Dizem que a noite de domingo virou a nova manhã de segunda. Pelo menos para mim essa afirmação faz sentido. É sempre um ótimo dia para responder emails, preparar a agenda da semana e, no meu caso, pensar em projetos e aulas e palestras que estão por vir.

Quem foi meu aluno mais de uma vez sabe que não gosto de repetir aulas. Para que eu mesmo não comece a ficar entediado com o assunto, preciso estar em estado constante de atualização. Neste exato momento preparo um curso inédito de Storytelling com foco em Design e também aproveito para atualizar a terceira edição do Inovação em Branded Content.

Ao mergulhar nos estudos tenho alguns momentos de preciosos em que descubro coisas geniais que aconteceram nos últimos tempos, mas a maior parte do tempo fico frustrado com a maior parte do que encontro. Foi aí que ocorreu a ideia de criar um módulo sobre Os Sete Pecados Capitais do Branded Content. Tem tanto material e exemplos para isso que fica até difícil selecionar os sete principais erros. Ainda assim, existem três gafes que são tão básicas que resolvi compartilhar por aqui, na esperança de ajudar a diminuir as ocorrências.

1. Não perceber que tudo é conteúdo

A palavra 'conteúdo' carrega uma espécie de valor intelectual. Como se fosse preciso 'conter informações úteis' para que algo possa vir a ser considerado conteúdo. Quando falamos em 'branded content' a carga fica ainda mais pesada. É como se branded content fosse algo restrito a empresas descoladas, que fazem coisas muito diferentes. Enquanto isso, empresas tradicionais fazem comunicação tradicional. Seria impossível estar mais errado do que isso.

Toda vez que uma empresa contrata um comunicador para escrever um texto, um designer para fazer uma embalagem, um publicitário para fazer um anúncio e até mesmo estagiários para alimentar a fanpage, ela está contratando um profissional para fazer o seu conteúdo. Quando uma marca faz um conteúdo, ela faz branded content. Então quer dizer que tudo é conteúdo? Sim.

QUAL EMPRESA NÃO ERROU NISSO: A Red Bull, que ao perceber que tudo pode ser um conteúdo de valor, criou uma segunda empresa que ao invés de produzir energéticos, produz apenas conteúdos com a marca.

Mas se as marcas fazem conteúdo o tempo inteiro, então por que é difícil encontrar um bom case sobre o assunto no Brasil? Pois vamos para o segundo erro...

2. Confundir o que é sério com chato

Apesar de podermos categorizar como conteúdo praticamente tudo o que um profissional de comunicação produz, isso não quer dizer que tudo seja interessante. A verdade dolorosa é que a maior parte do conteúdo produzido pelos profissionais em nome das empresas é considerado como entediante. Dessa forma é praticamente impossível que o conteúdo da empresa consiga vencer a concorrência na internet contra videoclipes de bandas e sites de humor. E como a internet não está só no computador, mas também no celular, e como o celular está em todo o lugar, os conteúdos das empresas estão perdendo em todas as frentes.

Seria injusto culpar o profissional, já que muitas vezes ele não recebe liberdade do cliente para realizar algo mais condizente com a qualidade do entretenimento contemporâneo. Também seria injusto culpar o executivo, que tem metas cada vez mais difíceis de serem alcançadas e muito pouco espaço para errar. Quem não pode errar, não pode experimentar. Então os projetos começam a ficar sérios e sisudos. Acontece que num mundo que muda tão rapidamente, muitos acabam errando ao tentar repetir sucessos do passado. Quando o contexto muda, a regra também. Tente fazer uma receita de bolo no fogo caseiro e depois repetir a mesma fórmula, com os mesmos tempos, em um forno de pizzas. O mundo mudou e os conteúdos das empresas não podem continuar sendo feitos nos mesmos moldes das décadas de 60 e 70.

QUAL EMPRESA NÃO ERROU NISSO: a comunicação governamental é muito difícil de ser feita por tratar de assuntos delicados e polêmicos. Até por isso o exemplo da prefeitura de Curitiba é surpreendente. Não é por acaso que a forma como eles se comunicam nas redes sociais vem sendo estudado até mesmo fora do Brasil.

3. Ignorar as regras de placement

Todo o mundo quer expressar alguma coisa. Seja na embalagem do produto, seja no post pessoal da rede social. Em cada texto que escrevemos, queremos transmitir uma informação. Em cada roupa que escolhemos, temos a expectativa de causar uma certa percepção, quem sabe até um certo impacto. Sempre temos um peixe para vender.

Quando uma marca entra no conteúdo de outra pessoa, ela estuda muito bem a forma ideal para fazer isso. Por exemplo, se uma marca participar de um reality show ou de um episódio de uma novela, ela vai conversar com os profissionais da rede de televisão sobre a melhor forma de figurar a marca naquele contexto. O nome disso é product placement. Esse é um estudo muito raro por parecer específico, mas aí que está o erro.

Acontece que quando a marca é dona do próprio conteúdo, isso não faz com que ela possa simplesmente colocar sua marca e suas mensagens comerciais como bem entender. Pelo menos, não sem irritar a audiência. O fato é que a maior parte das empresas e dos comunicadores acaba ignorando isso. Aí, além de chato, o conteúdo da marca passa a ser abusivo.

Às vezes, alguns executivos percebem isso e acabam fazendo o oposto e excluindo completamente a presença da marca. Quando isso acontece, temos uma comunicação que tende a ser interessante, mas no final se você perguntar para a audiência qual era a marca, ninguém vai saber responder.

QUAL EMPRESA NÃO ERROU NISSO: Até por lidar com um público sofisticado, a Johnnie Walker sempre soube respeitar a audiência. O último anúncio, Gentleman's Wager, é uma demonstração de como a marca pode estar presente o tempo inteiro no filme, reforçando seus valores, sem que fique forçada.




