Lembram que citei lá atrás em um post 5 aplicativos para ajudar na escrita? Pois bem, vamos nos aprofundar um pouco em um deles que considero essencial e se tornou meu companheiro de brainstorming e worldbuilding: o Evernote - leia o que ele faz aqui 

Obviamente cada um de vocês poderá ter uma experiência única com o aplicativo e com isso desenvolverão seus próprios métodos de trabalho, mas vou dar algumas dicas de uso que faço para minhas narrativas. 


Como o processo de desenvolvimento do "story" pode ser intenso e descentralizado o primeiro passo é ter o evernote em todos seus dispositivos (celular, desktop, tablet, aonde der...).  Assim sempre que algo surgir em sua mente, basta registrar de maneira rápida. Da pra fazer isso em registro de voz ou transcreve-la com a ferramenta, mas nem sempre fica bom e eu prefiro escrever mesmo em tópicos.


versão web do evernote 

Este é o ensaio para um romance,  separei em notas os motivos que gostaria que o plot abrangesse, a esquerda é possível ver que tenho outras notas para os eventos importantes.  Pelas datas fica visível que os eventos foram surgindo após definir o motivo e o plot. 


Crie pilhas de cadernos e junte suas referências

A pilha de caderno é como um fichário com várias divisões que aqui chamamos de cadernos.  Em cada um deles eu gosto de trabalhar algo diferente.  Segue abaixo uma estrutura rápida de como eu monto minha pilha:

Pilha "Nome do Livro":  - Motivos - Plot -Eventos - Personagens - Lugares & cenários - Plot Devices (Itens) - Escaleta 


Os personagens ficam muito bem organizados como cards digitais que dá paera acessar a cada momento, basta juntar tudo que puder ali: ilustrações, bio, histórico e o que achar essencial para que ele funcione de maneira profunda.  Como vocês poderão ver no Thomaz Magnus, personagem que desenvolvi para o jogo Selene The Fantasy 




Essa ilustração é original do game, quando você trabalha em conjunto com um designer ou ilustrador (como foi nesse caso) fica muito mais fácil imergir na personalidade que está criando, principalmente quando se tem tudo ali na sua mão de maneira bem acessível. 

Acontece também de você não ter talento algum para ilustração, da mesma forma como este que voz escreve.  Mas isso não nos impede de buscar referências em sites de ilustração que possam servir de base para o projeto.  Isso agiliza tudo na hora de descrever para outra pessoa o mundo que está criando ou quais são as características físicas dos personagens. Geralmente quando for contratar ou fazer parceria com um desenhista ele vai requerer essas fontes, é aí que o evernote se mostra efetivo mais uma vez. 


Desenvolvimento do storyworld para conto de scifi "A cor dos seus olhos" 



Nem tudo você vai fazer na frente do PC, lógico! Mesmo assim ainda dá para aproveitar o aplicativo tirando fotos das anotações e salvando nos cadernos específicos, como o da escaleta.  Na versão plus ou premium do app você ainda pode compartilhar os cadernos e trabalhar colaborativamente.  E, para não ser perder, o programa ainda cria um sumário com links para as notas do bloco que você criou.  





Desde que comecei a trabalhar com o Evernote para meus textos ficou mais fácil retomar o trabalho de escrita quando passo um tempo fora daquele universo.  Com as coisas sempre a mão a história vai se construindo no tempo que ela precisa para se tornar coesa e tudo vai se esclarecendo na minha mente até que eu passo para as páginas. 

Espero que essas dicas tenham ajudado vocês! O que acham, me indicam um outro uso ou um outro app para organizar sua narrativa? Deixa aqui nos comentários.  





Escrevi recentemente, aqui no blog, sobre como uma história nasce. Independente do meio ela acaba respondendo umas perguntas básicas que vão dar sentido para tudo e muitas vezes esse sentido se encerra em uma só história - ou, pelo menos temos a sensação de que sim. 

Então, como continuar a história? 


Acredito que a pergunta que você deve responder antes seja "você deve continuar a sua história?".  Por vezes os personagens encontraram um sentido e a narrativa alcançou tão bem a missão de transmitir uma sensação ao leitor que ela deveria ficar intacta.  Você sabe o que pode acontecer, muitos filmes tiveram um bom começo, mas quando assistimos a sequência percebemos que a história se esvaziou, se arrastando indevidamente. 

Existe algo de mais relevante ou algum outro ponto que eu gostaria de tocar em uma conversa com meus leitores? Se sim... bola para frente!


Não se preocupe se a sequência não nascer junto com o primeiro texto. Na verdade até acho isso mais digno. Sua história deve dizer se ela precisará de uma cronologia ou não. Existe uma discussão muito grande em torno de autores (novos e antigos) e suas trilogias - no meu ponto de vista, se você planeja uma sequência sem nem saber do enredo da primeira história, você está fazendo isso errado. 




