Diversas são as definições para o termo Master-Blaster, mas a mais simples seria a de “arrasa-quarteirão”. Embora não seja a tradução literal, o conceito intrínseco ao termo composto está presente em muitas tramas e sagas mitológicas, que possuem arquétipos díspares em suas idiossincrasias; mais precisamente, a dicotomia Força versus Astúcia/Inteligência. Estes dois aspectos aparecem quase sempre como aliados; outras vezes, como duas facetas da mesma personalidade e até mesmo como rivais. Mas o conceito Master-Blaster mostra sempre as duas personalidades como complementares e necessárias uma à outra.


Aqueles que tiveram sua infância ou adolescência nos saudosos (e, para alguns, famigerados) anos oitenta, provavelmente se lembram do filme Mad Max Além da Cúpula do Trovão (Mad Max Beyond Thunderdome) e dos personagens Lunataks, da série animada Thundercats.

Mad Max Além da Cúpula do Trovão

Tanto no filme quanto no desenho animado, há uma dupla de personagens que atuam numa espécie de simbiose. No filme, os personagens atendem pelos nomes que definem suas funções: Master (o que lidera, o "cérebro" da equipe) e Blaster, o que atua, de forma destrutiva, sob sua liderança. No desenho animado, a personagem Luna atua como "Master", enquanto o personagem Amok ocupa a função que lhe resta.

O conceito apareceu em Thundercats logo depois!

Embora os personagens do desenho só tenham aparecido dois anos após o lançamento do filme, seria precipitado denunciar um eventual plágio, pois um olhar mais cuidadoso perceberá que isso se repete em várias obras midiáticas, podendo ser compreendido até mesmo como um arquétipo de personagem.

O termo simbiose utilizado no início do artigo não é exatamente a relação entre o Master e o Blaster. Há diversas relações interespecíficas estudadas pela Biologia e me utilizarei delas no presente ensaio. 

Vamos agora conhecer uma extensa galeria:

Sinfilia, o modelo mais clássico de Master-Blaster

Embora pouco conhecida, essa relação interespecífica difere bastante da Protocooperação ou do Mutualismo. A Sinfilia permite que ambos vivam separadamente, embora a parte mais fraca necessite da outra para sobreviver. A parte mais forte geralmente protege a mais fraca e, no caso do conceito Master-Blaster, obtém dela um propósito; um direcionamento para a sua vida.  

Cinema: Master-Blaster (Mad Max Além da Cúpula do Trovão- 1985)

O terceiro filme da franquia coloca o protagonista Max numa arapuca diselpunk conhecida como Thunderdome, uma espécie de Coliseu presente na nova Roma, Bartertown, uma cidadela construída a partir dos espólios da antiga civilização. Entre os espólios está o turbinado V8 de Max, que vai tirar satisfação com a galera de Bartertown a fim de reaver seu único pertence.

Pra quem não sabe, dieselpunk é um subgênero de ficção científica derivado do steampunk, aquele com características futuristas mescladas a uma estética retrô, sendo ela pré-histórica, como em Turok - Dinosaur Hunter; medieval, como em Afro Samurainoir, como na HQ Skreemer, de Peter Milligan; vitoriana, como no anime Vampire Hunter D: Bloodlust, no RPG Castle Falkenstein e no game The Order: 1886. Mas o dieselpunk mistura nossa época com um futuro sei-lá-quando distante com veículos comuns semi-blindados de artilharia pesada num mundo que não tem água ou o que comer, saca?


Master-Blaster, o exemplo principal do artigo!

Max acaba conhecendo Aunty Entity literalmente, a tiazinha matriarca-imperatriz da nova Roma pós-apocalíptica), quedivide o poder com Master, um anão engenheiro que detém o conhecimento de como administrar a refinaria que mantém a cidadela  funcionando através de gás metano extraído das fezes de porcos. Além do prestígio que a função confere, Master conta ainda com um robusto guarda-costas que atende pela alcunha de Blaster. 



A fim de desmoralizar o engenheiro de merda, Aunty Entity convence Max a desafiar o Golias dieselpunk na sinistra Cúpula do Trovão. Aos trancos e barrancos, Max consegue vencer o obtuso adversário após desferir o derradeiro golpe que lhe arranca o elmo que esconde sua face, mas se recusa a matá-lo quando constata seu quadro de deficiência mental ao olhar seu rosto e após os apelos lúgubres de seu mentor, Master.

Vencendo com dificuldade, Max recusa-se a matar o adversário, após este perder seu elmo e revelar a face de um inocente deficiente mental. Assim, ele quebra a regra local, é julgado e sua pena é vagar pelo deserto. A sentença se dá na forma de um ritual, onde o réu, com as mãos atadas, é montado de costas num cavalo e com uma enorme máscara que nubla sua visão. A ritualística do movimento foi inspirada no Heyoka, um palhaço sagrado da tribo Lakota, que remete às origens  do arquétipo de Master-Blaster e do qual foi inspirado o conceito estético dos três últimos filmes da franquia. Falaremos dele mais tarde.


TV: Luna & Amok- Lunataks (Thundercats- 1987)

Dois anos após o lançamento do terceiro filme da franquia Mad Max, foi a vez da animação Thundercats lançar uma nova gama de vilões conhecidos como Lunataks. O nome do grupo composto por seis integrantes deriva de sua plêiade de origem: as famigeradas luas de Plun-Darr, planeta natal dos Mutantes, estes sim, inimigos ferrenhos que azucrinam os protagonistas desde o primeiro episódio da série.


Dentre os seis integrates do grupo, dois merecem nossa atenção: Luna e Amok, que em muito lembram a dupla do exemplo anterior. Luna é uma feiticeira anã que, devido a sua pouca mobilidade, utiliza como montaria seu fiel servo Amok, que literalmente a carrega nas costas – a menos que aviste algum doce, o que atrai toda a sua atenção e constitui a melhor maneira de tirá-lo de combate.


Seu nome deriva do termo malaio amok, que significa algo como berserker (os nórdicos que entravam em frenesi na hora do combate). Designava o guerreiro que se atirava à batalha de forma suicida para proteger seu líder, o que derivou, no século XVII, para o português "amouco", que significa subserviente, bajulador, ou mesmo "condenado".

HQ: Nevermind (O Incrível Hulk- 1987)

O conceito também apareceu logo na entrada do roteirista Peter David da HQ mensal do Hulk, fase marcada pela exploração de várias facetas psicológicas do personagem, além de contar com Todd McFarlane nos desenhos.

Quando Bruce Banner estava às voltas com a nova versão de seu alter ego (agora cinza, inteligente e mau), seu grande amigo Rick Jones havia se tornado um hulk nos moldes do "Hulk esmaga!" das antigas e seu sogro, que o odeia, encarnava agora uma entidade de eletricidade pura conhecida como Zzzax. Banner não imaginava que iria passar por mais essa dor de cabeça. 

Pensando em tirar proveito do vigoroso corpo do gigante e sem saber que o verdão descerebrado não era mais o cientista, Eric Reardon, uma aberração conhecida pelo sugestivo nome de Nevermind, viaja para o Novo México a fim de apossar-se do Hulk. É que seu corpo se limita a uma cabeça com pseudópodos e pode saltar para o encéfalo alheio para possuir o indivíduo que o abrigará como hospedeiro, utilizando seu corpo como veículo e assimilando seus pensamentos.


O problema é que, além de perder o controle sobre si mesmo, o indivíduo-hospedeiro definha até morrer e aí está o interesse de Nevermind sobre o Hulk, já que imagina que o gigante o abrigará para sempre... ou ao menos por mais tempo. 

No decorrer dessa odisseia cabeça, Nevermind salta de personagem em personagem, passando por Leonard Samson, o psicanalista gamalterado, Bruce Banner (cujo próprio Hulk se encontra agora encruado) e o General Ross, sem no entanto conseguir possuir o gigante esmeralda, seu tão almejado, Blaster. Acabou sendo morto por Ross, que, num ato suicida, eletrocutou a criatura com o poder que herdara da entidade elétrica.

O personagem aqui citado incorre no caso de Parasitismo, não de Protocooperação, já que Nevermind suga o ATP (Trifosfato de Adenosina) das vítimas/hospedeiros até que morram. 

Game: Imp e Gargantuar (Plants vs Zombies- 2009)


Desde que George Romero resolveu filmar seus vizinhos rotamente maquiados para lançar o seu Night of the Living Dead, em 1968, não imaginava que estava lançando uma tendência imortal.

Lançado em 2009, inicialmente para PC e Mac, o game Plants vs Zombies deu o que falar, viciou muita gente e apresentou, dentre sua galeria de zumbis, uma dupla que faz jus ao conceito Master-Blaster. Trata-se de Imp e Gargantuar

Gargantuar é um zumbi enorme que esmaga suas plantas antes que possam oferecer alguma resistência ao seu avanço implacável. Talvez por se tratar de um descerebrado (embora essa alcunha não se justifique muito para um zumbi), Gargantuar não perde a cabeça como outros zumbis do game, mas, ao receber um dano crítico ou perder metade de sua energia – e antes de ultrapassar meio caminho em direção ao objetivo, que é matar você – arremessa seu Master, Imp, no melhor estilo "faça valer a pena".