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Esse é meu primeiro post por aqui. Estava reservando o espaço para um tema de grande importância. Não achei que teria nada digno do espaço até o fim do ano, mas estava enganado.

Tudo começou quando a Revista Exame lançou a matéria chamada “Toda empresa quer ter uma boa história. Algumas são mentira”. O tema central da matéria é a crítica à "pseudo-história", quando uma marca inventa uma história. Ela cita os casos como os sorvetes Diletto e os sucos Do Bem. Agora a bola de neve cresceu ou, como diriam na gíria de Hollywood "the plot thickened". 

A própria Revista Exame publicou hoje que o Conar está investigando as empresas, que inventaram um avô e um fazendeiro, respectivamente. Para quem fez os cursos de Inovação em Storytelling ou Desvendando o Storytelling essa notícia não trouxe novidade alguma. Os dois casos sempre foram citados como exemplo de que não se pode criar uma ficção e dizer que ela aconteceu no mundo real. Nem o maior mentiroso do mundo consegue dar conta de cobrir todas as evidências. Sempre tem algum indício que vai indicar a mentira. Como sempre digo nos cursos: o Storytelling pune.

A questão da ética é fundamental ao se contar uma história e a mentira, que tem pernas curtas, vai acabar aparecendo mais cedo ou mais tarde. Por isso, a regra é simples: se você estiver contando uma verdade, diga que é baseado em fatos reais e se for mentira diga logo que é uma ficção. As pessoas não se importam com ficção, a lista dos 100 filmes mais assistidos na história do cinema prova isso. As pessoas só não querem ser enganadas.

Não há dúvidas de que o Marketing às vezes exagera em suas histórias, só que da mesma forma como algumas marcas foram longe demais com a invenção de histórias, a matéria também foi longe demais na crítica ao embaralhar os conceitos de pseudo-história (quando uma marca inventa uma ficção e diz que é real) com DOC (denominação de origem controlada).

Ao criticar a água Fiji que de fato vem das Ilhas Fiji e faz um trabalho fantástico com as comunidades locais, a matéria automaticamente critica todo o mundo que se preocupa com a qualidade dos ingredientes: qualquer vinícola; os produtores orgânicos; boa parte das marcas de luxo; as tecelagens mais especiais; os chefs de cozinha... é como se qualquer produto fosse igual, de forma indiscriminada. Não é bem assim.

O grande problema da matéria da Exame acaba sendo a falta de um contraponto. Existem inúmeros bons exemplos de quando uma marca conta uma boa história e a matéria falhou ao não citar nenhum.

A Intel uniu-se à Toshiba para criar uma mentira deslavada: um homem que acorda todos os dias em um corpo diferente. Às vezes ele é jovem e bonito, noutras acorda com o aspecto de uma senhora cansada. Essa metáfora é genial por ajudar a entender um dos dilemas de um processador, que cada vez está em um computador diferente, mas vai ainda mais além quando dialoga com o espírito do momento. Uma geração de jovens no mundo inteiro sente dificuldades de identidade num mundo tão globalizado e disseram que essa história ajudou com que eles se sentissem mais compreendidos.

A mesma coisa vale para a marca Chipotle que inventou a história de um espantalho que se sentia mal ao ver o processo cruel com que os animais eram tratados pelas marcas de fast-food e resolveu se rebelar e fazer algo mais natural. A mesma marca também mentiu ao criar uma websérie em que vacas eram alimentadas com petróleo e podiam chegar a explodir. Duas mentiras que ajudaram a propor uma reflexão importante sobre o que consumimos.

Pelos estudos que fizemos, essa revelação vai manchar a marca para uma boa parcela das pessoas, algo em torno de 40%. Dessa parcela uma parte vai deixar de consumir. Mas existe a parcela das pessoas que não se importa nem um pouco com isso. Seja como for, é uma estratégia que não recomendo a nenhum cliente e já dissuadi alguns a seguir por esse caminho no passado.

Isto posto, ao não existir um contraponto inicia-se um processo de caça às bruxas que é desproporcional ao erro cometido pelas marcas. Ao olharmos todas as marcas no microscópio do puritanismo, nenhuma das 5000 maiores empresas do mundo vai escapar ilesa. A matéria cita algumas marcas que inventaram alguma história, mas existem muitas outras como o Coca-Cola que reinventou o Papai Noel e que falou que as frutas do suco infantil Del Valle Kapo são provenientes de um vale mágico.

Além disso, também podemos falar das marcas que se passam por uma nacionalidade diferente daquela que prometem, como é o caso da estadunidense Häagen-Dazs que inventou uma palavra eslava ou da rede Outback que não tem nem origem e nem cardápio australiano. Mas existem outros problemas como esconder parte da história que de fato aconteceu.

Diversas marcas que apoiaram o nazismo durante a Segunda Guerra não colocam nada disso na sua timeline corporativa, assim como empresas que nasceram de roubo de patente contam uma versão 'higienizada' no seu vídeo institucional.

Esse formato lançador de pedras é bom para inflamar, mas ruim para instruir. Esse tipo de argumentação é que acaba dificultando uma compreensão mais aprofundada sobre temas. Gera-se muita opinião e pouco conhecimento. Assim ficamos reféns de ter que apostar todas as fichas em uma única cor e nos esquecemos de que existe toda a variação de tonalidades.


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Demorou, mas finalmente consegui escrever esse post. Ontem a noite acabei a primeira temporada de Cobra Kai, no YouTube Red, e não consigo pensar em outra coisa. Foi uma das melhores coisas que assisti na vida!

Cobra Kai revive a antiga rivalidade dos anos 80 de Daniel Larusso e Johnny Lawrence, do filme Karatê Kid: A Hora da Verdade, nos dias de hoje. Ao mesmo tempo que a série é nostálgica, também revoluciona a história original do filme ao mostrá-la por outro ângulo. Junte isso a personagens bem construídos, músicas dos anos 80, plot twists inteligentes e um enredo muito bem amarrado e dá para entender o sucesso de Cobra Kai. Mas vamos colocar o olhar do Storytelling para entender tudo isso um pouquinho melhor.