Aquele meu conto de Scifi virou uma quadrilogia, foi quando terminei que percebi que ainda haviam assuntos a serem discutidos.  Eu quero mostrar como o mundo se transformou após a invasão alien e também quero mostrar mais sobre como os humanos poderiam lidar com uma tentativa de dominação total da espécie.  Primeiramente eu divaguei sobre o momento em que percebemos que a humanidade está vendendo a própria alma, abrindo suas portas para uma promessa de cura total.  Então percebi que existe uma centelha, que pode despertar estes homens, algo que Descartes trouxe no seu discurso "cogito ergo sum"... dessa nova visão para a mesma história surgiu a continuação que chamei de Refúgio da Alma. 


Sem dúvida esse é um processo muito íntimo e longe de mim ditar uma regra, por isso mesmo a dica que posso compartilhar é que você deve levar essa história para dentro de você, exatamente por essa natureza do processo.  Mastigue um pouco e pense, repense... levará um tempo para você descobrir o que ela quer dizer. 


Tecnicamente você precisará de ganchos para esticar a narrativa e os melhores ganchos surgem da profundidade dos personagens que você criou. Se quer surpreender o leitor dê profundidade a um personagem secundário, mas recorte de um modo a não deixar tão claro de cara. Quando estiver escrevendo sua sequência será como jogar cartas na mesa e pensar "esse personagem teve um conflito intenso que pode vir a tona durante esta nova história" 




O personagem principal da minha saga é um psiquiatra, não atoa. Eu queria alguém que conectasse com outros personagens em um nível de profundidade muito grande, então ele poderia ajudar na narrativa de forma a explicar os processos inconscientes que estavam acontecendo.  Na segunda história ele encontra uma ex-paciente da qual manteve uma relação quase de paternidade. Então o leitor pode perceber que mesmo sendo Able Waltz o psiquiatra, no final era ele quem estava no divã do texto, exatamente porque ele tem um passado que levei um tempo planejando. 

Lembro-me de uma crítica do Mckee às novelas brasileiras e ele diz que a narrativa se esvazia pois os personagens tinham poucas dimensões.  Mas como eu escrevi no começo desse post, nem sempre sua história nasce como cronologia. Será que vale a pena desenvolver todos personagens dessa forma? Vale. Isso também confere veracidade ao seu texto, independente do tamanho dele. 


Book Fairy by CandyFlavoredTears


O paradoxo da segunda história

Você acabou de criar uma narrativa poderosa. O eco ainda reverbera na sua mente, aquela sensação de ter tocado em algo verdadeiro. E agora?

Existe um momento perigoso após o sucesso de uma história - aquele silêncio expectante onde a audiência pede mais. É sedutor, quase irresistível. Mas como aprendi com minha quadrilogia de ficção científica, nem sempre "mais" significa "melhor".

Lembro-me de quando terminei a primeira parte da saga. Havia algo completo ali, redondo como uma pérola. Mas então percebi - havia camadas não exploradas, personagens secundários com histórias não contadas. Foi quando entendi que uma sequência não deve nascer da pressão externa, mas de uma necessidade narrativa genuína.


Quando o silêncio é mais eloquente

Penso em Matrix voando pelos céus, Neo transformado. Aquele voo carregava todas as respostas necessárias. As sequências tentaram explicar o inexplicável, filosofar sobre o que já estava poeticamente completo. Às vezes, o mistério é mais poderoso que a revelação.

Existe uma sabedoria em saber quando parar. Como psiquiatra que virou personagem em minha própria narrativa, aprendi que nem todo paciente precisa de mais uma sessão. Nem toda história precisa de mais um capítulo.


O teste do espelho narrativo

Desenvolvi um exercício simples mas revelador: coloque sua história diante do espelho. Se a continuação for apenas o reflexo da primeira - mesma estrutura, mesmos conflitos, apenas com roupas diferentes - você tem uma repetição, não uma evolução.

A verdadeira sequência não continua; ela aprofunda.

Quando decidi escrever Refúgio da Alma, não foi porque queria estender a invasão alienígena. Foi porque descobri que a verdadeira invasão acontecia dentro de nós. O Descartes tinha razão com seu "cogito ergo sum", mas eu queria explorar o que acontece quando o "penso" é invadido, quando o "logo" é questionado.


A anatomia de uma continuação orgânica

Observo as grandes narrativas que souberam evoluir. O Poderoso Chefão II não é sobre mais máfia - é sobre o preço da máfia. A Apple não vendeu mais computadores - redefiniu o que significa computar. A evolução narrativa genuína muda a pergunta, não apenas a resposta.

Há anos analiso cases corporativos e percebo o padrão: Coca-Cola tentou melhorar a fórmula perfeita. Netflix transformou um teste secundário em revolução. A diferença? Um forçou continuidade onde havia completude. O outro encontrou nova história dentro da antiga.


O personagem secundário como semente

Aqui mora um segredo que descobri criando Able Waltz: todo personagem secundário bem construído carrega uma história completa não contada. Na primeira narrativa, ele era o psiquiatra que analisava. Na sequência, descobrimos que era ele no divã o tempo todo.

McKee criticava nossas novelas pela falta de dimensão dos personagens. Tinha razão. Mas não é sobre criar complexidade artificial - é sobre plantar sementes narrativas que podem ou não germinar. Algumas ficam dormentes para sempre. E tudo bem.