Seu nome deriva do gigante Gargantua, pai de Pantagruel, ambos personagens da comédia de humor negro A Vida de Gargantua e Pantagruel, escrita em cinco volumes por François Rabelais, no século XVI. Segundo a novela, o gigante Gargantua nasce pós-maturo de uma gestação de onze meses. Sua mãe tenta castrar seu pai durante o duro trabalho de parto e acaba morrendo para dar à luz um bebê fanfarrão que já nasce com ereção e pedindo cerveja. Seria Gargantua o protótipo de Lobo (ver O Vilão Heroico, também neste blogue) e Macunaíma?

Imp dispensa maiores apresentações até mesmo por seu tamanho diminuto. Ao ser arremessado por seu Master, Gargantuar, o mini zumbi cai em um ponto crítico do "tabuleiro" e ainda tem a manha de esquivar-se de armadilhas, embora sua resistência não seja das melhores. Seu nome deriva do latim impiu, que em inglês significa criança traquinas, diabrete; e, em português, derivou para duas palavras: ímpio; herege, e impio; impiedoso, cruel.

GAME: Nunu e Willump (League of Legends- 2009)

Em 2009, o jogo League of Legends viciou mais gente ainda e criou uma legião de fãs-seguidores-jogadores que chegam a ganhar dinheiro em campeonatos disputadíssimos. Trata-se de um jogo de batalha online no estilo multiplayer onde cada jogador tem acesso a uma gama de personagens e vai adquirindo outros de sua preferência através de Riot Points ou Influence Points. De tempos em tempos, o site disponibiliza novos personagens que são criados para aumentar as opções. Todos eles são baseados em diversos personagens, mitos e arquétipos e o Master-Blaster não podia ficar de fora. 


Nunu é um órfão esquimó da tribo Praeglacius (Frostguard, no original), exímios domadores de feras que, entre seu bestiário, são peritos em domar yetis, os lendários Abomináveis Homens das Neves. Seu mestre domador lhe dizia incessantemente que se lhes fosse dado carne para comer, os yetis desenvolveriam agressividade e se tornariam bestas incontroláveis.

Percebendo que Willump crescia fraco e desnutrido, Nunu começou a alimentá-lo com carne sem que ninguém percebesse. Um dia, ao chegar a sua jaula, percebeu que estava destruída e que Willump não se encontrava lá. Saíra desesperado à sua procura e o encontrou acuado, cercado por aldeões prestes a linchá-lo. Atirou-se entre Willump e seus perseguidores que não se intimidaram, provocando a reação inesperada do yeti, que trucidou o grupo. Juntos, os dois formam mais um modelo do arquétipo em questão.
Protocooperação- um não está acoplado ao outro
Na Protocooperação ambos os seres podem viver separadamente e sua união resulta num benefício mútuo.
TV: Gaata Gyodai (Dengeki Sentai Changeman- 1985)
Em 1985, aterrissa no Brasil Changeman, seriado japonês categorizado como Super Sentai, termo que pode parecer estranho para alguns, mas trata-se daquele estilo conhecido dos Power Rangers.
Gaata
Entre a galeria de vilões estão Gaata e Gyodai. O primeiro entrou para o esquadrão de invasores do planeta Terra para que sua esposa e filhos não padecessem ante a ira do senhor Bazoo, vilão máximo da série. Além de fornecer o alívio cômico para a série, atua como uma ama seca do bizarro Gyodai. Este último, irracional, não passava de um mascote da trupe, mas tinha um interessante poder em seu arsenal: disparar um raio por seu único olho situado dentro de sua bocarra, que ressuscitava os monstros exterminados pela Power Bazooka e tornava-os gigantes.
Gyodai

Gyodai é, a meu ver, a melhor representação de um alienígena já feita nas telas, já que não mimetiza nenhuma forma de vida proveniente da Terra, seja molusco, artrópode, réptil ou afins.
HQ: Ajax e Atalanta (O Incrível Hulk- 1991)
Mais uma vez, temos o Incrível Hulk como anfitrião do arquétipo. Ainda com Peter David nos roteiros, acompanhado pelos artistas Dale Keown e Gary Frank, o protagonista se encontrava em uma forma que unia as melhores características de Banner e seus dois alter egos até então: Os Hulks verde e cinza. É neste contexto que surge o Panteão, que tinha entre seus membros Ájax e Atalanta.
Atalanta e Ájax

Sendo um dos filhos de Agamenon, Ájax possui super força, como era de se esperar, mas apenas em seus braços, já que suas pernas quebrariam com seu peso se não utilizasse sua roupa de titânio. Além disso, balbucia as palavras, lembrando ligeiramente o Blaster de Mad Max. Tem uma paixão recolhida por Atalanta, o que gera a dependência emocional de sua Master honorária.
Mangá/Anime: Edward e Alphonse Elric e Lust & Gluttony                                                   (Fullmetal Alchemist- 2009)
Os irmãos Edward e Alphonse eram dois promissores estudantes de Alquimia, uma arte conhecida e legalizada no Japão hipotético ambientado na obra. Ao perderem sua mãe precocemente devido à uma doença desconhecida, ambos enveredam por um obscuro ritual na tentativa de trazê-la de volta à vida. O fracasso é evidente.
Alphonse e Edward

Edward perde seu braço direito e perna esquerda e seu irmão mais novo tem de abdicar de seu corpo físico, já que este fora totalmente destruído. Alphonse só não morreu porque seu espírito e personalidade foram transferido para uma armadura, seu novo e robusto corpo, para desespero de seu exímio irmão mais velho, frequentemente chamado de "baixinho", o que o tira do sério. 

Lust

Sendo o mais velho da dupla e responsável pela condição de ambos, Edward é o Master , enquanto seu irmão, agora superforte, ocupa a função Blaster. Mas não apenas os heróis, mas uma dupla de sorrateiros vilões que aparecem desde o início da série exercem o papel de Master-Blaster: trata-se de Lust e Gluttony, dois dos oito Homúnculos da série. Não por acaso, seus nomes e funções ilustram os Sete Pecados Capitais, sendo Lust, a Luxúria e Gluttony, a Gula, claro.

Gluttony

Além de sedutora, Lust é maquiavélica e manipula sem dificuldade o esfomeado Gluttony, que – no mangá – possui um olho situado no centro de sua enorme boca, que se abre no peito. Órfão e com idade mental atrasada, necessita de Lust como mentora, o que configura a dupla no modelo exposto desde o início do artigo.

Cinema: Número 1 e Número 8 (9 - A Salvação- 2009)

Em um mundo pós-apocalíptico, nove autômatos carregam consigo pedaços da alma de seu criador. Não possuem nomes, mas números que, além de suas formas, definem suas funções quase de forma hierárquica. O líder, uma espécie de papa, possui o número 1 como alcunha, sendo seu guarda-costas um grandalhão que atende por 8.



Despótico e irredutível, como o próprio “nome” sugere, 1 recusa-se a enxergar o verdadeiro mal, impedindo que os outros autômatos saiam da zona de conforto onde todos se encontram, numa interessante alusão ao Mito da Caverna de Platão. Para assegurar sua autoridade, se vale de 8 para por ordem na casa, admoestando os demais quando necessário.
HQ: Damian Wayne e O Herege (Corporação Batman- 2010)
Damian é filho de Batman e Talia al Ghul, filha de Ra's al Ghul, inimigo clássico do herói, surgido durante a célebre passagem de Dennis O’Neil e Neal Adams pelo título do morcego e representado no filme Batman Begins. A filha aparece no último filme da trilogia, ocupando por vezes o lugar do personagem Bane em sua versão nos quadrinhos.


O garoto nasceu na série Son of the Demon. Nada mais oportuno, já que o sobrenome de sua mãe e avô, Ghul, remete ao tradicional demônio árabe, cujo nome provavelmente deu origem aos termos Ghoul e Golem.

Damian Wayne

Como decidiu seguir ao pai e não à mãe, esta decidiu se utilizar de engenharia genética para criar um clone que seria gerado no ventre de uma baleia, lembrando em muitoa estória de Jonas, que fora engolido por um cetáceo e de Macunaíma, já que o moleque já nasceu grande.


Além dos mitos supracitados, os dois irmãos são como Caim e Abel e Esaú e Jacó, já que o Herege acaba matando Damian, cujo nome nos faz pensar que a dupla também mimetiza Cosme e Damião

O mais terrível além dos spoilers que vou entregar é que Batman, ao encontrar o filho morto, espanca Herege até a exaustão do mesmo, arrancando seu elmo e expondo sua face para o horror do personagem e do leitor: o Herege é gêmeo de Damian e, embora possua o corpo de um homem forte, seu rosto e mente são de um menino, numa cena que parece chupada de Beyond the Thunderdome, embora numa visão muito mais dantesca e impactante.