ALERTA SPOILERS

A série começa em 19 de dezembro de 1984, na final do torneio de karatê do filme Karatê Kid: A Hora da Verdade, quando Daniel Larusso vence de Johnny Lawrence usando os ensinamentos do senhor Miyagi. Essa vitória consagra Daniel como herói e Johnny como perdedor, não apenas do torneio, mas do resto de suas vidas.

Logo na cena seguinte o público vê que Johnny nunca se levantou da queda que levou na final do torneio. Ele está jogado em um apartamento minúsculo e acorda para mais um dia medíocre de uma vida que ele detesta, com um emprego insatisfatório, falta de dinheiro, um casamento terminado em divórcio e um filho que o odeia e o ignora. Esse é o primeiro level da Jornada do Herói (Joseph Campbell) de Johnny: o lugar comum. Seu objetivo é deixar de ser um fracassado para ser bem sucedido, e ele encontra no karatê um meio de alcançar isso, reabrindo o dojo Cobra Kai. É a partir disso que a série se desenvolve em um primeiro level.


Enquanto Johnny tem uma vida medíocre por nunca ter se recuperado do chute de Daniel e do destino no passado, seu antigo rival se encontra em uma situação totalmente diferente. Daniel Larusso é um homem profissionalmente bem sucedido, que vive em uma casa grande e confortável com uma família estilo comercial de margarina. Entretanto, logo também vemos que o personagem tem seus pequenos conflitos, bem menores do que os de Johnny, mas não menos importantes. Daniel sente falta de um discípulo, como ele foi para o senhor Miyagi. Além disso, está em constante dúvida e preocupação sobre o modo que educa seus filhos. Se Johnny é inicialmente mostrado como o protagonista que vai percorrer um tipo de Jornada do Herói, Daniel pode até ser seu antagonista, mas não pode ser considerado como "vilão" da série, como no formato original de Karatê Kid. Apesar de Daniel se opor a reabertura do dojo Cobra Kai, seu objetivo na história é ser um bom pai e passar seus conhecimentos de karatê a diante, e isso não entra em conflito com o objetivo final de Johnny.

Com os dois personagens principais da série sendo opostos, mas inspirando simpatia do público por terem caminhos diferentes a percorrer, a audiência precisa de alguém para odiar. Afinal, se todo mundo torcesse a favor de todo mundo em um caminho linear, a história fica chata. Não haveria conflito ou desafio para ela se desenrolar de forma interessante. No filme original Daniel é a personificação de bondade e coragem que precisa derrotar Johnny, a personificação da prática de bullying e covardia. Em Cobra Kai esse dualismo se desenvolve em um segundo level, a partir de um jovem latino chamado Miguel, que é perseguido por Keene, um garoto popular e babaca do colégio. É quando Johnny dá uma surra em Keene e seus amigos que estavam humilhando Miguel que ocorre o segundo passo da Jornada do Herói: o chamado para a aventura, tanto de Johnny quanto de Miguel.


Uma coisa que achei extremamente irônica na série é que ao mesmo tempo que Johnny vira o mentor de Miguel na trama, Miguel vira o mentor de Johnny na Jornada do Herói. Enquanto Johnny ensina karatê Cobra Kai para Miguel, que vai muito além dos golpes da arte marcial, Miguel ensina Johnny a ser uma pessoa melhor e, a partir disso, um homem bem sucedido. O chamado da aventura de Johnny vem de Miguel, que inspira a abertura do dojo Cobra Kai. Em compensação, Miguel também tem sua própria Jornada do Herói para percorrer em um modelo dualístico muito mais próximo ao filme original que a relação de Daniel e Johnny na série atual. Daí a história se desenvolve em dois leveis interligados.

Se na história original de Karatê Kid temos uma luta clara do bem contra o mal, em Cobra Kai a coisa não é mais assim. A luta de Cobra Kai não é mais uma doutrina de ódio contra uma doutrina de paz porque a vitória de um dos lados pode amplificar a força do outro. Por exemplo, ao vencer torneios no passado, Daniel acabou sem discípulos para passar seus aprendizados no futuro e o "ódio" saiu dos tatames para curtir festas do colegial. E, ao seguir a doutrina de "sem misericórdia", Johnny acabou fracassando em todo o resto de sua vida. A questão aqui é equilíbrio, e isso pode ser melhor explicado pelo psicoanalista junguiano Robert A. Johnson. Para Johnson, nosso "lado sombrio" não é algo a ser dominado ou expelido. Essa repressão causa um acumulo de "trevas" que cria uma divisão de ego, pela qual se projeta tudo que é ruim em si em uma outra pessoa , o que resulta em uma luta sem fim, como na rivalidade de Karatê Kid. Na história original do filme essa projeção é feita de forma muito literal na luta dos personagens, com Daniel usando um quimono branco com o símbolo pacífico de uma árvore enquanto Johnny vestia quimono escuro com o símbolo de uma cobra prestes a atacar.


Ao invés de manter a distinção do que é bom e o que é mal (ambas dentro dos personagens), Cobra Kai adapta a fórmula básica junguiana. Afinal, se Jung sugeria que nós devemos reconciliar nosso lado sombrio com o resto de nossa personalidade, o dojo Cobra Kai não deveria voltar para o vale?

Sendo assim, os acontecimentos do filme Karatê Kid: A Hora da Verdade são recontados a partir do ponto de vista de Johnny, o que faz o personagem, antigo vilão e praticante de bullying, ganhar simpatia e admiração do público. A partir de relatos, sonhos e lembranças, vemos que Johnny não era um garoto rico e mimado, mas que sofria maus tratos de seu padrasto e por isso encontrou no karatê Cobra Kai um estilo de vida e uma forma de autoproteção. E também vemos que ele não estava agredindo Daniel de forma gratuita ou praticando bullying. Para Johnny, ele estava apenas se defendendo e lutando pela garota que amava. E, por incrível que pareça, suas atitudes na história original tornam-se justificáveis e compreensíveis. Do ponto de vista do Storytelling, isso é muito importante. Afinal, a audiência precisa torcer pelo protagonista. E ficaria meio difícil torcer para um babaca praticante de bullying, não é?