O processo íntimo da descoberta

Leva tempo para saber se existe uma segunda história. Não é decisão que se toma no calor do sucesso ou na pressão do mercado. É processo de digestão narrativa.

Primeiro, deixe a história descansar. Como um bom vinho, ela precisa respirar. Depois, questione: o que ficou não dito que precisa ser dito? Ou o não-dito é exatamente onde mora a poesia?

Quando escrevi sobre a invasão alienígena, pensei ter contado tudo. Semanas depois, uma pergunta me assombrou: e se a verdadeira resistência humana não fosse física, mas existencial? Nasceu ali a semente da continuação.


A vulnerabilidade da segunda chance

Há algo profundamente vulnerável em continuar uma história. É admitir que a primeira, por mais completa que parecesse, tinha lacunas. Ou pior - é arriscar diluir o que estava concentrado, explicar o que deveria permanecer misterioso.

Mas quando funciona... ah, quando funciona é revelação.

É descobrir que sua história não era sobre invasão, mas sobre rendição. Que seu personagem psiquiatra não estava curando, estava se escondendo. Que sua marca não vendia rapidez, vendia tempo - dois opostos que coexistem.


A sabedoria final

Grandes histórias merecem finais dignos. Às vezes, o final mais digno é não ter continuação. Outras vezes, descobrimos que o que chamávamos de história completa era apenas o primeiro ato de algo maior.

Antes de escrever aquela segunda linha, aquele segundo capítulo, aquela segunda campanha, respire. Mastigue a narrativa original como eu fiz com minha saga. Pergunte-se:

Estou revelando ou apenas repetindo? Estou aprofundando ou apenas alongando? O silêncio seria mais eloquente?

Se sobreviver a essas perguntas - se houver algo genuíno e necessário a ser dito - então você não tem apenas uma sequência.

Você tem uma nova história que honra a antiga enquanto revela dimensões que sempre estiveram lá, esperando o momento certo para emergir.

Como Descartes no divã de Able Waltz, às vezes precisamos pensar sobre nosso próprio pensar. E descobrir que a melhor continuação pode ser o ponto final.

Descubra se sua narrativa corporativa precisa de um novo capítulo

A Storytellers ajuda marcas e líderes a identificar quando evoluir narrativas e quando preservar legados.



As fronteiras entre a ficção e a realidade estão borradas.  É o que afirma o dinamarquês Jesper Juul em seu livro Half-Real e de tempos em tempos uma grande empresa lança mão da ponte que existe entre nosso mundo e a fantasia para se tornar mais relevante aos seus consumidores.

Vocês poderão se lembrar de casos como a cerveja Duff, as barras de chocolate Wonka e vários outros produtos que surgiram de histórias. 


A Microsoft entendo bastante disso: "A empresa confirmou oficialmente nesta terça-feira (26) que irá levar a assistente pessoal Cortana para o iOS e Android." Ano passado a empresa havia lançado uma video satirizando Siri, a assistente pessoal nativa do Iphone. Com a expansão para outras plataformas a empresa pretende integrar outros sistemas operacionais móveis com o novo software da empresa.




Para quem não conhece, Cortana é uma inteligência artificial que ocupa a interface neural de Master Chief, na franquia Halo. O primeiro game da série foi lançado em 2001 e desde então passaram a quebrar vários recordes de vendas. Halo 3 vendeu mais de US$ 170 milhões nas primeiras 24 horas de lançamento.  Ainda conta com HQs, um filme (que particularmente acho mal aproveitado) e spin-off games. 

Quando foi lançada, originalmente para Windows Phone (2014), Cortana chegou com a mesma voz que a dos games.  Recentemente terminei Halo 4 e confesso que ao me deparar com o nome Cortana nos TT's eu fiquei intrigado. Será que vão tentar aproximar mais a experiência com a personagem da série Halo? 


É possível... a Microsoft já desenvolveu um personagem para o Internet Explorer, o que gerou uma animação bastante celebrada pelos fãs de anime.  Que bacana seria ver uma campanha utilizando Cortana em nosso mundo, mostrando como ela pode nos ajudar assim como ajudou Chief! 



Trecho de matéria publica na edição 178 da revista ProNews escrita por Ivelise Buarque.

“Anualmente o Brasil produz cerca de 100 longametragens, dos quais apenas uma média de 10 conseguem se pagar através da bilheteria. Por isso a presença das marcas é tão importante. Mas, existe uma diferença entre a marca querer aparecer na obra final (e pagar por isso, como no caso da novela) ou apenas ficar nos bastidores (e receber uma parcela do faturamento). O filme Tropa de Elite, por exemplo, gerou um retorno sobre investimento fantástico”, lembra Fernando Palacios, diretor da Storytellers Brand'n'Fiction.

Esses retornos acabam sendo os estímulos para que as empresas se envolvam neste cenário, mas naturalmente de que forma podem se envolver e quais as marcas e segmentos estimulam mais nesta nova produção audiovisual brasileira depende de diversos fatores, segundo o especialista. “Essa questão depende muito da finalidade do produto audiovisual. Quatro vertentes de destaque são a teledramaturgia, o cinema nacional, a TV fechada e a Internet.

