Acordei enjoado, como de costume, corri ao banheiro e abracei a privada. Não era ressaca,  há 9 meses não bebia. Lavei a boca com flúor laranja e lembrei-me das laranjeiras de uma vida passada, de quando ainda era uma criança. Encontrei, com os olhos entreabertos, no fundo de uma xícara de café do dia anterior, repetindo em minha mente, como o disco do Chico Buarque que minha mãe ouvia, o lembrete: “Todos já nos apaixonamos pela inspiração, mas devemos nos casar com a disciplina, essa sim nos aguarda em casa de janta pronta quando estamos cansados do mundo inteiro.” Dizia a voz de um inquilino parasita em minha mente perturbada.

Ainda sofria o abandono. Ela foi embora e levou consigo o que restava de amor pelas palavras. Era deprimente a ideia de continuar sozinho. Tudo era inútil sem o amor para nutrir a cria. Antes dele ser jogado ao mundo, como um filhote de pomba, e levantar voo, era preciso alimentá-lo, poli-lo, era preciso decidir o que deve ficar, ou não, entre uma letra maiúscula e um ponto final, alguns truques superficiais de sobrevivência para qualquer romance recém nascido.Diferente de uma criança, um romance quando nasce deve estar pronto para dividir a casa com desconhecidos e rodar o mundo em qualquer bolsa ou mochila escura em que possa caber.

O mundo agora teria de abrigar mais um livro, pocket, em bancas de jornais e prateleiras por todos os lugares. “Quem dera fosse possível revisar a história de nossas vidas.” Pensei ao voltar para cima das laranjeiras da infância.



Clara não sabia o motivo pelo qual gostava tanto de Manuel, talvez fosse por causa dos óculos modernos combinados com o sapato de couro sintético. Talvez ela gostasse mesmo era da pele macia dele, ou da sopa de ervilhas que ele fazia quando ela estava gripada. Ela nunca conseguiu definir bem o motivo de tanto amor. Talvez ela não gostasse dele, era impossível definir. Mas na última capa do livro ela percebeu, ela gostava dele porque os dois eram solitários fazendo companhia um pro outro. O livro nunca mais saiu da bolsa de Clara.

O vídeo abaixo é um ótimo exemplo de verdade humana, por algum motivo eu adoro esse personagem, mas ainda não decidi o porque. Só sei que ele nunca mais saiu da minha lista de favoritos.





Alguns minutos depois do trem sair da estação a solidão de Chetan é interrompida pela aparição inesperada de uma moça, que anunciava ser sua nova companheira de viagem. Chetan, um tanto distraído pela beleza da nova companhia, se apresenta e fica ainda mais distraído quando é reconhecido pela moça. O escritor não estava acostumado a ser reconhecido, não era exatamente famoso e jamais imaginou que seu primeiro livro teria sido lido por uma moça tão jovem e tão bonita.

 Ao perguntar para a moça sua opinião sobre a obra o ego de Chetan sofre um golpe repentino. Um tom malicioso de aprovação expressa a qualidade mediana de seu trabalho através da voz delicada da moça de olhos hipnotizantes. Por entre discussões e alfinetadas de ambos os passageiros, a jovem moça oferece ao escritor uma história para seu próximo livro e impõe a condição de que, antes de contá-la, Chetan teria de prometer que usaria a história em seu próximo romance. O rapaz, resistente, nega a promessa por algumas horas, não seria prudente da parte de um escritor prometer escrever sobre uma história desconhecida. Porém, eventualmente vencido pela insônia e pela beleza da moça o rapaz resolve ceder ao pedido em troca da história.

A história acima é usada no livro “One night @ the Call Center”  para explicar como Chetan Bhagat obteve a idéia do livro. A viagem de trem que parecia apenas mais uma viagem de volta para a casa acabou rendendo ao autor duas ótimas histórias, a primeira sobre a realização do sonho de dividir a cabine do trem com uma moça bonita, ao invés de senhoras falantes. E a segunda sobre um grupo de amigos indianos que trabalham em um Call Center de madrugada e recebem uma ligação inusitada.

Viagens, mesmo curtas, são capazes de render inspiração para muitas narrativas, a viagem de trem do autor é um exemplo disso, mas caso queiram acompanhar outra viagem que irá render muitas outras histórias é só entrar na página do W’writer e ler o primeiro capítulo de APróxima Maravilha.