Aqui, a relação interespecífica não é a de Protocooperação, mas de Competição, já que ambos disputam entre si.

Mutualismo- um não vive sem o outro… literalmente

No Mutualismo, ambas as partes envolvidas dependem biologicamente uma da outra para sobreviver, não podendo jamais ser separadas. De tão integrados, chegam a ser considerados um novo ser.
Literatura: Dr. Jekyll e Mr. Hyde (1886)
Lançado no ano de 1886, pelo escritor escocês Robert Louis StevensonO Estranho Caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde conta a história dos dois protagonistas homônimos, sendo que o segundo é o alter ego do primeiro.
Dr. Jekyll, um cientista tímido e recatado, cria uma fórmula que, ao ser ingerida, libera seus desejos e traumas mais profundos, fazendo até com que o personagem altere sua estatura, voz e forma física, tornando-o irreconhecível até para os mais íntimos, o que nos lembra de dois conhecidos personagens dos quadrinhos.
Curiosamente, o cartaz da versão cinematográfica, de 1931, usa a cor verde no alter ego…
Os nomes sugestivamente suscitam os termos “matar” (kill) e “esconder” (hide), já que o segundo personagem se esconde no inconsciente do primeiro, que por sua vez esconde impulsos homicidas. O vocalista inglês Ozzy Osbourne, em sua carreira solo, chegou a destinar uma música ao personagem duplo, intitulada My Jekyll Doesn´t Hide.
HQ: Bruce Banner e O Incrível Hulk (1962)
Os anos se passaram, o avanço científico se deu de forma mais repentina e beligerante do que a humanidade poderia imaginar e o mito de Jekyll e Hyde era tão maneiro que precisava de uma versão mais pop.

Em maio de 1962, Stan Lee e Jack Kirby lançavam o seu Incrível Hulk. Isso não é novidade para ninguém, mas com o passar dos anos as histórias dos personagens foram se aprofundando a ponto de mostrar o inconsciente do atormentado Banner. Bill Mantlo foi o primeiro a abordar o quadro psicológico de Banner, sendo acompanhado por Peter David nessa jornada pelo inconsciente.
HQ: Eddie Brock & o Uniforme Negro (1988)
Peter Parker sempre se deu mal, fazendo dele um herói que não carecia da principal característica que alanvacou os anti-heróis: problemas. Quando voltou das Guerras Secretas, trouxe consigo uma criatura simbionte que se fazia passar por um uniforme inteligente, capaz de responder a comandos mentais de seu dono. Na verdade, a criatura era quase um parasita neural, realizando com o hospedeiro um entrosamento tão íntimo que ambos se tornariam uma terceira entidade.   

Ao ser rejeitado por Parker, o ser alienígena acabou por unir-se a Eddie Brock, jornalista que inveja Peter e se dá de bom grado ao simbionte, criando o vilão Venom. Sua individualidade é tão devastada que, ao referir-se a si próprio quando transformado, Brock menciona “nós”.

A relação interespecífica apresentada aqui não é a de Mutualismo, mas de Simbiose, pois o organismo alienígena depende de um hospedeiro, não para sobreviver, mas para atuar no meio ambiente.
As Origens do Mito
Todos esses modelos arquetípicos já passaram por outras culturas. Uma das mais próximas é o ritual do Heyoka, o clown da tribo Lakota. Assim como na Folia de Reis, o palhaço cumpre a função do Bufão, do Arlequim, do Pantagruel e, na dramatização máxima da inversão de valores na cultura indígena, montava de costas.

Esse arquétipo foi representado pelo pintor surrealista Peter Birkhäuser. Frequentando, junto com sua esposa, sessões de análise Junguiana, dedicou trinta e cinco anos a pintar seus sonhos e analisá-los nas sessões. Dessas análises oníricas, surgiu o Puer Ӕternus, um garoto que doma uma besta, montando suas costas.


A ideia da razão (ainda que louca) contendo o instinto, mas ao mesmo tempo mesclando-se a ele. Esse arquétipo foi representado em perfeita amálgama na figura do Centauro, em conflito na figura de São Jorge e em desalinho na figura do Heyoka.

Publicado originalmente no portal Formiga Elétrica.

Agora já faz praticamente dois anos desde que eu terminei meu último namoro de verdade. O último com direito a status no Facebook, aliança de prata no dedo, declarações de amor públicas e transando com uma só mulher. Só de pensar em tudo isso de novo me sobe um arrepio pela minha espinha.




Ao todo esse meu último namoro durou um ano e meio. E, mesmo sabendo que era a coisa certa a fazer, foi estranho terminar. Era estranho não ter mais que dar satisfação. Ou jogar diversos planos feitos ao longo daquele espaço de tempo no lixo. Então eu tive que passar por uma espécie de “terapia”.

A minha terapia, no caso, era me reunir com dois amigos aos domingos, tomar cerveja e ver um reality show da MTV chamado “Are You The One”.

O “Are You The One” é um reality show onde dez homens e dez mulheres são isolados em uma casa e têm dez semanas para acharem quem são seus “pares ideias”. Caso todos achem, eles ganham um milhão de dólares dividido entre todos os participantes. Caso o contrário, ninguém leva nada.


Para acharem seus “pares ideais” os participantes contam com provas onde os vencedores ganham como prêmio um encontro. O casal do encontro pode ser indicado para uma coisa chamada de “Cabine da Verdade”, que diz se o par formado está correto ou não. Toda semana os participantes têm direito a uma cabine da verdade. E depois, juntos, eles formam os dez casais que acham corretos em uma cerimônia que diz quantos “pares ideais” foram formados sem dizer quais pares estão certos ou errados.

Parece simples e fácil, não? Mas pense melhor. Em um ambiente controlado e feito para que os participantes se apaixonem, é um tanto quanto fácil se apaixonar pela pessoa errada... E com dinheiro envolvido no meio da história erros não são levados com leviandade. É por isso que o reality fica interessante. Casais são formados e separados, manipulações e intrigas entram no meio da disputa e sempre tem algum motivo para aquela treta que o público tanto gosta. É estupidamente genial. Ou genialmente estúpido.


Ao assistir “Are You The One” eu me sentia bem. Afinal, não importasse o quão baixo eu tivesse descido na minha vida amorosa, eu nunca chegaria tão baixo quanto alguns dos participantes. Mas não só por isso. Eu também comecei a ter uma reflexão de que tipo de personagem eu seria dentro da casa. Seria o cafajeste? O emotivo? O cara legal? Acho que eu só saberia se participasse. E se eu participasse, quem sabe que lição sobre mim mesmo eu não poderia aprender?

Pensando em uma premissa aristotélica de storytelling, os personagens da história criada em "Are You the One" devem evoluir e aprender uma lição sobre o que buscar em um relacionamento amoroso para serem dignos de seus finais felizes. Isso ligado aos cinco elementos narrativos bem delineados fazem do reality um exemplo de reality show com storytelling.

Os cinco elementos narrativos de "Are You The One" são:



- Personagens – vinte participantes solteiros + um mestre de cerimônias/mediador;

- Tempo/Local – uma casa em um lugar paradisíaco durante dez semanas nos dias de hoje;

- Estilo – edição com depoimentos do ponto de vista dos participantes e filmagem cronológica dos acontecimentos;

- Tema – “a busca do par ideal”;

- Plot/Enredo – semana após semana são descobertos casais corretos e casais errados, dando ação à história e movendo os personagens.

Se você ficou curioso e se interessou pelo programa, basta ligar na MTV às 19h30 de domingo. A segunda temporada brasileira começou na semana passada e, ao que parece, promete ser muito boa.  

Quanto a mim, eu superei meu término de namoro há muito tempo atrás. Mesmo assim, continuo assistindo ao programa aos domingos com meus amigos e uma cerveja na mão. Agora já é tradição. E quem sabe eu não participo de alguma edição futura? Pelos meus textos nesse blog já dá para imaginar que daria um bom caldo para a MTV.

uma história sobre contar histórias


– Olha a lâmpada mágica! Lâmpada mágica a preço bom e com garantia – gritava um vendedor.

– Sabres de luz! Espadas de fogo! Lâminas encantadas! – gritava outro. – Na minha mão é mais barato!

– Ovos de dragão! Ovos de dragão! – gritava um terceiro. – Tem verde, vermelho e até azulão!

Eu olhava para tudo fascinado. Não sabia em que loja entrar primeiro.

– Acho que vou querer uma daquelas – disse para meu guia.

O guia olhou para a direção onde eu olhava e indagou:

– Uma nuvem voadora?! Deixa isso para lá. É besteira. Coisa de turista. Têm coisas muito mais importantes para vermos aqui.

Pensei por um momento. Abri a boca para debater, mas a fechei logo em seguida, concordando em silêncio. Era a primeira vez que eu ia ao Mercado de Histórias. Fascinado com tudo o que via, o melhor que eu poderia fazer era escutar ao meu guia.