A novela é um mercado de poucos players, mas extremamente rentável. As marcas costumam entrar como anunciantes nos intervalos comerciais ou dentro da trama através do product placement, que no Brasil costuma ser erroneamente chamado de 'merchandising'. Uma novela pode chegar a nove meses de duração e o valor investido pelas empresas nesse período podeultrapassarR$3bilhões”, ressalta Palacios.

Observamos, contudo, que esta indústria não só está crescendo de forma acelerada em virtude de um cenário de valorização ou de protecionismo, como devido à existência de demanda e oportunidades crescentes para profissionais e marcas se integrarem numa nova produção de campo, a do setor Multimídia.



CUIDADO: SPOILERS!


Desde o começo, quando foi divulgado o spin off de "Arrow" - "Flash" -, muitos fãs estavam apreensivos quanto aos personagens da DC Comics: como seriam desenvolvidos ao longo dos 40 minutos de cada episódio? Eles precisavam superar os sucessos da Marvel nas telonas - apesar do claro desapontamento com Agents Of Shield e o já Ibope positivo do Arqueiro -, necessitando ganhar os fãs de volta com possíveis sucessos na TV aberta: afinal, a competição estava mais palpável do que nunca. Flash e Gotham foram grandes apostas da marca: e, claramente, deram seus resultados, mais do que satisfatórios.

Tirando Constantine, os seriados da emissora não deixaram de ter grandes avanços nas telas de casa. Gotham, saindo em disparado; seguido de Flash e Arrow. O velocista ganhou fãs no mundo inteiro desde o primeiro episódio, com a perda de sua mãe e a busca incessável pelo seu assassino, até o ganho de seus poderes e sua luta contra outros meta-humanos. O piloto foi assistido por 4,5 milhões de espectadores: a maior audiência que um show da CW obteve em cinco anos. Assim, o mesmo era esperado de Oliver Queen e seu grupo, que já haviam alcançado resultados positivos em suas temporadas passadas.


Então, o que deu errado? A temporada começara bem: os heróis na luta contra o mal, a chegada de Ra's Al Ghul e a ameaça contra tudo o que mais importava ao personagem principal. A mistura era dica de sucesso, na certa.

Mas o spin off tomou as rédeas da situação com o seu final. Enquanto Oliver foi ficando cada vez mais "mole", entre o amor de Felicity e suas questões pessoais em relação a própria identidade, a revelação do vilão Harrison Wells (vulgo Eobard Thawne/Flash Reverso) e a possibilidade de salvação da mãe de Barry alavancaram os episódios de tal forma que deixaram o seriado de Queen muito a desejar. Até mesmo Laurel, que não tinha experiência nenhuma no começo como Canário, já estava ganhando da Liga dos Assassinos. Se for mesmo selecionar os piores vilões da série, Slade com certeza se encontraria em uma categoria bem pior que a de Ra's.

E quanto a Felicity controlando a armadura de Ray? Que ele levou uma temporada inteira para aprender a usar? Sem comentários.

A saída de Roy é a mais triste a ser apontada, pelo fato do Arsenal ser o side kick legítimo do Arrow. Decepcionante. E isso sem contar que os melhores episódios da série foram em seus crossovers com o velocista.


E os flashbacks? Também, decepcionantes. No início da temporada, até que pareciam levar a algum resultado útil no desenvolver da história: contudo, nos últimos episódios, seu desenrolar já era tão óbvio que as partes se tornaram massantes e tomadas pelo tédio. Afinal, aonde estava o governo de Hong Kong contra a ameaça do vírus? Eram apenas os três contra o governo? Pouco provável.

Fato: Felicity deveria ter ficado com o Átomo, pelo menos não teria aquele final fraco com Oliver desistindo de tudo em direção ao pôr do sol.

O ponto é: a mudança de personalidade de Oliver Queen era esperado ao longo do seriado, no entanto, não era desejável um resultado tão diferente quanto ao auto-conhecimento do mesmo. Afinal, para que mudar um time que já está ganhando? Por que transformar uma série tão amada em um clichê, com um desfecho sem grandes surpresas; ao contrário da temporada anterior?


Sim, ainda se espera que a série tenha um retorno impactante, com o Arrow que todos conhecemos e amamos. De Flash, já podemos ter grandes esperanças: enquanto o primeiro não criou nenhum gancho para a próxima temporada, o segundo ainda precisa ter o buraco negro fechado, e quando veremos Cisco e Caitlin transformados em Vibro e Nevasca, grandes vilões do herói? As possibilidades são inesgotáveis.



Estamos vivendo um momento interessante do cinema: a TV ganhou relevância com os seriados e Holywood tem apostado em histórias antigas. Um exemplo disso é o filme Mad Max que recentemente ganhou uma sequência bastante comentada. Porém, ele não está só. Em breve receberemos um reboot de Ghostbusters – Os Caça Fantasmas, Highlander, Gremlins... e uma lista sem fim.

Mas será que vale a pena? Afinal, por quê precisamos recontar ou estender uma história? 


O primeiro ponto a se levar em consideração é a forma com que a sociedade absorve uma narrativa. Ela muda. Eu mesmo não consigo ver com os mesmos olhos os filmes que assistia na década de 90. ET, de Spielberg me apresenta um ritmo bem mais lento do que me acostumei atualmente. 