Em compensação a essa releitura do passado, Johnny apresenta uma mentalidade agressiva e ultrapassada para a atualidade. Ele não mostra compaixão, compreensão ou maturidade diversas vezes no começo da série e tenta resolver as coisas como fazia nos anos 80. É Miguel quem o ensina a viver na atualidade e no ambiente digital. Por outro lado, Miguel também adquire conhecimentos dos anos 80/90 que são benéficos para sua trajetória na série (como a sugestão de local do seu primeiro encontro). Essa troca é um ponto alto da série, já que toca em um ponto sensível a audiência. Os fãs da versão original de Karatê Kid vivem ou viveram essa readaptação de tempos. Afinal, muito mudou desde os anos 80. E, apesar e muita coisa ter mudado para o bem, outras coisas deixaram saudades.


Conforme desafios e conflitos são superados, outros surgem dando movimento e fluidez à série. Miguel se envolve amorosamente com a filha de Daniel em uma espécie de romance proibido. O filho delinquente de Johnny vira discípulo de Daniel. Os alunos de Johnny deixam de ser perseguidos no colégio para se tornarem aqueles que perseguem. É no andar dessa carruagem que a primeira temporada acaba em uma espécie de cliff hanger que está me fazendo contar os dias para o lançamento da continuação. Entretanto, apesar do cliff hanger, o episódio final mostra que Johnny aprendeu uma valiosa lição: uma vitória suja não é uma vitória. E seu desafio para temporada seguinte será ensinar isso para seus alunos ao mesmo tempo que mantendo-os prontos para o combate contra o dojo Miyagi, prestes a ser reaberto por Daniel. O dojo Cobra Kai pode não querer mais uma vitória suja, mas também não vai querer ficar sem vitória. Se nessa primeira temporada os caminhos de Johnny e Daniel não eram conflitantes, as aparências indicam que na segunda temporada as coisas serão diferentes.

Em suma, Cobra Kai é uma série nostálgica sobre uma antiga rivalidade que passa duas mensagens poderosas: 1- nunca é tarde para se recuperar de chutes do passado; 2- encontre seu equilíbrio. Ambas as mensagens se encaixam perfeitamente em necessidades do público em um momento de mudanças radicais e busca por identidade diante de um cenário mundial binário. Sendo assim, aguardemos a o futuro da série. Mas, de um modo geral, a primeira temporada foi um show de Storytelling.



Em 1971, o economista americano e ganhador do Prêmio Nobel da Economia Herbert Simon observou que a quantidade de informação produzida pode continuar crescendo, mas a quantidade de atenção humana é limitada.  Segundo ele “uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção e a necessidade de alocar a atenção eficientemente entre uma superabundância de fontes de informação que pode consumi-la. ”

Apesar de apontar essa problemática logo no começo da década de 70, Herbert Simon não poderia prever as mudanças no ambiente midiático que viriam nas próximas décadas. Em um levantamento do instituto de pesquisa IPSOS MediaCT, apresentado no evento da Associação Global de Profissionais de Pesquisa de Mercado e Opinião (ESOMAR) realizado em São Paulo em Abril de 2015, constatou-se que o telefone fixo levou um período de 75 anos para atingir a marca de 50 milhões de usuários globalmente. O rádio, por sua vez, atingiu o mesmo alcance em 38 anos. A televisão ocupou a mesma posição em 15 anos. O computador pessoal levou apenas 4 anos para atingir o mesmo número de usuários. E a tecnologia de comunicação de larga escala mais recente, o telefone celular, atingiu 50 milhões de usuários em apenas 1 ano de existência.

No cenário de aceleração da proliferação das tecnologias de informação e comunicação nas últimas décadas, em especial as digitais, o professor e pesquisador da Universidade de Copenhague Stig Hjarvard aponta para mudanças não só no âmbito quantitativo, mas também qualitativo nas relações entre sociedade, cultura e mídia. Ao referir-se à mídia transnacional – o desenvolvimento de tecnologias que suplantam a delimitação geográfica antes imposta pela cultura impressa dos jornais, em especial a internet, o telefone móvel, a televisão via satélite, etc – o pesquisador afirma que

O ambiente da mídia contemporânea [...] reflete uma mudança quantitativa e qualitativa profunda nas relações entre mídia, cultura e sociedade. Hoje, experimentamos uma midiatização intensificada da cultura e da sociedade que não está limitada ao domínio da formação da opinião pública, mas que atravessa quase toda instituição social e cultural, como a família, o trabalho, a política e a religião. As mídias são coprodutoras de nossas representações mentais, de nossas ações e relacionamentos com outras pessoas em uma variedade de contextos privados e semiprivados, e deveríamos considerar essa revolução significativa. (HJARVARD, 2014, p. 24)

É nesse ambiente de mudança e aceleração de convergência midiática que a problemática apontada por Herbert Simon se potencializa. Com a fragmentação das vias de interação proporcionada pelo acesso cada vez mais rápido às tecnologias de informação e comunicação, aumenta o volume de informação produzida o que gera escassez de atenção. Evidência dessa problemática foi o triste fechamento de 9 marcas da Editora Abril no começo de agosto desse ano, que serve para ilustrar que com a abundância de informação e canais de informação o público deve escolher onde e como vai depositar sua atenção.


A Editora Abril é apenas uma das muitas que se encontram em um cenário ambíguo de consumo midiático. Por um lado, a diversidade de veículos oferece um potencial gigantesco. Com o amplo acesso e a mobilidade de diferentes meios de comunicação, dispositivos comunicacionais e tecnológicos configuram um campo de possibilidades aparentemente sem limites para estratégias de alcance e divulgação de mensagens. Por outro lado, coloca-se um desafio pela hegemonia entre as diferentes mídias.

