Todo storyteller tem um quê de arqueólogo em algum momento de sua vida. Ele talvez não vá escavar as terras do crescente fértil em busca de tabuinhas cuneiformes da antiga Mesopotâmia. Mas vai revirar as gavetas do quarto procurando uns versos rabiscados em pequenos pedaços de papel. Ou aquele caderno desbotado onde anotou frases incríveis no mês passado, prontas para virar belos contos.

Porque o storyteller moderno, por mais moderno que seja, não costuma abandonar o papel assim. Escreve em garranchos, hieróglifos, símbolos decifrados somente por ele. Da forma que for, onde estiver. No ônibus, no banheiro, no elevador, atravessando a rua, com o cuidado necessário para a ideia que surgiu de repente não escapar.

Depois o storyteller se senta diante do computador e organiza as ideias, transforma tudo em um texto interessante. Lê o que foi escrito. Relê. Lê diante dos amigos. Manda um e-mail a si próprio para salvar o texto na caixa postal e relê no dia seguinte. Salva no pen-drive, na nuvem, no HD externo, relê. Muda um detalhe aqui, outro lá. Reescreve, reconta, recria, até que o trabalho fica pronto para ser publicado.

Eu me encontrei com o Storytelling nessas idas e vindas, em que a gente apanha uma ideia na rua e traz em casa para cuidar, ver florescer. Depois deixa voar no mundo, porque ideia não é para ficar presa.

Tanto que após esse encontro com a arte de contar histórias, sempre deixei as janelas abertas. De vez em quando, a chuva respinga no chão da sala, tudo fica molhado. Mas vocês precisam ver as ideias que o vento sopra. Na Mesopotâmia falariam em tempestade no deserto. Para o storyteller, é brainstorm.



Um assunto que está aquecendo o debate entre estudiosos de literatura infantojuvenil é a tentativa de censura a duas obras de Monteiro Lobato, sob a acusação de racismo. Gerações e mais gerações – a minha, inclusive – foram alimentadas, alfabetizadas e introduzidas ao (saudável e louvável) hábito da leitura a partir das peripécias passadas no Sítio do Picapau Amarelo.

Não me ocorre à memória ninguém que tenha crescido racista por conta de passar horas e horas deliciando-se com as travessuras de Pedrinho, Narizinho e a boneca Emília. Assim como as pessoas não se tornam marginais porque cantam “Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu” quando crianças. 

Em vez de censurar a obra, não seria o caso fazer um estudo com os alunos da época em que ela foi escrita para entender seu contexto histórico e o porquê dessa ou daquela expressão?

Em busca de entender mais sobre a polêmica, encontrei a palavra de dois estudiosos que destacam pontos importantes. E a censura? Parece bastante questionável.    

A professora Nelly Novaes Coelho, autora de obras de referência na literatura infantojuvenil – em entrevista à Época – considera o veto uma tolice, uma vez que entre as funções da literatura está a de explorar a realidade. “A história brasileira tem a escravidão por base. Isso levou a um preconceito muito fundo e não se pode passar a borracha nisso nem colocar dentro de um armário e fechá-lo.”  

Já João Luís Ceccantini, pesquisador de literatura infantojuvenil e coautor do livro Monteiro Lobato  Livro a Livro, estuda a forma como as crianças assimilam a literatura. Em entrevista à Veja concluiu: "Eu tenho estudado a forma pela qual as crianças absorvem o que leem e minha conclusão é que elas sabem identificar os excessos dos livros. Elas se apegam ao que é bom, à essência das histórias – e, no caso de Lobato, essa essência não é racista."

Realmente não dá para passar uma borracha no passado. E querer censurar histórias – que podemos considerar como obras de arte – porque hoje algumas de suas expressões podem ser interpretadas como estereotipadas ou racistas soa exagerado. O que Lobato escreveu em 1920 era um retrato da época, o recorte da realidade, daquela realidade.

E se as histórias de Monteiro Lobato não tivessem sido publicadas sob a acusação de racismo? 