Há também questões sociais que são consideradas quando se escreve em um momento diferente. Muitas histórias são percebidas, hoje, como racistas, machistas ou homofóbicas.  Talvez elas fizessem apologia a comportamentos que não são bem aceitos contemporaneamente, de repente algo como estimular o cigarro. Outro ponto que podemos considerar determinante é a criação de verdadeiros mitos modernos. 




Um mito é construído com várias narrativas, símbolos e esquemas que ultrapassam a quarta parede. E isso faz dele extremamente comercial. 


Religiões são exemplos de histórias que vem sendo adaptadas a realidade a cada era da humanidade. Assim como elas, os mitos modernos criados pela indústria do entretenimento (seja nos games ou nos filmes) também tem a capacidade de entrar em nossas vidas e fazer sentido.  É aí que entra o hábito humano de colecionar coisas e juntar peças de uma história... o que justifica a construção de franquias com livros, action figures, jogos, camisetas, exposições e todo tipo de conteúdo que for sustentável ao tamanho do mito que aquela história representa.




Todavia nem toda narrativa se torna mitológica.  Essa é uma questão para outro post , mas é só reparar nos nomes dos reboots que citei acima e vocês entenderão.  Ghostbusters, Highlander, Gremlins... verdadeiros ícones da cultura pop. 


Um dos pontos-chave numa boa história é o manejo da tensão, ou seja, a administração dos conflitos sofridos pelos personagens.

Para início de conversa, todo Storyteller deve saber que existem dois tipos de conflito em uma história: o interno (pessoal/ emocional) e o externo (conflitos com outros personagens e situações de perigo). Todo herói precisa ter um objetivo, isso já é sabido, e para chegar até esse objetivo ele precisa passar por situações que envolvem tensão.

Em tragédias, o resultado da tensão é negativo; enquanto que em comédias (histórias com final feliz) o resultado da tensão é sempre positivo apresentando ao fim uma recompensa ao público através do que acontece com o herói.

Freud nos fala em suas obras que o homem é movido pelo resultado da equação "tensão vs. satisfação", e ele define essa catexia que move o homem como "pulsão" sendo este conceito um dos segredos da energia que move a mente humana em busca de seus desejos.

Portanto, uma história com a quantidade certa de tensão e satisfação (ou frustração) pode se tornar viciante, visto que, para psicologia comportamental, reforços positivos podem moldar o comportamento das pessoas.

Mas então qual seria medida certa de tensão para uma boa história?

Bom, o segredo é testar e medir aos poucos a reação do público. É fato que muitas séries de livros e da TV mudam seu enredo de acordo com a reação daqueles que a consomem.

Enfim, vá escrever e testar!

AVISO - ESSE POST É UMA HISTÓRIA 100% REAL


















Já faz muito tempo que quero escrever esse post. Ele demorou mais de três meses para ficar pronto. Três meses que eu passei na estrada, sem dinheiro, vivendo apenas contando histórias.

Eu não sei onde tudo começou. Se foi após o término desastroso de algum relacionamento amoroso, ou talvez a gota d'água de uma vida de trabalho que jamais me satisfez, ou até mesmo quando a Dilma e o Geraldão ganharam as eleições. Quando as pessoas me perguntam de onde veio a ideia de jogar tudo para o ar, prefiro responder que me inspirei em uma história que começou antes da minha, quando meu avô foi embora da miséria do pós-guerra na Itália e foi buscar a sorte no Brasil.

Seguindo o caminho inverso daquele homem que tenho como herói pessoal, comprei um bilhete de ida só para a Itália, mas sem a intenção de me acomodar lá por muito tempo...

Contei pouca coisa para pouca gente. Da Itália eu planejava começar uma etapa da minha vida chamada: "Stefano Giorgi e a Última Cruzada". Eu iria de Roma a Jerusalém sem dinheiro, em busca de mim mesmo e de Deus. E quando digo Deus, apesar de ser católico, me refiro a todas as crenças, inclusive aquelas crenças que acreditam em nada. #queironia

O começo foi a pior parte. Eu iria fazer couchsurfing pela primeira vez na minha vida. Não tinha a menor ideia do que esperar. E também tinha duas missões na Itália: ir para uma audiência com o Papa e encontrar a família do meu avô na Toscana. Naquele ponto eu tinha uma página em branco na minha frente, apenas com ideias de como começar minha história. E páginas em branco dão medo. Mas a vida é muito melhor com um frio na barriga, então eu liguei o foda-se e fui realizar meu sonho com medo mesmo.

Em Roma eu tentei fazer todo o tipo de serviços em troca de moedas para sobreviver. Infelizmente, ninguém queria nada que eu pudesse oferecer. Mas as pessoas me davam ajuda com comida e com passagens de metrô. No meu aniversário, uma mulher me deu um saco de pão. Por mais faminto que eu estivesse, era pão demais para mim, então eu resolvi dividir com os mendigos da cidade. Foram eles que me ensinaram tudo o que eu precisava saber sobre a vida de cigano nas estradas, mas isso é material para um outro post.

