um propósito. Criar um mascote apenas pelo simples fato de ter um, ou de ter um apelo mais visual não é um motivo forte o suficiente. Normalmente os mascotes sem propósito levam o nome de “Super-Nome Da Marca No Diminutivo” e não agregam nenhum contexto ao produto.


Reconheceu esses artifícios usados pelas marcas e pelas indústrias de entretenimento?  Quer saber como não usá-los na sua marca e construir uma narrativa forte e consistente capaz de criar maior engajamento?

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