Fizemos algumas viradas e caminhamos rapidamente por alguns minutos. Eu continuava maravilhado com tudo o que via pelo caminho.

– Chegamos – disse meu guia esbaforido, parando em um grande espaço redondo com uma fonte no centro. – Este é o centro do Mercado de Histórias – ele continuou. Ainda bem que estávamos juntos, caso contrário eu jamais saberia encontrar aquele local sozinho. – Essa é a Fonte da Inspiração. É daqui que saem os corredores principais do mercado.


Ele fez uma pausa para recuperar o fôlego e eu aproveitei para olhar ao redor. Pude ver cinco corredores grandes e largos por entre as colunas de pedra que rodeavam o espaço da fonte.

– Escute – o guia chamou minha atenção novamente –, temos muito a ver. Por isso, espere até eu te mostrar tudo para você fazer suas aquisições. Combinado?

– Combinado – eu concordei.

– Então, vamos – ele retomou o passo, me fazendo um sinal para que eu o seguisse.

Nós caminhamos um pouco por um corredor repleto de gente. Não importava o quanto eu forçasse minha vista, me sentia incapaz de ver um final para o caminho a minha frente. Talvez por isso mesmo tenha mudado meu foco e comecei a olhar para os lados.

As lojas daquele corredor eram estranhas. Todas estavam cheias de gente. Mas nenhuma tinha algum produto exposto. Quero dizer, vi alguns robôs em uma, zumbis em outra, e até mesmo dinossauros em uma terceira. Mas será que todas aquelas coisas bizarras estavam a venda? Afinal, do que aquele corredor se tratava?!

– Esse é o Corredor dos Personagens – me disse o guia, parecendo ler a confusão dos meus pensamentos. – É aqui que você vai encontrar os personagens para sua história, um dos elementos mais importantes para a ficção. Sua audiência vai se ligar diretamente com seus personagens em uma conexão emocional que deverá manter o interesse na história.

– O que é aquela loja ali – eu perguntei, apontando um estabelecimento cheio de pessoas presas em jaulas ou acorrentadas. Aquele lugar me dava arrepios.
– É uma loja de vilões. Muito boa por sinal – ele olhou a loja comigo por um tempo. Juntos pudemos ver um palhaço de cabelos verdes em uma cela ao lado de um pirata cadavérico com as mãos e os pés presos por grilhões de ferro ligados à parede. Próximo aos dois estava um alienígena avermelhado e musculoso em uma jaula que dividia parede com a de uma bela mulher de cabelos negros, corpo perfeito e olhos esverdeados. – Cuidado com vilões – continuou o guia, saindo de seu transe. – Eles podem roubar sua história.

– Roubar minha história?! – eu ri. – Como assim?

– Isso não tem graça nenhuma. É sério! Um vilão fraco demais faz seu público perder o interesse. Mas um vilão forte pode fazer sua audiência mudar de lado e começar a torcer para ele, ao invés de para o seu herói. Você deverá saber como conduzir seu vilão para ele não roubar a história... Mas podemos conversar melhor sobre isso em outro corredor.

Andamos mais um pouco. Pude ver uma loja que parecia uma academia de boxe, com ringue de luta e uma disputa acontecendo. Vi outra que me lembrou de uma escola, cheia de garotos arrumadinhos escrevendo e estudando. Mas a que me fez parar mais uma vez foi uma loja inteira rosa e perfumada.

– Espera – pedi ao meu guia, que caminhava apressado. – Quero entrar nessa loja.

– Está bem – ele concordou. – Mas essa é a última parada antes do próximo corredor, ok?

Eu assenti com a cabeça e em seguida entramos na loja.

Eu estava maravilhado. Haviam mulheres lindas e charmosas para onde quer que eu olhasse. O lugar lembrava um pouco um palácio. Ou um harém repleto de cortesãs.

– O que essa loja vende? – perguntei.

– Essa é uma loja que está se modificando. Antigamente ela vendia somente mocinhas frágeis que precisavam ser resgatadas. Mas a demanda dos consumidores mudou. Então o dono da loja, que não é bobo, começou a importar mercadorias diferentes. Agora ele vende todo o tipo de personagens femininos: heroínas, personagens cômicos, vilãs e outros artigos. Continua vendendo mocinhas também, mas em menor escala.

Da entrada da loja pude ver uma sereia se banhando em uma piscina rústica de pedras cinzentas, próxima a uma guerreira que afiava sua espada. Mais ao longe pude ver uma garota jovem com flores no cabelo tocando violão, acompanhada de uma gueixa que preparava chá e uma mulher vestida com uma burca negra dos pés à cabeça.


– Você pode voltar depois para comprar qualquer uma delas. Só lembre-se de uma coisa: você não é o único que precisa se apaixonar pelas suas personagens...

Eu balancei minha cabeça.

– Vamos embora daqui antes que eu comece a falar com alguma delas – disse isso, dei meia volta e saí andando.

Pela primeira vez meu guia riu. Não sei se pela minha idiotice ou se por já ter presenciado aquilo antes. Pelo menos ele não tardou em me ultrapassar e voltar a liderar o caminho enquanto eu fugia desesperadamente daquela loja.

Fizemos uma virada em um pequeno corredor que vendia tesouros, roupas, pássaros e alguns tipos de armas. Eu estava tão desconcertado com a última loja que tinha entrado que não prestei muita atenção em nada até chegar a outro grande corredor.

As lojas desse novo corredor eram mais simples. Na verdade, pelas vitrines, pude apenas olhar homens e mulheres trabalhando atrás de mesas e atendendo alguns clientes. Em uma ou outra loja pude ver pequenas construções em miniaturas ou mapas na parede, mas nada que realmente chamasse à atenção como no corredor anterior.

– Onde estamos? – perguntei.

– Esse é o Corredor Tempo/Local – me respondeu o guia. – Bem simples não?

Eu olhei ao redor e concordei.

– Muitos consideram esse o elemento menos relevante da ficção – o guia continuou. – Mas existem casos que o tempo e o local ganham tanta ênfase na história que também estabelecem uma ligação emocional com a audiência. O exemplo que mais gosto de usar é de uma escola de magia e bruxaria que você, como o resto do mundo, deve conhecer muito bem.

– Sim, conheço – concordei olhando ao redor impaciente. – Mas será que podemos ir a outro corredor. Esse está meio... chato.

– Tudo bem. Mas primeiro vamos a uma loja.

Passamos por duas lojas e entramos na terceira. Um lugar sem graça com luzes brancas que ofuscavam minha visão. Eu realmente queria ir embora dali.

– Boa tarde – saudou um homem de camisa e gravata, vindo em nossa direção. – Posso ajudá-los?

– Sim, - disse meu guia -, quero ver as opções de cenários épicos que vocês têm.

– Vamos à minha mesa, será um prazer atende-los. Meu nome é Roberto e hoje eu serei seu corretor Tempo/Local.

Caminhamos até a mesa e nos sentamos em duas cadeiras vermelhas de frente para Roberto que estava se sentando do outro lado, de frente a um computador. Ele digitou alguma coisa e virou a tela para nós.

– Essas são algumas das opções que tenho para vocês hoje – ele movia a página para baixo lentamente. – Como vocês podem ver, temos bastante coisa.

Enquanto a página descia pude ver diferentes anúncios: “Mundo mágico 20000000m², repleto de florestas, mares e montanhas”; “Cidade Submarina com anfiteatro, palácio e espaço para 20000 pessoas”; “Fortaleza Ninja no Japão Medieval, com armas e armadilhas inclusas”; “Templo Sagrado na Grécia Antiga”...

– Espera – pedi. – Deixa eu ver esse “Templo Sagrado na Grécia Antiga”, por favor.

De canto de olho pude ver um sorriso brotar nos lábios do meu guia. Ele ficou satisfeito pela minha demonstração de interesse.

– Essa é uma ótima escolha! – disse Roberto, clicando com a seta do mouse no anúncio.

Roberto era realmente um bom corretor. Me mostrou todos os aspectos do templo, me deu sugestões de combinação com personagens e falou um pouco sobre temas e enredos possíveis.

– Meu amigo aqui não sabe nada sobre temas e enredos – interrompeu meu guia. – Então é melhor não tocar nesses assuntos com ele.

Roberto se desculpou, concordou e prosseguiu seu discurso abordando outros aspectos da venda. 

Meu guia conduziu as negociações dali por diante. Pediu para vermos outras ofertas. Perguntou pontos chaves. E, quando chegou a hora, agradeceu e disse que voltaríamos depois.

– Tempo/Local realmente é uma parte chata e complicada na criação de qualquer história, eu sei – ele me disse assim que saímos da loja e entramos em um corredor lateral. – Mesmo assim, é um aspecto que requer muita atenção. Lembre-se disso.

Logo chegamos a outro corredor. Um corredor estreito, com lojas que nada mais eram que balcões em frente a prateleiras vendendo...

– Chaves? – perguntei.