De acordo com a teoria Cultura da Convergência desenvolvida no livro homônimo de Henry Jenkins, o cenário atual é caracterizado pela reapropriação de conteúdos e produção midiática cooperativa, que integra agentes como: mídia corporativa, mídia alternativa, consumidor e afins. Os produtos de novas e velhas mídias se tornam híbridos, reconfigurando a relação entre as tecnologias, indústria, mercados, gêneros e públicos. Ocorre um cruzamento entre mídias alternativas e mídias de massa, que se tornam receptivas por múltiplos suportes, caracterizando a era da convergência midiática. Entrentanto, o austríaco François Jost se contrapõe ao uso do termo convergência uma vez que

O que se coloca há alguns anos sob o nome de convergência é um processo mutável, instável, proteiforme, em que vemos do dia para a noite, de uma país a outro, inverter a hierarquização das mídias. De um lado, a televisão dita sua lei à internet transmitindo programas que são replicados em sites dedicados ou fabricando séries que são consumidas na internet; de outro lado, os sites de compartilhamento ou de vídeo on demand propõem uma alternativa ao consumo das redes. [...] Já há algumas décadas o combate entre computador, televisão e telefone continua e é bem astuto aquele que puder dizer quem ganhará. (JOST, 2011, p. 95)


Sem previsão de vencedor nessa guerra intermidiática, como apontado por Jost, marcas e empresas tentam bombardear seus consumidores em todas as possibilidades de contato. Em estudo de hábitos de consumo de mídia realizado nos Estados Unidos, o instituto SJ Insights constatou que o número de horas a que um americano adulto é exposto a conteúdos mediados por dispositivos tecnológicos cresceu de 5,2 horas em 1945 para 9,8 horas por dia em 2014.

Entretanto, o que se vê não é uma maior assertividade em comunicação, mas um exagero que muitas vezes é prejudicial tanto para marcas quanto para consumidores. O SJ Insights estima que, das 5.000 mensagens publicitárias a que os cidadãos dos EUA são expostos diariamente, 153 sejam efetivamente notadas, 86 gerem algum tipo de lembrança e 12 sejam capazes de despertar alguma motivação. Mas então, como receber a atenção desse consumidor tão saturado de informação? A resposta talvez esteja em nossa evolução.

Para o Dr. John Medina, em seu livro Brain Rules (em inglês), existem três tipos de estímulos que geram atenção:

• Ameaça de morte: nossa necessidade de sobrevivência;
• Sexo: conteúdo sexual remete a nossa necessidade de reprodução para preservação da espécie;
• Emoções e necessidades: tudo aquilo que nos faz humanos.


Graças ao processo evolucionista que passamos, temos tendência a prestar atenção em informações passadas em um formato narrativo que contemple esses três estímulos. Não é a toa que comerciais e produtos de entretenimento vêm recheados desses elementos. Desde anúncios de venda de carros a séries premiadas como Game of Thrones, por exemplo, o Storytelling se faz necessário para cativar a atenção do público. Uma história bem contada uma vez pode valer mais do que 10 anúncios disparados em sequência.

Sendo assim, em uma cenário de guerra intermidiática o Storytelling pode vir como um tiro certeiro no público que se deseja atingir, ao invés de um lançamento de granada como muitos anunciantes fazem. No lugar de um “Quer pagar quanto?” a praticamente cada intervalo comercial, o anunciante que contar uma história que passe sua mensagem pode ter resultados muito mais satisfatórios e distribuir melhor seus gastos em comunicação ao mesmo tempo. Sabe aquela velha história do menos é mais? Então, ela também se aplica aqui. E o consumidor agradece.


Verdade seja dita, as grandes livrarias tentaram. E tentaram muito desde o começo dos anos 2000. Mudaram de cara, ofereceram experiências, ampliaram suas ofertas e se tornaram templos de cultura ao invés de simples pontos de venda. Mas a realidade é que nada disso adiantou e o mercado editorial brasileiro encolheu 21% entre 2015 e 2018, fazendo muitos olhos se voltarem com atenção para os movimentos das grandes redes de livrarias. A Fnac chegou a divulgar em um balanço global que sairia do Brasil, mas no dia seguinte retificou o discurso e afirmou que procurava um parceiro para comprar parte da empresa. A Cultura, segundo o jornal Folha de S. Paulo, estaria estudando uma fusão com a Saraiva no ano passado e dando sinais de preocupação, como recontagem de estoque.


Segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a expansão experimentada pelo setor editorial entre 2006 e 2011, quando o faturamento chegou a 7 bilhões de reais, caiu nos anos seguintes, somando um prejuízo de cerca de 1.4 bilhão de reais ao final do ano passado. Esse prejuízo foi acompanhado pela redução do número de livrarias de 20% de 2013 para cá – o Brasil tem hoje cerca de três mil, segundo a Associação Nacional de Livrarias (ANL) – e dos atrasos nos pagamentos às editoras.

Entre diversos responsáveis pela crise no mercado livreiro podemos citar problemas econômicos, questões culturais que afetam o interesse pela leitura e um cenário de novas tecnologias, onde canais de compra e seu principal produto em si, o livro, tornam-se cada vez mais digitais. Mas, independentemente do responsável, uma coisa é óbvia: o mercado está passando por uma transformação. E com essa transformação surgem oportunidades para novos formatos. Ou melhor, formatos antigos.

Enquanto o mercado livreiro brasileiro entrava em crise, o americano recebia uma nova tendência. Em 2011 quando a Amazon levou a gigante megastore Borders à falência, livrarias independentes de bairro voltaram a surgir. Como uma queimada no cerrado, que leva embora árvores gigantescas produtoras de sombras que não deixavam florescer nada no lugar que ocupavam. Entre 2009 e 2015 a ABA (American Booksellers Association, não o grupo musical sueco dos anos 70) registrou um aumento de 35% no número de livrarias independentes, de 1651 para 2227.