De Roma eu fui para a Toscana. Uma menina com quem eu saí na noite anterior me deu um bilhete de trem. É impressionante como ser um aventureiro é envolvente para o sexo oposto.

Passei uma semana conhecendo meu avô que morreu quando eu tinha apenas cinco anos de idade. Depois de me despedir da minha família, achei uma comunidade anarquista em uma biblioteca debaixo de um castelo medieval, onde vivi por cinco dias sem água quente ou energia elétrica. Achei meio que na sorte, em uma tentativa desesperada de não morrer congelado nas montanhas.


Voltei para o couchsurfing e fui para Nápoles em busca de um navio para cruzar o Adriático. Descobri que estava do lado errado da península. Pulei dois trens, e fui preso. Fui solto e pulei mais um trem. Cruzei o mar praticamente em uma barca de refugiados para a Albânia, onde conheci uma holandesa evangélica que me levou para sua igreja e me deu teto e comida por uma noite. Naquele ponto eu finalmente tinha algumas histórias para contar, e comecei a contá-las.

Desci a Albânia toda por carona. A maioria das pessoas ali nunca tinha visto um brasileiro na vida, então faziam de tudo para me ajudar. Posso dizer que conheci Baba Tomori e os antigos deuses albaneses, mas o melhor de tudo foram as pessoas que passaram pelo meu caminho. Uma noite dois policiais fizeram um bloqueio na estrada para pararem todos os caminhões que passavam e acharem um para me levar ao meu próximo destino.


Da Albânia eu fui para a Grécia. Meu primeiro destino foi Meteora, a enorme formação rochosa repleta de monastérios ortodoxos. Lá uma freira me deu um amuleto de Santo Stefano depois de ouvir que eu estava a caminho de Jerusalém. Depois daquilo, sempre que estava fodido no meio do nada, comecei a fazer uma prece para Santo Stefano, e posso dizer que até agora ele nunca me deixou na mão. De Meteora fui para Atenas, onde conheci uma semi-deusa grega. De Atenas fui prestar minha homenagem aos 300 de Esparta e aproveitei para tomar banho na fonte que Hefesto fez para curar Hércules.



Segui para Salônica e depois para Istambul, onde dois amigos turcos que eu conheci na comunidade anarquista me hospedaram.


Pisei na Ásia pela primeira vez na vida. Fui em busca da armadura de São Jorge na Capadócia, mas só achei chaminés de fadas que mais pareciam pirocas gigantes. Mas talvez tenha sido São Jorge que me salvou da morte certa, quando eu caí de um penhasco ao invadir um museu a céu aberto (o pior de tudo é que eu invadi o museu errado).


Continuei rumo ao sul. Peguei a carona com um sírio que me deu um lugar para dormir e comida a noite. Ele tinha sete outros amigos, nenhum com passaporte e muito menos vistos para estarem na Turquia. Não demorou muito para eles me dizerem que estavam contrabandeando moedas de ouro. Demorou menos ainda para eles pedirem ajuda e me oferecerem uma parte do tesouro como pagamento. E demorou só um pouco mais para eu descobrir que eles queriam me matar.

Fugi para Chipre. Lutei Jiu Jitsu contra sete caras para poder dar aulas. Não perdi nenhuma luta. Consegui dinheiro. Continuei pegando carona e contando minha história para entreter os motoristas. Ganhei 200 euros em um dia.

Comprei uma passagem para o Líbano. Fiquei em uma cidade a duas horas de distância do ISIS, onde curti uma das melhores baladas da minha vida. Depois de uma semana descansando na casa de amigos, fui para a Jordânia e logo em seguida para Israel. Era domingo de Páscoa quando eu entrei em Jerusalém. Não conseguia parar de chorar, pensando que tinha finalmente chegado.

Eu não achei Deus em Jerusalém. Achei ele na estrada, com as pessoas que eu conheci. Mas depois de tudo o que eu passei, senti que Deus me deu uma vida nova. Mais uma página em branco. Agora eu não partia mais em busca de Dele ou de mim mesmo, e sim de uma casa.

Muitos viajantes que conheci ao redor do mundo e ficaram meus amigos no Facebook começaram a me mandar mensagens me convidando para visitá-los. Comecei a traçar meu novo caminho.

Encontrei uma passagem barata para a Hungria que eu poderia comprar com o resto do dinheiro que tinha sobrado. Fui para Budapeste, onde conheci uma princesa num castelo com quem falo até hoje. De lá fui tomar um porre em Bratslava, em um festival de cerveja. Ao devolver copos ganhava 2 euros... resultado: enchi a cara e lucrei!


De Bratslava fui para Praga. É quase impossível pegar carona na República Tcheca e não ficar chapado. Até hoje não sei como cheguei em Praga.De Praga fui para Berlim e de Berlim para Sonderborg na Dinamarca. Lá ganhei um corte de cabelo. Realmente, eu precisava. Depois de quase três meses eu parecia um mendigo... o que não era muito distante do que eu era.


Desci para Hamburgo onde dormi (na verdade não) na casa de uma gata alemã que conheci em uma balada. De Hamburgo fui para Colônia visitar uma amiga de infância. Meu caminho ideal era descer direto para a Suíça e de lá ir para a Itália. Mudei de ideia de última hora e fui para a casa de uma amiga em Maastrich na Holanda. Acho desnecessário dizer como eu passei meu dia na Holanda, mas deixo para você imaginar.