– Temas – respondeu o guia. - Esse é o Corredor dos Temas. Aqui você poderá encontrar a mensagem que quer passar, o que o público vai lembrar quando pensar na sua história.

Olhei pelo corredor. Apesar de estreito, era extremamente longo.

– Esse corredor parece não ter fim – disse. – Existem tantos temas assim para que ele seja tão comprido?

– Tantos quanto sua imaginação puder criar – ouvindo as palavras do guia eu comecei a observar melhor as chaves a venda pelas prateleiras atrás dos balcões. – Existem temas batidos como amor incondicional – pude ver uma chave de ouro, com um rubi em formato de coração –, a luta do bem contra o mal – vi uma chave com serra dupla, de um lado preta do outro prateada –, e sobre conquistas – vi uma chave de madeira que parecia terminar uma bandeira tremulante. – Mas existem outros temas, como peixes zumbis do espaço – eu ri ao escutar isso, pois na mesma hora pude ver uma chave futurística em formato de peixe. – É uma dessas chaves que vai abrir um espaço na cabeça do seu público. Por isso, escolha bem.

Diferentemente dos outros dois corredores, meu guia não se demorou muito no Corredor dos Temas. Logo após seu breve discurso, virou de costas e fez um sinal para que eu o seguisse, indo para outro corredor intermediário, que eu já esperava que ligasse a outro corredor principal. E eu estava certo.

– Vamos passar rápido por esse corredor também – ele me disse logo de cara. – Não que não seja importante, mas é que tanto esse corredor quanto o Corredor dos Temas são melhores de serem explorados sozinhos. Eu só queria te dar uma introdução a eles.

– Por quê?

– Porque são corredores muito pessoais. Quero dizer, no Mercado de Histórias tudo acaba sendo meio pessoal. Mas nesses casos não adianta muito eu te mostrar lojas e negócios, porque tudo depende do que você estiver buscando, entende? No Corredor dos Personagens você até pode fazer uma compra por impulso. E no do Local/Tempo você até pode pensar em algo diferente do que estava imaginando. Mas tanto nesse corredor quanto no dos Temas é uma escolha um tanto quanto íntima e única.

– Mas, afinal, que corredor é esse? – perguntei enfim.

– Esse é o Corredor dos Estilos.

– Corredor dos Estilos? – era estranho ele dizer isso. Eu só conseguia ver lojas de tapetes ali.

– Sim – meu guia me respondeu. – Talvez seja melhor eu demorar um pouco mais de tempo nesse corredor do que o planejado. Vai te ajudar a entender melhor. Vamos entrar naquela loja.

Ele apontou para uma loja grande onde em frente um vendedor fumava narguilé sentado em um banquinho. Meu guia cumprimentou o vendedor e entrou na loja. Eu o imitei e o acompanhei, curioso para entender o que ele iria me mostrar ali.

– Magnífico – ele disse examinando um tapete. – Você consegue ver?

Eu via, mas não entendia. Via as cores vermelha, marrom e azul. Via padrões geométricos. Via a costura. Mas não entendia o que nenhum daqueles aspectos do tapete tinham a ver com uma história.

– É realmente bonito, mas e daí?

Meu guia pareceu insultado por um momento.

– Mas e daí? – ele indagou irritado. – É isso mesmo o que você me perguntou? – eu abri a boca para responder, mas ele não deixou espaço e continuou sua fala logo em seguida. – O Estilo é um dos elementos principais ao se construir uma ficção. São as escolhas que você fará sobre o modo de contar a história. O ponto de vista, o tom, o ritmo, a linguagem, a estrutura e muito mais – ele pegou o tapete e me fez observá-lo novamente. – Veja. Você consegue ver os traços? Os padrões perfeitamente lineares costurados em meio a um caos colorido? Isso é uma obra de arte.

Eu estava surpreso.

– Agora entendi.

– Que bom – meu guia disse satisfeito. – O estilo que você escolher será único para contar toda sua história. É ele que vai levar os seus leitores pela sua ficção.

Em um gesto súbito, meu guia estendeu o tapete no ar e o jogou. E foi aí que minha surpresa ficou completa. O tapete não caiu. Simplesmente ficou flutuando no ar.

– Vamos, suba – ele disse. – Vou falar com o dono da loja para fazermos um test drive. Ele me conhece, acho que vai deixar.

Eu subi no tapete que aguentou meu peso e continuou flutuando enquanto observava meu guia conversando com o dono da loja. Aparentemente estava tudo certo para o nosso test drive.

– Me dê espaço – ele pediu quando se aproximou e começou a subir no tapete. – E se segure.

Com um gesto simples, meu guia fez o tapete voar para fora da loja e por cima do Corredor dos Estilos. Eu tive que me segurar para não cair quando ele fez uma curva abrupta e diminuiu a velocidade para pousar.

– Já? – perguntei quando chegamos ao que parecia ser o último dos cinco corredores principais do mercado.

– Sim – meu guia respondeu, saindo de cima do tapete. – Um pouco mais rápido do que eu pensava, devo confessar.

Eu coloquei meus pés no chão, um pouco tonto pelo passeio com o tapete voador. Estava de olhos fechados, tentando evitar a visão navegante de tudo girando a minha frente. Escutava muitos barulhos, porém o sentido que mais aguçou minha curiosidade e me fez querer abrir os olhos foi meu olfato.

– Esse é o último corredor – me disse o guia –, o Corredor dos Enredos.

As lojas ali vendiam temperos, nozes, frutos, sementes e doces. Dessa vez eu nem iria tentar formar alguma das dúvidas que tinha na minha mente. Era melhor ficar quieto, já que meu guia iria me tirar da minha confusão em algum momento.


- O enredo – continuou ele, enrolando o tapete voador e o jogando por cima do ombro – é o que incita a curiosidade do seu público. É como as coisas acontecem. É o que faz um leitor querer virar a página perguntando “O que acontecerá agora?”.

Meu guia se aproximou de uma loja e pegou uma espécie de doce gelatinoso que estava exposto e cortado para degustação.

– Vamos – ele disse –, experimente!

Ele colocou um pedaço de doce na boca e eu fiz o mesmo.

– Você consegue sentir? – ele falou de boca cheia, mastigando. – O começo é um pouco azedo e depois vai se modificando. Quando você pensa que vai perder totalmente o gosto, ele fica muito doce. Quase enjoativo. E então vem esse amargor final e está na hora de engolir.

– Parece uma história de amor não muito feliz – eu disse, fazendo careta para o gosto ruim que tinha ficado na minha boca.

Meu guia caminhou até outra loja, pegou uma colher de plástico descartável e a colocou em um punhado de pó vermelho. Em seguida colocou a colher na minha boca tão rapidamente que eu nem pude contestá-lo.

– Aqui está um sabor um pouco mais feliz para tirar esse amargor da sua boca então.

Era salgado. E doce ao mesmo tempo. Um sabor confuso que devo admitir que me agradou.

– O que é aquilo ali? – perguntei aprontando para uma bandeja de prata com frutos avermelhados em frente a uma árvore.

– Quer provar? Estão expostos para degustação.

Eu caminhei até a bandeja e peguei um dos frutos, colocando-o na minha boca. Um sabor exótico, doce no começo, depois salgado e depois... depois... depois incendiário! Minha boca estava em chamas.

– Venha – disse meu guia gargalhando e me pegando pela mão –, tome um pouco disso – ele pegou um copinho plástico com um líquido branco e me deu – Vai apagar o fogo na sua boca.

Eu tomei o líquido instantaneamente. Não tinha gosto de nada. Mas fez as labaredas que incendiavam minha língua se apagarem.
– Que diabos era aquilo? – eu perguntei, com lágrimas escorrendo dos meus olhos.

Meu guia também tinha lágrimas escorrendo dos olhos, mas eram de rir e não de agonia.

– Um toque de pimenta. Tem gente que gosta! Mas para outras pessoas é realmente muito forte. Entretanto, é sempre bom colocar um pouco de pimenta na sua história. Nada exagerado para não ofuscar outros sabores, mas, na medida certa, uma apimentada no seu enredo faz seu público pedir por mais e mais da sua história.

Depois daquilo, eu teria mais cuidado com o que experimentaria. Na verdade, sempre faria meu guia experimentar tudo junto comigo.

Juntos experimentamos nozes de sabores amenos e sabores salgados. Doces divertidos e enjoativos. Temperos salgados, amargos, azedos, adocicados e até mesmo apimentados (mas em menor escala). Aquele corredor era fascinante.

– Você vai escolher a combinação que quiser para formar o enredo da sua história. Porém tente fazê-la de forma harmoniosa ou até mesmo contrastante. Nunca de forma enjoativa, sem graça ou exagerada. Esse é o conselho que te dou. Agora vamos, você deve estar com sede depois de experimentar tanta coisa.

Ele estava certo. Eu estava sedento.

– Para aonde vamos agora? – perguntei curioso para saber aonde mataria minha sede.