De acordo com Ryan Raffaeli, pesquisador da unidade de Comportamento Organizacional da Universidade de Harvard, o ressurgimento das livrarias independentes no mercado americano se deu por três “C”s:

Comunidade – Sentimento dos shoppers e consumidores de apoiarem sua comunidade local.
Curadoria – Foco na seleção de itens nos respectivos inventários para oferecer uma experiência de compra mais pessoal e especializada.
Convocação – A promoção do negócio como espaço cultural que reúne pessoas com interesses intelectuais em comum a partir de eventos e experiências que ampliam a compra.

Do outro lado do mundo, na China, algo similar aconteceu. Em 2015, livros vendidos online registraram mais um recorde de crescimento, com um aumento de 33% de um ano para o outro, fechando diversas megastores e livrarias tradicionais pelo país. Os vendedores de livros sobreviventes acabaram aos poucos virando marcos culturais das cidades da China, como a Sanwei Bookstore em Pequim, a Zhongshuge em Xangai, a Librairie Avant-Garde em Nanquim, a Sisyphe Bookstore em Guizhou e a Xiaofeng Bookstore em Hangzhou.


Com as dificuldades das livrarias tradicionais chamando cada vez mais a atenção do grande público, o governo chinês lançou políticas e soluções para dar apoio aos vendedores de livros, na tentativa de garantir a sobrevivência de negócios restantes e gerar o nascimento de novos estabelecimentos. Desde 2013, o Ministério das Finanças e a Administração Estatal da Imprensa, Indústria Editorial, Rádio, Cinema e Televisão iniciaram projetos-piloto para apoiar as livrarias. Em 2014, começou o trabalho em 12 cidades, incluindo Pequim, Xangai, Nanquim e Hangzhou, com 56 lojas recebendo um total de 90 milhões de yuans em apoio financeiro. Em 2015, o trabalho piloto de apoio a livrarias em instalações de alvenaria expandiu-se para 16 cidades e províncias, resultando em um crescimento de 12,8% em relação ao ano anterior.

No Brasil, a tendência das livrarias independentes já chegou, mas ainda não é notável. A realidade é que megastores como a Livraria Cultura e a Livraria da Vila são pontos culturais consolidados em diferentes cidades do país e oferecem experiências de compra incríveis replicadas para diferentes unidades de suas cadeias de lojas. Esses gigantes do varejo ainda chamam mais atenção do que as livrarias de bairro, oferecendo espaços agradáveis atrelados a serviços diferenciados. Porém, o maior problema dos novos entrantes desse mercado tem um diferencial no Brasil que dificulta muito mais as coisas do que nos EUA e na China: não há um bom incentivo para empreender! Mesmo assim, alguns pequenos empresários encaram de frente as dificuldades e montam suas próprias livrarias movidos por paixão.


O diferencial da oferta de livrarias independentes muitas vezes não está no serviço prestado, mas nos produtos. O que se observa no cenário do mercado livreiro nacional é um panorama diferente do resto do mundo com a consolidação de megastores diferenciadas como centros culturais estabelecidos, enquanto livrarias independentes tornam-se ícones de cultura urbana, como a Comix Book Store, a Parada Literária da Consolação, a Freebook, a Livraria da Esquina, a Haikai, a Tapera Taperá, entre outras, oferecendo produtos de nicho para seus shoppers. E, por sua oferta nichada, esse modelo transforma livrarias em “joalherias”. Muitas das obras oferecidas em seus catálogos são consideradas artigos raros, oriundos de autores e editoras independentes, itens de colecionadores, importação ou produção de baixa tiragem. É dessa forma que esse novo modelo de negócio está sendo bem-sucedido, ao mesmo tempo que impulsiona editores independentes. Logo, a livraria independente brasileira não atrai seus shoppers apenas pela experiência de compra em um espaço diferenciado, mas por um tipo de oferta que as grandes redes não têm acesso ou, simplesmente, interesse.


A história dessa mudança nas livrarias ainda não acabou e tem muitas páginas pela frente. Não se sabe até onde a influência digital vai sacudir as coisas, ou se as grandes redes continuaram gravadas nos seus respectivos papéis. Mas, seja como for, uma coisa é certa: para quem quer ser editor, autor ou livreiro independente, o momento é de aproveitar a oportunidade de participar de um novo capítulo nesse mercado.



"Steh, quero escrever um livro. Me ajuda?!". Desde quando lancei meu livro, GiraMundo, essa é uma das frases que mais escuto. A continuação da conversa é mais variada, mas geralmente permeia pelos caminhos de como começar a escrita, maneiras de publicação ou detalhes técnicos. Já quero adiantar que não sou nenhum George Martin ou Yuval Harari, mas minha obra foi muito bem avaliada e vira e mexe está entre os dez mais do dia em duas categorias da Amazon. Sendo assim, acho que posso dar um conselho ou outro que será útil caso você queria começar a escrever.

Meu livro é sobre a viagem que fiz em 2015 e mudou minha vida. Estava puto com tudo, liguei o foda-se e comprei uma passagem só de ida para Roma, onde deixei meu dinheiro e passado para trás e parti pegando carona rumo a Jerusalém em busca de Deus (na sentido mais amplo possível) e de mim mesmo. No caminho encontrei paixões na Estrada, quase morri algumas vezes e fui realmente iluminado. Depois acabei indo morar em Ibiza onde curti a vida adoidado em um estilo muito mais hardcore que o icônico Ferris Bueller. Essa história e as histórias que fazem parte dela me ensinaram muita coisa. Ensinamentos que tentei passar no meu livro. E esse é o primeiro conselho que te dou caso você queira escrever. Como assim? Qual conselho? Esse aqui, ó: passe ensinamentos! Desde a Idade da Pedra contamos histórias para lições serem passadas para frente. Para que a roda não tenha que ser inventada de novo e para que ninguém morra comendo o que não deve. Então, antes de escrever a primeira letra maiúscula no topo de uma página em branco, pense nos ensinamentos que você quer passar adiante.