Junior aprendeu os truques com o avô. Na mesa todos assistem seus movimentos com a maior atenção que podem providenciar por entre as luzes e sons das máquinas do cassino. A linha entre a verdade e a mentira é tênue e todos dividem o interesse em descobrir a verdade. Os olhares rápidos e atenciosos do rapaz, que aprendeu a lidar com as cartas antes mesmo de se formar no colegial, fazem parte de seu show. Tudo é ensaiado desde a pequena dança com os dedos até o discurso leve e engraçado. Muitos outros já haviam sido enganados por blefes e brincadeiras como aquela. Não era a primeira vez que ele fazia aquilo. Na verdade, ele era um especialista. Com as cartas escondidas entre as mangas, bolsos e qualquer outro lugar propício, Junior ganhava a vida. Não é um jogo, muito menos uma brincadeira, o que o jovem rapaz faz é uma arte.

A moça de vermelho o olha com ar de desconfiada, como quem assiste a um charlatão dando seu golpe. O homem de terno italiano não consegue esconder a surpresa em seus olhos e entre uma dose e outra desvia o olhar para a saia da garçonete. Tudo ali parece proposital, planejado para que o golpe dê certo. Inclusive a saia da garçonete. É um mundo de fantasia onde todos perdem a noção do que é real. As leis da física parecem desaparecer. Não saber se é dia ou noite causa confusão na cabeça das pessoas e em algum momento elas acabam por se perder em um tempo próprio. A senhora de vestido florido dá gargalhadas ao perceber o que tinha acontecido. Parecia até, que ela não estava presente durante todo o processo.

No fim das contas, Junior responde aos aplausos do público com um aceno sorridente enquanto cartas voam pelos ares e o melhor mágico do mundo desaparece por detrás das cortinas.

Ser um storyteller é como ser um mágico, mostrar para o atento apenas o que é interessante, pulando as partes chatas da vida e deixando no ar o delicioso sabor de “quero mais”.



Era apenas mais uma quinta feira e já da porta de entrada da escola eu podia ouvir meu professor. Era possível perceber na música que saia daquele instrumento a felicidade e a confiança de quem conversa com um amigo intimo de outros carnavais. O som rouco rasgava o ar como se o instrumento e o instrumentista por alguns momentos se tornassem um só. Toda aula eu entrava na sala perguntando como é que ele fazia aquilo? Porque é que o som dele saia tão limpo e seguro, enquanto o meu ainda era fraco e pouco marcante? Toda aula eu tinha a mesma resposta: “Um dia você descobre” – dizia, Jairo, um homem sorridente e sempre bem humorado, antes de bater com os dedos na partitura para que eu começasse a tocar e parasse de falar.

Quando achei que meu instrumento não era capaz de criar um som como aquele, o Jairo provou que era possível e que o instrumento, coitado, não tinha nada de culpa. Mesmo sabendo que a culpa não era do sax, gastei uns dois ou três salários entre instrumento e acessórios novos. Aumentei as horas de aula semanais. Eu precisava saber como é que ele conseguia tirar aquele som. Transformei o saxofone em uma espécie de obsessão adolescente, gastava horas do meu dia tocando, experimentando, estudando, todos os dias, esperando que um deles fosse o dia em que eu descobrisse como tirar aquele som.

Um belo dia, a resposta para a minha pergunta mudou: - Cante as notas enquanto toca, use a língua e a boca, faça pressão na palheta e escute, é assim que vai aprender a tirar esse som!” – me disse Jairo  com seu sorriso bem humorado disfarçado por detrás de um olhar sério de professor. Eu escutei aquelas palavras como se estivesse escutando algum tipo de segredo universal, como se alguém me entregasse a fórmula da felicidade. Tentei cantar com as notas, fazer mais pressão, tentei escutar enquanto tocava, até tentei gravar meus estudos para me escutar tocando. Mas não consegui chegar nem perto do som que pretendia chegar. Dormi tentando decifrar o que estava fazendo de errado.

Na aula seguinte montei o saxofone e comecei a tocar, depois do primeiro exercício o Jairo me elogiou, era difícil conseguir um elogio dele, soltei um sorriso, mas não me segurei – Jairo, não consegui tirar aquele som rasgado que você tira, tentei fazer tudo o que você disse e não consegui, porque? – perguntei com um ar de adolescente inconformado.

- Luis, calma, você melhorou muito seu jeito de tocar porque tentou tirar aquele som, mas eu não te ensinei tudo, falta um truque.

- Qual truque? Por que você não me ensinou o truque então?

- Porque se eu te ensinasse o truque você ia parar de procurar por ele, e é procurando que a gente aprende. – respondeu o professor com o mesmo sorriso de sempre enquanto batia na partitura para que voltássemos a tocar.

Anos depois disso, outro professor, outro grande mestre meu me ensinou que quando escrevemos uma história o leitor deve procurar por respostas para continuar lendo. Uma boa história dá a sensação de curiosidade e confiança de quem tem uma conversa íntima com um amigo de outros carnavais.