O guia estendeu o tapete voador no ar que voltou a flutuar. Ele subiu e disse:

– Para o centro do Mercado de Histórias, a Fonte de Inspiração. Lá você pode beber um pouco de água e pode começar a fazer as escolhas que quiser para suas histórias. Espero que tenha gostado do passeio.

Gostado? Eu tinha adorado!

– Posso ficar com esse tapete? Vai ser muito mais fácil me locomover por aqui com ele.

– Eu tenho que devolvê-lo para a loja de onde viemos no Corredor dos Estilos. Mas você pode compra-lo lá mais tarde. Seria um bom modo de começar suas escolhas por aqui, não é? Já escolhendo um bom estilo.

Eu sorri e concordei.


– Sim, mas primeiro acho que um pouquinho de água daquela fonte não me faria mal.



Há pouco mais de 40 dias atrás, tive a oportunidade de ser jurada no Cristal Festival, na França, em Courchevel. Meu papel era julgar juntamente com colegas de diferentes países, o que há de melhor em termos de comunicação na categoria Branded Content e Brand Entertainment, além do Entretenimento no setor Esportes. Ali encontrei indianos, poloneses, ingleses, chineses e obviamente franceses. Nosso grupo era composto de oito pessoas, apenas duas mulheres, eu como representante das Américas e nosso presidente da mesa, Jimmy Lam-até esse evento, Vice Chairman & Chief Creative Officer, DDB China Group para Shanghai, Beijing & Guangzhou. Em nosso último dia de júri ele informou sua saída para um grande negócio de Comunicação que deve se formar em Shangai  e dessa vez como Presidente.

Foram mais de 100 trabalhos julgados, opiniões diversas, contextos diferentes e entendimento multicultural. Um aprendizado excelente com colegas e uma discussão de alto nível. Sai de lá sabendo muito mais, com ideias e visão ampliada sobre o papel do Storytelling e Branded Content e Entertainment no mundo daqui para frente. Vou falar um pouco mais sobre esse assunto no curso da ESPM que começa dia 26 de janeiro em SP e dura uma semana (para mais detalhes veja o link: http://www2.espm.br/cursos/cic/inovacao-em-storytelling-do-branded-content-transmidia-intensivo).


O que eu quero compartilhar com vocês é o poder que a China demonstrou também no setor de Comunicação. Acredito que Storytelling cada vez fica mais importante para todas empresas e marcas globalmente,mas na China tudo ganha vida e história: macarrão, objetos, roupas, prédios, vídeos, música, . E não é para menos, a China tem histórias de mais de 5 mil anos A.C.do período Neolítico.

Ao ocupar um lugar de extremo destaque na economia mundial, era previsto que aprenderiam rapidamente a inovar, produzir com qualidade, e não apenas copiar o que o Ocidente faz. No  entanto a surpresa maior foi quando vi as campanhas de comunicação inspiradoras, com planejamento impecável e um storytelling refinado. A China quase ganhou o Grand Prix, só não levou porque o grupo não teve consenso sobre isso e a opinião e expertise de cada um foi respeitada, como se espera um Festival internacional desse porte. E no final levou os dois maiores prêmios da categoria.  House of Litlle Moments é um ótimo exemplo de Storytelling , Branded Content e Entertainment integrado e de entendimento universal.

A marca Uni-Noodle da Uni-President, concorre com milhares de marcas num setor fragmentado e já desenvolvido, além disso a empresa precisava revitalizar Uni Noodle  e seu portfólio de noodles com mais de 43 anos de mercado. A ideia :usar bom conteúdo como entretenimento e não apenas a tradicional publicidade.

O target eram jovens de 20 a 30 anos, e para isso produziram micro filmes em série trazendo histórias centrais envolvendo personagens do dia-a-dia num restaurante pequeno até então fictício. As histórias além de emocionaram, representavam a experiência e sentimentos mais verdadeiros desses jovens.

Além disso, foi criado um concurso para a melhor receita feita com Uni-Noodles-lembrando que se trata de uma categoria estabelecida  e com alta penetração domiciliar sem grandes inovações além do sabor.

O sucesso foi tão grande que as pessoas queriam ir ao restaurante que ambientava os filmes. E assim a Uni President abriu uma Concept Store a pedidos da audiência. O que era ficção virou realidade. O sucesso resultou num aumento de 37% das vendas do Uni-Noodles no período,mais experimentação da marca, fidelização e muitos milhares de views criando um "big buzz".


A China surpreendeu ao mostrar que esse não era o único case, na apresentação do Jimmy Lam, pude ver campanhas de Bancos, cigarros, gomas de mascar, celulares, TV´s e outros. Uma história melhor que a outra, conteúdos planejados integrados e que falam de verdade de humana, entretendo as audiências desejadas com muito conteúdo bacana.

Os chineses tem uma palavra para storytelling: Pingshu .Para eles as histórias são formas milenares de entretenimento de massa . Essas histórias estão nas novelas chinesas, nas rádios-novelas que os taxistas escutam todos os dias e as famílias compartilham . Elas fazem parte de uma cultura rica onde podemos aprender muito. Pois é, o Storytelling já faz parte da história da China e agora mostra sua forma e conteúdo para Ocidente de forma brilhante.

Se quiser saber mais sobre esse e outros assuntos de Inovação e Comunicação me conecte em marthaterenzzo@storytellers.com.br.


Escrito por Martha Terenzzo




Quem acompanhou os lançamentos da Globo no começo do ano, se deparou com a minissérie em 4 capítulos: Alemão, os dois lados do morro.  O que, na verdade, era uma versão estendida do filme lançado em 2014, ele narra a saga de 5 policiais infiltrados que tem sua identidade revelada - de modo bem confuso - em meio a invasão do complexo (que ficou famosa pela cena dos bandidos fugindo da PM). No elenco da minissérie temos nomes como Antonio Fagundes, Cauã Reymond, Caio Blat, Otávio Müller, Gabriel Braga Nunes, Marcello Melo Jr e Milhem Cortaz.

Para o novo roteiro, 25 minutos da transmissão, feita pela Globo, da tomada do morro pela polícia, foram adicionadas ao longa. Além de cenas inéditas gravadas e outras que foram cortadas do longa ajudaram a forjar a nova narrativa. 


A princípio achei que simplesmente as histórias dos personagens foram pouco explicadas, pra ser sincero, entre uma ida à cozinha para um copo d"agua ou um lanche já era possível se perder completamente.  Foi bastante inovador, o fato de tentarem misturar a trama de um documentário com a ficção, mas não sei dizer até que ponto isso atrapalhou o drama da obra, mas o roteiro não pareceu agradar muita gente (como eu) , principalmente porque fez os personagens parecerem rasos e sem proposição.  E quando o seu original já é visto dessa forma, não há cenas estendidas que o salvem!




Estudar quando se tem o dia a dia profissional tão corrido é quase impossível. Para resolver esse problema de agenda, a ESPM disponibilizou sua grade de cursos para a temporada de férias de 2016. Com as inscrições abertas, os alunos terão a oportunidade de garantir especialização em Storytelling com o curso comandado pelos especialistas Fernando Palacios e Martha Terenzzo. Chamado de “Inovação em Storytelling: do branded content à transmídia”, o módulo faz parte do Centro de Inovação e Criatividade da ESPM e vai oferecer conteúdo no início de janeiro – 26/01 a 30/01/2016.

Quem trabalha com comunicação se depara todos os dias com o desafio de ter sucesso em suas ações de conteúdo. É para falar sobre isso e mostrar detalhes de um caminho que tem conquistado o planejamento das empresas que os especialistas Fernando Palacios e Martha Terenzzo vão se encontrar com alunos em São Paulo. O objetivo das aulas é compartilhar com profissionais técnicas capazes de fazer o que contadores de história fazem há anos: conquistar o público com relatos. A ideia é mostrar como o Storytelling pode ser usado como elemento para ajudar a construir marcas e alavancar vendas conquistando o público pela emoção. O curso vai muito além dos modismos do mercado e abordará branding, cultura organizacional, branded content, product placement e plataformas transmídia.


No total, serão 6 dias de compartilhamento de ideias. As aulas vão mostrar bibliografia seleta e comentada para cada módulo, revelar os bastidores do Storytelling e promover o networking. De maneira inédita, a edição do curso vai discutir ética e abordar storydoing.

Conheça detalhes da grade do curso:

Dia 1. COMO O STORYTELLING PODE MUDAR SUA VIDA

Dia 2. COMO O STORYTELLING PODE DAR VIDA À SUA MARCA

Dia 3. COMO O STORYTELLING PODE DEIXAR MAIS INTRIGANTE SEU CONTEÚDO

Dia 4. COMO PROGREDIR DO STORY AO TELLING

Dia 5. TRANSMÍDIA: COMO TRANSFORMAR EM ATIVO O UNIVERSO POR TRÁS DA HISTÓRIA

Dia 6. WORKSHOP: O STORYTELLING NA PRÁTICA

Saiu no Portal da Propaganda

O garçom serviu a cerveja e saiu de perto da mesa.