E se as próximas gerações não conhecerem essas histórias?



Desde que comecei com essa história de contar história para marcas eu já vi todo tipo de reação sobre o que eu faço, ou estou tentando fazer. Já vi o desavisado ficar assustado e achar que conto história para boi dormir, já encontrei quem olha para mim como quem vê um unicórnio, já ouvi todo tipo de pergunta, já teve professor de faculdade achando que eu sou roteirista de cinema e é claro, já ouvi milhões de vezes a mesma pergunta: "Mas isso ai funciona?". Toda vez que alguém me pergunta isso eu penso - "funciona, é claro, funcionou pra tudo até hoje, você que não percebeu..." - mas a pergunta que é realmente importante na minha humilde opinião é: Por que isso funciona?

Queria oferecer uma reflexão aos leitores do blog, queria que lembrassem dos melhores filmes que já assistiram, ou livros, ou até revistas em quadrinhos, depois pensem nos melhores anos de sua vida, dias ou meses também servem. Achem o que todas essas coisas tem em comum, pensem em como as descrevem aos amigos quando falam delas. Agora pensem em seus ídolos, sejam eles seus pais, irmãos, cantores ou escritores prediletos e tentem de novo fazer o paralelo com todo o resto. Já descobriram o que eles tem em comum? 

O que liga tudo isso é a emoção, mesmo que sejam emoções diferentes, o melhor ano da sua vida está ligado ao amor, o melhor livro ou filme pode ser sobre esperança ou felicidade, seus ídolos são seus ídolos por que parecem entender suas emoções, dizer com sua arte o que você gostaria de entender e quem sabe dizer também. Histórias funcionam por que são sobre emoção, sobre as emoções que todos nós dividimos uns com os outros, sobre aquilo que nos faz humanos, aquilo que nos faz parte do mesmo grupo independentemente de pátria, religião e até time de futebol. Histórias funcionam pois atingem partes de nossas existências que não costumamos tocar. 

Bom, todo o texto acima surgiu do pensamento de que não adianta apenas contar uma história, criar personagens ou contratar atores e sair por ai achando que inovou na comunicação da empresa e agora vai criar uma legião de evangelistas que irão propagar sua história e sua marca. Para isso você precisa fazer com que as pessoas sintam alguma coisa, é preciso que elas se emocionem e queiram dividir suas emoções com o resto do mundo.  

Foto de "El wayqui" César Villegas



Fotos de Renata Rossi

Depois de uma semana de imersão completa e absoluta na tradição oral e no universo das histórias - do Brasil e do mundo - volto ao mundo real, à labuta. No Boca do Céu  Encontro Internacional de Contadores de Histórias vi, ouvi e aprendi muito, muito mesmo. Contadores de história franceses, africanos, peruanos, ingleses, americanos, marroquinos e brasileiros compartilharam seus contos, que muitas vezes se misturam às suas próprias histórias de vida.

De olhos e ouvidos bem atentos, prestava atenção e anotava cada detalhe. E como são os pequenos detalhes que fazem a diferença, era preciso estar atenta. Foi aí que algo me capturou. Fui arrebatada por uma história e naquele momento nada mais importava, apenas queria seguir com a personagem, estar ao seu lado, compartilhar sua experiência. É como se o tempo tivesse parado.

"Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes. 

Até que um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempos muitos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de que a enseada era mal assombrada. O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu - logo em quê! - nos ossos da costela da Mulher-Esqueleto."

A crueldade com que começa a história já é de assombrar. Mas um momento de virada, introduzido na história com quatro simples palavras - Até que um dia... - me despertou a esperança de que algo poderia mudar, de que tudo poderia mudar. Foi isso que me capturou.

Esse é o trecho inicial do conto A Mulher-Esqueleto, da psicanalista e poetisa Clarissa Pinkola Estés. Ele foi narrado no Boca do Céu pela atriz e contadora de histórias Kelly Orasi, que usa brilhantemente o teatro de objetos para contar histórias. O que me jogou para dentro da história foram quatro simples palavras. Uma lição aprendida sobre storytelling...