Uma amiga da minha mãe me convidou para visitar Luxemburgo. E graças a Deus eu fui. Não poderia ter sido melhor recebido, e ganhei uma passagem para Ibiza. Mas teria que sair de Pisa na Itália que estava a mais de 1000km de distância.

Corri como um louco e consegui chegar onde eu queria na hora que eu queria. Dormir na rua na Suíça é crime, e eu não poderia ser preso, senão perderia minha passagem. Então fui para uma igreja, e contei minha história. Um cozinheiro italiano me deixou dormir na casa dele e me ofereceu um excelente jantar. Dia seguinte, continuei minha corrida desesperada.

Eu cheguei a tempo e peguei o avião. E encontrei uma casa... a parte difícil será mantê-la. Mas isso é uma história para outro dia e outro post.

Eu não toco nenhum instrumento, sou péssimo em desenhar e não sei dançar sóbrio. Meu único talento é contar histórias. Quando contava minhas histórias, fossem histórias do Brasil, histórias de relacionamentos amorosos ou histórias que eu estava vivendo naquela aventura, tentava envolver ao máximo meus ouvintes, para que eles se sentissem uma parte da história também. E exatamente por isso tanta gente me ajudou. Com comida, com carona, com teto, ou simplesmente com uma boa conversa. É esse envolvimento com o ouvinte que o bom Storyteller deve buscar sempre. E que me ajudou a sobreviver durante três meses. E essa história que acabei de contar para você que está lendo esse post também não é só minha, é de todos aqueles que me ajudaram no meu caminho.

Caso você ficou interessado e queira saber mais sobre a minha história, me procure no Instagram @ststfeano


A estréia mundial do episódio S05E06 de Game of Thrones, no último domingo, embora tendo sido um sucesso mundial, teve uma recepção muito dividida dos fãs – enquanto alguns acharam o episódio brilhante como todos, muitos não ficaram felizes com o rumo do enredo tomado na série. No twitter, temos como prova milhares de posts sobre o descontentamento geral dos fãs. Claro que não é necessário apontar que a cena em questão é o final do casamento de Sansa e Ramsay, finalizado com uma cena de estupro que o consumou.


Mas por que toda essa frustração da parte dos fãs? Muitos discordam e dizem, inclusive, que é uma cena cabível dentro de tudo que já ocorreu na série até esse ponto. Pois bem. Contudo, existem motivos muito válidos pra essa frustração geral. Os porquês são alguns, e seriam os seguintes:


I.     Fidelidade

Sim, a série é só BASEADA nos livros, e não é uma recriação deles. Mas não torna a frustração menos digna: houve uma mudança drástica no rumo da personagem Sansa que, desde o início, preocupou os fãs que sabiam o que acontecia com a esposa de Ramsay no livros. E por mais que a cena tenha sido fiel ao livro quanto aos acontecimentos (embora o estupro envolva outra personagem), não era necessária na série – se foi possível mudar o rumo de Sansa por completo, qual seria o problema de poupá-la desse momento? Como ele adiciona algo à história? Qual seria a relevância?


II.     Relevância

Tudo que George R. R. Martin escreveu e fez acontecer na série teve um porquê. Toda morte, todo sofrimento, todos os acontecimentos eram pontuais e importantes pro desenrolar da história. Em screenwritting, quando se faz uma personagem de uma história passar por uma dificuldade, essa dificuldade geralmente é justificada, e é importante pro desenvolvimento de caráter do personagem, amadurecimento, etc. Caso contrário, a situação é vista como sofrimento gratuito, que torna a história apelativa, especialmente no caso de histórias contadas em séries ou filmes. Não se "castiga" um personagem gratuitamente, isso também empobrece o enredo.


Pra ilustrar melhor: A morte de Robert Baratheon, por exemplo, teve seu porquê, pois foi o gatilho necessário para a Guerra dos Cinco Reis e da busca da conquista do trono, que é o enredo principal da série. A morte de Ned Stark foi o ponto de partida das histórias de todos os Starks até agora, causando o enfraquecimento de Winterfell, e fazendo com que Bran Stark descobrisse seus “poderes” e fosse em sua busca, que é vital no futuro da série (sem spoilers, claro).

Mas vamos focar na morte de Robb Stark por um momento. Sua morte, pra história, significou não somente um maior enfraquecimento de Winterfell, mas também deu um motivo para os espectadores odiarem os Bolton por sua traição. E é aí que o estupro de Sansa se torna irrelevante – Ramsay já é detestado por sua personalidade, por suas atitudes, por seus feitos. Não havia necessidade da cena final para que odiássemos o mais novo Bolton, ele já era detestável. Os espectadores já o odeiam, e Sansa já o odeia.




III.     Desnecessário

Como dito anteriormente, a cena não adicionou muito pra história de Ramsay, e muito menos pro enredo que o envolve. Mas e pra Sansa? O acontecimento não teria sido importante pro seu desenvolvimento? Afinal, agora ela tem uma chance de amadurecer e (mais um) motivo pra odiar Ramsay, manipulá-lo, e se vingar!