– E agora? – me perguntou meu mestre em Storytelling. – O que é que você vai fazer?

– A única coisa que me resta. Eu vou em busca do meu final feliz.

Tomei um gole de cerveja gelada do meu copo. O amargor era doce comparado ao gosto da incompletude que estava na minha boca. Eu tinha chegado tão perto. Mas tão perto mesmo.
Eu andei até Jerusalém sem dinheiro e cheguei lá na Páscoa, exatamente quando eu queria. Venci meu desafio. Em Ibiza eu comecei trabalhando de noite em um puteiro e saí de lá com uma proposta para ser gerente de marketing em uma das melhores baladas da ilha. Outra vitória esmagadora. E em Londres eu conheci a família da princesa com quem minha história terminaria. Eu tinha dinheiro, uma namorada e amigos lá. Praticamente tinha conseguido meu final feliz. Praticamente...


Em uma mensagem de texto, tudo foi por água abaixo. A menina terminou comigo enquanto viajava pela Tailândia. Eu não tinha onde morar. Eu gastava mais dinheiro do que ganhava (e isso passando fome). Meus amigos estavam em situações tão desesperadoras que não poderiam me ajudar e logo nos distanciamos. Londres era supostamente meu prêmio. Mas na verdade foi minha aniquilação. Um supercombo que me levou para a lona. Sozinho naquela cidade depressiva, meu coração estava em pedaços do outro lado do mundo. Logo ficou claro que não haveria final feliz ali para mim.

– Eu cheguei tão perto, Mestrão – disse depois de engolir a cerveja goela abaixo. – Mas tão perto mesmo...

Calmo tomando um gole da sua cerveja, o Mestrão me encarava sabendo exatamente o que tinha acontecido.

– Talvez você não tenha aprendido sua lição – ele sugeriu.

A frase me atingiu como um tapa na cara, me tirando do meu estado de desgosto e me levando a um novo caminho de raciocino que eu não havia trilhado antes.

– Como assim? – indaguei curioso.

Eu tinha encontrado Deus na estrada. Tinha mudado completamente minha vida. Tinha aprendido lições que seriam impossíveis serem aprendidas de outra forma. Do que será que ele estava falando?

– Histórias têm um poder ímpar de nos ensinar alguma coisa. Vamos pegar uma parte da premissa de storytelling aristotélica:

“Um personagem passa por uma situação familiar com a vida real. Ele pode evoluir, aprender a lição que a história quer passar e assim se tornar merecedor de um final feliz. Caso o personagem não aprenda essa lição, ele terá um final trágico. Sabe o símbolo do teatro?, a máscara feliz e a máscara triste? Então, elas vêm daí.”

Eu não tinha aprendido minha lição? Seria mesmo?

– Mas que lição seria essa?

– Não sei – respondeu o Mestrão. – Talvez a como ser menos cafajeste. Ou como ser menos emotivo. Ou como selecionar melhor seu foco. Ou como ser mais independente...

Eu não disse nada. Fiquei pensativo por um momento, confuso e perdido pelas minhas memórias tentando desvendar o que poderia ter me escapado. E o Mestrão percebeu isso depressa.

– Vamos pegar um exemplo que talvez possa te ajudar – continuou ele. – Em “Procurando Nemo” Marlin, o personagem principal, precisa aprender a como ser um pai melhor. Ele perdeu a mulher e todos os outros filhos de uma forma trágica, deixando-o apenas com Nemo. E por isso ele acaba sendo super protetor, sufocando o peixinho.

“O Nemo, no caso, é o objeto de estudo. É o filho super protegido que não suporta mais a relação com o pai. A história se desenvolve quando em um ato de rebeldia, causado numa tentativa de se rebelar contra Marlin, Nemo é levado embora do coral aonde vive para o consultório de um dentista.”

“Assim sendo, Marlin sai numa busca. E não tarda muito até ele encontrar um personagem que é seu oposto, a peixe sem memória chamada Dory. É ela que vai mostrar a Marlin uma realidade totalmente diferente e vai ensiná-lo a ser mais relaxado.”

“Mas, por ser seu total oposto, Dory não representa a personalidade para Marlin aprender sua lição e virar um pai melhor. Essa personalidade é algo no meio termo entre os dois. Não tão preocupado, mas também não tão relaxado.”

“A personalidade ideal para Marlin se espelhar só aparece próximo ao final da história, quando ele já está mais bem preparado para recebê-la, após vivenciar diferentes aventuras e desafios.  Essa personalidade vem com Crush, a tartaruga que está na corrente indo para a Austrália. Ele deixa o filho se aventurar, mas está atento. É nesse contato que Marlin aprende sua lição. E, sendo assim, é merecedor de um final feliz, resgatando seu filho e voltando ao seu coral como um pai muito melhor.”


Quando ele parou de falar, eu fiquei quieto. Rapidamente pensei numa lição que a vida poderia querer me ensinar. E algo posto no meu caminho para que eu me mobilizasse para aprender. E também nas pessoas que conheci na minha trajetória. O Mestrão estava certo, eu não tinha aprendido a lição.

Não pude deixar de rir. Eu, que vivi três meses na estrada contando histórias, me julgava ser um storyteller completo. E em um simples gole de cerveja o cara na minha frente me mostrou que eu ainda tenho muito a aprender.

Eu ainda não aprendi a lição que me escapou em Londres. Muito pelo contrário. Acho que preciso de uma aventura completamente nova para aprendê-la. Mas, pelo menos, essa nova lição de storytelling eu absorvi para criar minhas próximas histórias.


Enquanto a história acaba, a vida continua. E eu vou atrás do final que eu quero. E você, o que aprendeu ultimamente?

Comecei meu dia ontem vendo uma maratona de Star Wars. Os três primeiros episódios da série que foram os três últimos a serem produzidos.

Ironicamente, na metade do segundo, recebi uma mensagem de uma namoradinha de infância com quem tenho falado muito ultimamente. A mensagem dizia mais ou menos o seguinte: “Ando muito cri-cri para tudo. Festa, trabalho, namoro. Queria ter a inocência de quando a gente namorava, porque
tudo era mais simples e divertido”.

A mensagem caiu como uma luva. Quando eu era moleque tinha adorado aqueles três filmes. Mas ontem de manhã não entendia como. Acho que eu virei cri-cri.


O começo de “A Ameaça Fantasma” é bom... até o Jar Jar Binks aparecer e começar a arruinar tudo, pisando em merda, tendo um bicho peidando na frente dele, lambendo o motor de um pod racer e ficando com a língua dormente, e por aí vai. Quando minha opinião estava completamente dividida, o Senado Galáctico cuidou do resto e me fez dizer as seguintes palavras: “nossa, que merda”. O filme não tem uma espinha dorsal. Ele é o monte de coisa e nada ao mesmo tempo. Você não sabe se ele é sobre política, sobre a Força, sobre o Anakin, sobre o retorno dos Sith. Simplesmente não tem foco. E, de certa forma, nem mesmo um protagonista e um antagonista.

O Ataque dos Clones foi um pouco melhor. Menos aparições de Jar Jar Binks e politicagem. E a porrada comeu. Entretanto, as três palavras mágicas saíram da minha boca quando Anakin e Padme começaram a rolar na grama. No manual do Jedi deve estar escrito em algum lugar que para se conquistar uma mulher deve-se ser obsessivo, agressivo e estranhamente desesperado. Assista o Ataque dos Clones, vá para a balada ou saia para um encontro e escreva aqui o que aconteceu. Acho que nem em uma galáxia muito distante dá para um cara forçar a barra daquele jeito, sair da friend zone, ganhar bitoquinha na varanda e ouvir um “eu te amo” de um modo tão medíocre e rápido. Detalhe que o cara era segurança da “gatinha”, então só faltou a música da Whitney Huston para completar a trama. Isso tudo sem falar na atuação magnifica do Hayden Christensen. Sério, vai no Colégio Dante Alighieri em São Paulo durante a madrugada que dá para encontrar alguma opção melhor de Darth Vader.


Por último, A Vingança dos Sith, o “menos” pior. Porém com o maior problema que essa segunda trilogia da série apresentou, na minha opinião: a constante necessidade de transformar Anakin em um Jedi fodão e fazê-lo se converter para o lado negro. É muito forçado. Parece que o cara tá numa bad trip de algum coisa pela paranoia e as contradições do final. E forçada também é a luta do Darth Sidious contra os Jedi, coreografada de uma forma pífia e tosca.

Eu resolvi resumir e enxugar bem esse começo da minha manhã com Star Wars nesse post por uma simples razão: apenas para poder descer o cacete melhor no filme novo.

AVISO DE SPOILERS

Depois dessa maratona, tomei uma decisão. Resolvi ir ver Star Wars – O Despertar da Força no cinema.

Naquela tarde eu me sentei na poltrona relaxado, pois muitos dos meus amigos elogiaram ao filme. A musiquinha começou. Pan, pan, panpanpanpan pan... E veio a historinha. Um começo muito bom. As sombras do império ressurgindo, Luke desaparecido, Leia liderando uma nova aliança rebelde e procurando pelo irmão desaparecido. Realmente, nada mal.