Tudo certo até aqui? Pensou no que você quer ensinar para sua audiência? Beleza, pode começar a escrever... só que não. Para o livro ser bom mesmo, antes de você começá-lo, tem que pensar em uma pergunta que será respondida no final da escrita. E você não pode saber a resposta. Pode ter hípoteses, mas a resposta será uma jornada de autodescobrimento sua. Tipo: "Será que servem cerveja no inferno?"; ou "Androides sonham com ovelhas elétricas?" (dois títulos de livros reais, que dão ótimas perguntas a serem respondidas/descobertas de diferentes formas no final do processo). Escolha bem sua pergunta, porque não dá para mudar depois. Ou até dá, mas sua obra corre o grande risco de ficar uma coisa esquizofrenica.

Para qualquer história ser contada, existem cinco elementos básicos de Storytelling a serem considerados: Personagens (com quem sua audiência estabelecerá uma relação emocional), Templo/Local (onde e quando se passa sua história), Estilo (o jeito de conduzir seu público pela narrativa), Enredo (como os elementos se relacionam) e Tema (sobre o que se trata sua história). Abordo cada um desses cinco elementos de forma lúdica e profunda em outro texto desse blog no seguinte link, caso você tenha curiosidade. Esse é meu último ponto para você considerar antes de começar a escrever. Agora pronto, está liberado, vamos começar.

O começo de qualquer coisa dá medo e escrever um livro não é diferente. Por isso uma página em branco intimida muito. Então, como começar o "começo" da história? Bom, o começo da sua narrativa tem sempre que dizer sobre o que ela se trata. O ideal é que nos primeiros parágrafos o leitor já descubra sobre o que você está falando. Deixe isso claro para ele. Saber disso já é um grande avanço para começar o "começo". Daí para frente tudo fica mais fácil.

O caminhar do seu livro pode seguir diferentes formatos. Desde "A Jornada do Herói" de Joseph Campbell até o modelo Pixar de criação de conteúdo. Vai de você. Mas seja qual for o formato, dê picos de excitação para sua audiência ao construir o "recheio" em meio ao andar da carruagem. Existem três pontos de conteúdo que nossos cérebros nos obrigam a prestar atenção: situações de quase morte, conteúdo sexual e momentos empáticos. Cada um desses pontos está ligado à evolução da nossa espécie e ao nosso passado ao redor das fogueiras. Seja por necessidade de sobrevivência, reprodução ou simplesmente pela nossa humanidade em si, aprendemos a prestar atenção à histórias com esses atributos. Então pense em colocá-los como linhas de batimentos cardíacos entre momentos cotidianos da narrativa para manter seu público interessado e ao mesmo tempo não sobrecarregá-lo de acontecimentos.



O último toque que dou a respeito de construção de conteúdo é uma opinião pessoal minha. Quando entrevistei Walcyr Carrasco na Rota da Tocha Olímpica descobri o motivo do sucesso das suas obras: ele transcreve a própria essência. E eu tentei fazer a mesma coisa com meu livro, o que deu muito certo. Esse detalhe é bem ilustrado logo no começo desse texto. Eu falo palavrão, sou agressivo, brincalhão, desbocado e adoro figuras de linguagem que envolvem a cultura pop. Foi muito mais fácil e natural escrever meu livro do jeito que eu falo e sou do que mascarando a mim mesmo por trás de algum outro tom de voz menos polêmico. Mas aí vai de você o jeito que quer transcrever sua história e se expor.

Começo e miolo prontos, agora só falta o final. E o final é simples. Basta responder aquela pergunta que você elaborou antes mesmo de colocar a primeira letra maiúscula no topo da primeira página em branco. Depois disso é só se despedir da audiência de uma forma condizente com a trajetória da narrativa. Fim. Fim?! Não, espera aí, tem muito mais coisa.

Depois do conteúdo pronto você pode buscar uma editora ou virar um autor independente, como foi meu caso. Escolhi esse caminho simplesmente por não querer ficar preso a nenhum contrato e ter total poder de decisão sobre meu livro. Confesso que fui muito feliz com minha escolha, diferente de amigos que conheci que se foderam na mão de editoras incompetentes ou mal intencionadas ou incompetentes e mal intencionadas (embora outros amigos escolheram editoras que foram grandes diferenciais no sucesso de suas obras).

O bom de optar por uma editora é que você já tem tudo organizado e não precisa se preocupar com "nada". Já como autor independente você precisará encontrar e dirigir seu capista (quem faça sua capa), seu revisor, seu diagramador e tirar os documentos necessários. Você será seu próprio editor e chefe. Então se dedique. E não pense que qualquer um desses serviços é dispensável. Economize na cachaça do final de semana, mas não na produção do seu livro. Muita gente julga um livro pela capa, então procure um designer/diretor de arte com portfólio similar ao que você deseja para chamar a atenção do seu público. Revisor é extremamente necessário para que nenhum erro de português escape ou algumas passagens da história não fiquem confusas para seus leitores. Diagramador nem preciso falar, né?! É desconfortável ler alguma coisa que parece que foi feita no Word de qualquer jeito e sem espaçamento correto. Todos esses serviços você consegue achar em sites especializados ou simplesmente pela recomendação de amigos via redes sociais. O mesmo pode ser dito das medidas de capa (como lombada, orelha e faces) e miolo (contando com lombada e sangria ideais para diagramação). O que eu mais penei para descobrir foi o tipo de papel para ser utilizado. Fiz uma pesquisa para ver o melhor custo benefício e cheguei no Supremo Alto Alvura 250 gramas para capa e Pólen Soft 80 gramas para o miolo.