Quem quiser ver um trechinho dessa história, vá direto ao minuto 2:33 do vídeo. 






Desliguei o telefone com um sorriso no rosto. Fazia tempo que alguém não me fazia feliz assim. Estava tudo tão certo que o texto começou a sair, de fininho, sem alarde, sem problemas, sem desgosto nenhum. Era uma história simples, um pequeno conto sobre um garoto simples que descobriu um mundo inteiro escondido na biblioteca da escola. O primeiro livro, alguma versão, ao estilo disney, de Alice no País das Maravilhas, fez com o meu personagem o que a minha ligação fez comigo. É incrível como essas pequenas coisas da vida parecem fazer tudo ficar mais fácil, mais leve. Por alguns minutos, dois ou três parágrafos, eu escutei o silêncio. Só com muito bom humor para escutar o silêncio no centro de São Paulo. 

O telefone tocou e o mundo parou, quer dizer, o mundo do menino do meu conto. Olhei em volta e parecia sair de um transe, reconheci o lugar e me lembrei por que estava acordando. Era o telefone, não conhecia o número, mas não importava, estava feliz demais para ignorar alguém. Atendo o telefone e escuto a voz da minha irmã, um tanto nervosa, mas ela é sempre assim, então ignorei. 

- Tudo bem? 

- É, tudo... tudo bem sim... e você? Tudo bem? Tá trabalhando?

- Sim, sim... tenho que terminar um conto... e você, onde tá? 

- Eu... bom... eu estou aqui... no Dr. Lucas. 

- Tá fazendo o que ai? Tá tudo bem mesmo? 

- Então... tá tudo bem sim... quer dizer... é Juju... ela não tá muito bem não. Mas, ó, fica tranquila, deve ser só uma virose ou alguma coisa do tipo. 

- Nossa, credo! A Juju é a mais nova de todas não é? 

- É sim... bom, tenho que ir, liguei pra saber se você vai jantar com a gente amanhã? 

- Vou, vou sim... preciso voltar pro meu conto também. beijos. 

- Tá bom... beijos. 

Desliguei o telefone e voltei pro conto. Percebi que meu computador precisava de uma limpeza. Não tinha visto aquele pó todo. O Bruno, o menino do texto, já tinha terminado seu primeiro livro. Agora ele estava lendo outro. "Marley e eu"... curioso como só percebi que livro era depois de alguns parágrafos. E No fim do livro o Bruno estava triste, mas eu estava feliz demais para deixá-lo assim. 

- Mônica, tudo bem?

- Tudo sim, Karina, o que foi agora? 

- Então, Mônica... é a Juju, ela teve que operar e.. 

- Como assim? Operar? Nunca ouvi falar de operação pra virose? Que que tá acontecendo?

- Não é virose, é câncer, Mônica... a gente já sabia mas não queria te contar, não era pra falar nada pra mamãe. 

- Câncer? a Juju tem Câncer e você não me disse nada? Nem pra mãe? Tá louca meu?

- Então, Mônica, a Juju morreu. 

- Como assim, a Juju morreu? Você é triste viu... e agora, quem vai contar pra mãe isso ai?

- Então, eu conto, né... mas, você não queria ir lá pra casa, dar uma força? 

- Tá bom, tá bom... eu vou, mas tenho que terminar esse conto antes. 

Desliguei o telefone sem dar tchau nem nada. Voltei pro Bruno. Agora o conto era como um choro, pausado, engasgado, difícil de sair. O Bruno, coitado, cada vírgula uma lágrima. Não acredito que nem o Lucas me ligou. Quer dizer, Dr. Lucas. A gente cresce junto, brincando de carrinho de rolimã e agora o moleque se forma em veterinária e quer ser chamado de doutor.  Tentei me concentrar, mas o barulho era tanto que a folha não ia entender muito bem o que eu queria dizer. Ruídos estranhos me separavam do Bruno. Quem chorava na verdade era eu, no fim das contas, nem terminei o conto.