A história e os elementos me lembravam muito os três primeiros filmes. Muito mesmo. Muito até demais. E foi aí que eu percebi que eu não estava vendo uma continuação, mas uma remake.

Eu sou noveleiro, não tenho problemas com repetecos. Mas o repeteco de Star Wars começou a me incomodar. E começou a me incomodar pelo fato da Disney ter cagado para o universo expandido de livros e quadrinhos que ocorre depois de O Retorno de Jedi. E também por ter criado um bando de personagem escroto para vender boneco.


Eu não gostei do Finn. Achei ele covarde, sem nenhuma habilidade especial e bobo. Mas também achei ele um personagem cômico melhor que o Jar Jar Binks, então vou poupá-lo. Entretanto, que porra é aquela de Kylo Ren?

O cara usa uma máscara com uma voz estranha por nenhum motivo aparente além de ser feio pra cacete. Meio que uma versão Disney do Darth Vader, avô do personagem. Mas enquanto a transformação de Anakin para Darth Vader tem motivos psicológicos e físicos (Anakin foi escravo, perdeu a mãe de um jeito bárbaro e estava prestes a perder a mulher que amava), ao que parece, Kylo Ren apenas dá chiliques como um adolescente mimado que fugiu de casa para chamar atenção. Isso sem falar no sabre de luz escroto que não tem funcionalidade prática nenhuma. E que no final ele, tão fodão que consegue parar um disparo de blaster com a Força, toma um cacete de uma menina que era catadora de lixo poucos dias antes.


A catadora de lixo que dá um pau nem Kylo Ren é a Rey. E ela é linda S2. Sério, estou querendo construir uma nave espacial e ir para puta que pariu pedir ela em casamento. Tirando esse fato, e todo o carisma e habilidade da atriz, o personagem é muito mal construído. Ela é abandonada no deserto e não quer sair de lá por nada no mundo. Depois se descobre uma Jedi  e piloto fodástica do nada. Tipo eu quando escutei Wesley Safadão pela primeira vez e dei uma aula de dança na balada, sqn. É muito forçado o jeito que as habilidades dela aparecem e se desenvolvem. Na minha opinião, Rey é uma personagem que poderia ter sido tão melhor construída por ter sido abandonada no deserto e crescer em um ambiente hostil, mas acabou ficando no bonitinha e carismática. Pegue um Peter Quill dos Guardiões da Galáxia e faça um comparativo, para se ter uma ideia melhor do que eu estou falando. Como o personagem evoluí e muda a partir de elementos da história, e não simplesmente do nada.

Quanto aos velhos personagens da série, isso não tenho nada a declarar. Han Solo, Chewbacca, Princesa Leia, C-3PO e R2-D2 estão sensacionais. Se encaixaram perfeitamente. Já o Luke, não tenho como falar mal, mas também não tenho como falar bem. Em seus trinta segundos de filme, fiquei na dúvida se ele iria pedir crack ou não para Rey. Mas só poderei afirmar no episódio seguinte.

Eu defendo muito que histórias são como relacionamentos amorosos. É melhor terminar de um modo digno. Sem brigas, conflitos hediondos ou traições. Terminar de um jeito que os dois sejam felizes para sempre ou que pelo menos possam ser amigos no futuro. E não persistir no erro até que não dê mais para um elemento do casal olhar para a cara do outro.

Os episódios I, II e III da série apresentam falhas nos roteiros, péssimos diálogos, falta de protagonismo, falta de antagonismo, falta de uma história sólida e coesa e ritmo confuso. O Despertar da Força não é tão falho quanto os prequels da trilogia. A história inicial é boa, existe um protagonista e um antagonista, e o ritmo é envolvente. Entretanto o desenvolvimento da história é falho, os personagens são mal construídos e a repetição do modelo original já está muito manjada. Fica evidente a exploração da “Jornada do Herói” de Joseph Campbell, que funciona, mas poderia ter sido melhor mascarado ou mais surpreendente.


Se “O Despertar da Força” fosse uma menina com quem eu estivesse saindo, diria que houveram partes boas nesse primeiro momento da relação, mas que ela deu algumas mancadas que me deixaram com o pé atrás. Mancadas que podem ser facilmente remediadas no futuro, mas que também podem se agravar. Ou seja, mesmo com um pé atrás (põe atrás nisso), eu vou dar um voto de confiança, mais pelo sentimento do que pela razão, e vou ver a continuação de Star Wars no cinema. Mas, para o próximo filme, já estou prevendo um término de relação.

A Força despertou, mas ainda não saiu da cama. Quem sabe no próximo filme já seja hora do café da manhã?



Peter Quill é um aventureiro interestelar que foi raptado da Terra quando ainda era bem jovem.  Ele, aparentemente é o líder dos Guardiões da Galáxia, filme inspirado no grupo homónimo criado pela Marvel nas histórias em quadrinhos.

A primeira cena do filme serve para apresentar uma característica importante do personagem, seu gosto musical. Ele está sentando no hospital, com um walkman (nem me lembro a última vez que precisei escrever esse termo) recheado de músicas dos anos 60/70/80. 


Essa sua peculiaridade praticamente segura o tom da narrativa, proporcionando sequências muito interessantes, como a primeira que ele invade um planeta para roubar a orbe - acarretando em todo desenrolar do enredo.  Se você ainda não assistiu este filme, faça. Agora! Creio que já compreenda que uma das revoluções que Stan lee trouxe para o mundo dos heróis foi a dimensão dramática, pautada em seus conflitos.  




Todavia, não é muito perceptível para escritores menos experientes o impacto desses conflitos na vida do seu personagem: ele conseguirá um tipo de muleta psicológica, vai desenvolver raiva ou trauma de algo? Se sim, há como criar um indício desse trauma como um traço de personalidade ou gosto peculiar? 

Mostrar essas características na narrativa pode dar mais personalidade para sua história.  E pensar sobre elas pode ser um exercício de criação de personagens. Mude as dimensões dele, aprofunde e experimente novas perspectivas.


Já repararam que a maioria das heroínas da cultura POP, não passam de homens enfeitados? Explico: Elas seguem uma jornada toda masculinizada, baseado em porrada e destruição.  É como se fossem versões femininas de plots dos heróis marombados.

Nos games modernos esse comportamento é muito evidente. As personagens exibem grandes atributos sexuais e poucos conflitos femininos. Sim, mulheres tem seus próprios conflitos. Não estou dizendo que elas são mais fracas, apenas que elas não se comportam como homens, mesmo a face mais cruel de uma mulher é distinta. Olhe os noticiários, dificilmente uma obsessão sexual feminina vira um estupro... está mais para um jogo de sedução e estelionato.

Aliás o mundo real pode ser muito mais perigoso para mulheres do que a fantasia, em sumo elas ainda ganham menos do que homens e são violentadas de várias formas todos os dias.  Dói ter que dizer isso, mas essa cultura pop/nerd ainda é bem restrita para minorias e dá a impressão de que tudo é criado para a diversão dos homens.  Foi por isso que me surpreendi com o seriado Jessica Jones, lançado recentemente no Netflix.


Sinopse: Desde que sua curta vida como super-heroína acabou de forma trágica, Jessica Jones (Krysten Ritter) vem reconstruindo sua carreira e passou a levar a vida como detetive particular no bairro de Hell's Kitchen, em Nova York, na sua própria agência de investigações, a Alias Investigations. Traumatizada por eventos anteriores de sua vida, ela sofre de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, e tenta fazer com que seus super-poderes passem despercebidos pelos seus clientes. Mas, mesmo tentando fugir do passado, seus demônios particulares vão voltar a perseguí-la, na figura de Zebediah Kilgrave (David Tennant), um obsessivo vilão que fará de tudo para chamar a atenção de Jessica.


O ritmo dos primeiros episódios podem parecer bem arrastados, eu até acho que demoraram demais para construir a personagem na tela, mas pode ter uma função: a tensão dramática.  O programa é sobre essa tensão.  Imagine se um homem fosse capaz de entrar na mente de uma mulher de tal maneira que ela fizesse tudo por ele, mesmo que ferisse seu senso de moral. Pense em uma mulher que passou anos tentando se libertar dessa prisão psicológica que castigava o senso de sua própria existência.  Olha, eu poderia estar falando da Jessica, mas estou narrando a saga de milhares de mulheres que leis como a Maria da Penha não são capazes de defender.

Killgrave, o vilão da série, dono de poderes psíquicos pode ser trocado por qualquer "marido, namorado, ficante, pai" que surge nos programas policiais da tarde.  Só que Jessica tem super poderes, ela pode erguer um carro, porém sua confiança não.  Na minha percepção essa série apresenta uma jornada de reconstrução dessa heroína. Existem outras mulheres fortes no programa e espero ver todas elas ganharem seu espaço, Jessica Jones fala sobre super heroínas legítimas. Do jeito que o mundo precisa.