Então... não necessariamente. Voltando um pouco na questão da relevância de acontecimentos numa história, temos que avaliar o seguinte: todo acontecimento em Game of Thrones é o começo de um arco na história ou o fim de um arco. Sempre. No caso do desenvolvimento de Sansa, o arco de seu crescimento e amadurecimento é muito claro. Ela começa como a menina ingênua, egoísta, e iludida sobre o mundo, sonhando com seu casamento com Joffrey (que acabou sendo um sadista e cruel com ela) e com sua vida como rainha. E depois de sofrer com a morte de praticamente toda sua família (ou como ela pelo menos pensa), vemos a personagem parar de se iludir com pessoas e entender que nem todos são confiáveis (lembra do sofrimento justificado?). Quanto mais o tempo passa, mais vemos Sansa se tornar a personagem do final da quarta temporada, que sabe manipular, sabe em quem confiar, sabe se impor, e sabe quando não agir e observar apenas.


Vemos isso continuar no início da quinta temporada, na sua desconfiança na primeira pessoa que aparece que diz querer resgatá-la, quando Brienne se aproxima dela. Inclusive, até no próprio episódio de seu casamento ela demonstra sua maturidade e esperteza ao expor Myranda, além de mostrar seu amadurecimento numa personagem independente quando ela mostra não se sentir ameaçada por Myranda em suas tentativas de deixá-la insegura.

Portanto, chances de amadurecer Sansa já teve, tomou essas oportunidades, e teve amadurecimento, seu arco já estava no fim. Não havia, de modo algum, a necessidade de “mais uma oportunidade” como essa. Ela já desconfiava de Ramsay, já o detestava, e com certeza já tramava em sua mente algo para enganá-lo, ou para ao menos não se prejudicar tanto. O estupro só a traumatizou mais, mesmo já amadurecida, ponto. Ramsay poderia tentar quebrá-la de várias formas que poderiam ser modos dela amadurecer mais ainda. Mas não, os escritores da série optaram pelo comum, e já anteriormente acontecido, estupro.


IV. Clichê

É, estupro não é incabível ou inesperado na história, pois não é novidade. E esse é outro problema com a escolha dos escritores. A necessidade de reduzir o amadurecimento ou poder de muitas personagens femininas da série à sexualidade delas é algo recorrente, and it’s getting old. Temos Daenerys que só se tornou dominante e decidida depois de “dominar” Khal Drogo sexualmente; Melisandre, que mostra sua superioridade em relação a muitos homens através do sexo, além de tê-lo como ferramenta para seus rituais religiosos (os quais são responsáveis por sua posição de poder – ligação entre poder e sexualidade); Cersei, que domina seu irmão fortemente através do sexo; Ygritte, que desde o início de sua relação com Jon Snow, utilizou de sua sexualidade melhor explorada pra tentar manipulá-lo... os exemplos são inúmeros, e não tem mulher protagonista que se livre da premissa. Mas isso é pano pra manga pra uma discussão futura.


E ainda assim, quais as personagens femininas principais (e fortes) que, até o episódio de ontem, não tiveram sua vida sexual ou amorosa como ponto chave para que se desenvolvessem? As mulheres Stark. Catelyn, Sansa, e Arya eram as únicas protagonistas femininas que não tiveram suas sexualidades ou interesses amorosos abordados como focos no enredo nem ponto de mudança pra história. Quando os escritores escolheram trazer isso para a história de Sansa, tiraram-na do padrão de sua família, fizeram dela a Stark "de fora." Pode parecer algo pequeno, mas fez Sansa parecer mais fraca do que ela é: se fosse Arya, por exemplo, já imaginaríamos uma reação, e o mesmo com Catelyn. Pode-se dizer que foi algo "out of character" pra uma Stark, até.


Meu ponto com essa análise não é dizer que quem não ficou incomodado está errado, claro que não. A questão é que acho que essas certas coisas não foram percebidas e não foram levadas em conta, e são importantes na hora de se contar uma história. E pior, esse determinado momento, tanto nos livros quanto na série, foi focado em apenas uma pessoa: Theon. O objetivo de Ramsay é humilhar e ridicularizar Theon mais uma vez com esse feito. Sansa foi estuprada, humilhada, e desrespeitada em seu próprio lar, e o foco foi em Theon. Além de tudo que há de errado com essa cena, temos a trama e a experiência de Sansa como secundárias nesse momento da história, uma vez que o foco muda pra reação de Theon. Sinto que isso pode ter ajudado a diminuir o "peso" da cena pra personagem, ajudando a maquiar tudo que citei nessa análise, e diminuir ainda mais a importância do que Sansa passa pra própria história dela.




Tendo tudo isso em mente, é válido reavaliarmos o quão justa a cena foi pra personagem que já havia sofrido o necessário pra uma vida toda. É esperado que Sansa vai conseguir se livrar dessa situação bem mais ardilosamente do que fez quando teve de lidar com Joffrey, provando que cresceu e aprendeu o que precisava aprender. No então, o estupro, por esses e outros diversos motivos, não era uma lição necessária.