Recomendo fazer todo esse processo de edição depois de tirar os documentos requisitados para proteger seus direitos autorais e para a comercialização do seu livro. São eles o ISBN (http://www.isbn.bn.br) e a Ficha Catalográfica (http://cbl.org.br/servicos/ficha-catalografica). O código de barras do ISBN geralmente é colocado na contracapa do livro enquanto a Ficha Catalográfica entra na folha de rosto. Tanto seu capista quanto seu diagramador vão te agradecer se você já tiver ambos em mãos. E tem mais uma coisinha que vale a pena ser feita antes do processo de edição: mandar o material para alguns leitores beta.

Minha história inteira era muito clara para mim. Mas quando escrevi algumas partes, passei uma impressão ruim que pude perceber por causa dos meus leitores beta. Eu mandei o manuscrito do meu livro para 10 amigos antes de publicá-lo e registrei críticas e observações recorrentes que indicavam a necessidade de mudanças ou melhorias. Fez toda a diferença no resultado final da obra.

Bom, livro escrito e produzido. O trabalho acabou? Não! Falta a divulgação. O que eu fiz foi escrever artigos gratuitos para diferentes portais contando sobre minhas aventuras e loucuras, participei de lives com influenciadores digitais de viagem e dei palestras pocket para diferentes públicos. Daí para frente, a coisa viralizou e espero que ela também viralize para você.

Se você chegou até aqui, deve ter percebido uma coisa: escrever um livro dá trabalho. E cansa, ah, como cansa! Mas também é uma coisa extremamente gratificante. Quando vejo que estou no topo do ranking da Amazon ou recebo alguma mensagem de um leitor, fico extremamente feliz e orgulhoso. Como se fosse um rockstar e escutasse minha música tocando na rádio. Ou fosse jogador de futebol e me visse na televisão fazendo um golaço. A moral dessa história toda de ser escritor é a seguinte: escrever um livro dá trabalho, ansiedade e estresse, mas vale totalmente a pena!

Um dia desses vi um Stories do Instagram mostrando uma cena de um grupo armado usando macacões vermelhos e máscaras de Dali. Não entendi direito do que se tratava, nem mesmo pela legenda escrita "La Casa de Papel" somada a um emoji de coração. Algum tempo depois, fuçando meu feed de notícias do Facebook, vi uma resenha que um amigo fez sobre uma série espanhola disponível no Netflix. Não li a resenha, mas, batendo o olho na imagem de divulgação da postagem, percebi que se tratava do mesmo assunto que o Stories descrito anteriormente. Pouco tempo depois, quando menos percebi, minhas redes sociais foram tomadas de assalto por criminosos que planejaram um rouba à Casa da Moeda da Espanha. Eles primeiro sequestraram minha curiosidade para logo em seguida começarem as negociações pela minha atenção.


Foi em uma tarde de domingo chuvosa, daquelas sem nada melhor para fazer, que resolvi me render e descobrir do que se tratava aquele hype todo. Não sei bem explicar o motivo, mas ultimamente a maioria das séries perdem a disputa dos meus pensamentos para meu Tinder, Whatsapp ou Instagram. Por isso, comecei a ver La Casa de Papel com o celular na mão, revezando a mira dos meus olhos distraidamente como o segurança de um banco em mais um dia de trabalho. O monólogo inicial da série me fez pensar que em instantes eu estaria desligando o computador e combinando de encontrar alguém em algum lugar. Mas fui enganado. Aquele monólogo foi uma breve distração para que eu baixasse minha guarda. Depois dele, a série ganhou velocidade, dinamismo e emoção que me renderam e me distanciaram do meu celular, sem pedido ou intenção de resgate.


La Casa de Papel é uma minissérie espanhola criada pelo produtor Álex Pina. A trama gira em torno de um grupo de ladrões, hackers, especialistas em armas e falsificadores que são reunidos por um homem misterioso, conhecido como Professor, na missão de invadir o prédio da Casa da Moeda espanhola e roubar a maior quantia da história direto da fonte. Para garantir o êxito na tarefa, os criminosos seguem um plano meticuloso envolvendo reféns e interceptações nas comunicações da polícia que geram inúmeros plot twists dignos de fazerem a audiência torcer para os "vilões".

É inegável a similaridade da série com a trama do filme americano O Plano Perfeito (2006). Na verdade, tenho a ousadia de dizer que tenho a mais absoluta certeza de que Álex Pina se baseou no filme para elaborar o meticuloso plano do Professor. Entretanto, La Casa de Papel toma um rumo de heist mais latino, temperando sua história com elementos amorosos, pessoais e dramáticos que jamais passariam pela cabeça de um produtor americano. Esses mesmos elementos muitas vezes beiram ao absurdo, mas têm o poder de conquistar a audiência por algo extremamente valioso em Storytelling: empatia.


ALERTA SPOILERS

Então, vamos lá. Temos um plano de roubo genial e um conflito envolvente entre polícia e ladrões. Até ai, beleza, legal, mas nada de novo (especialmente pela similaridade com O Plano Perfeito). Então a história ganha tempero latino. O enredo é enriquecido com toques de pimenta, sal, açúcar, canela e limão e envolve a audiência de forma empática. Um casal de ladrões começa uma relação amorosa praticamente impossível, com uma problemática de idade que eu, particularmente, não pude deixar de me relacionar (o homem da relação é muito mais jovem do que a mulher, coisa que já vivi algumas vezes). Uma refém está grávida de seu chefe, que também é mantido como refém e é casado, e acaba conquistando o coração de um dos seus sequestradores. Outra refém, peça fundamental do plano, sofre bullying dos colegas de colégio também sequestrados com ela. A inspetora responsável pela operação acaba de se divorciar do marido por sofrer maus-tratos e acaba se envolvendo com o Professor, sem saber sua verdadeira identidade, durante os intervalos do expediente. São inúmeros os exemplos que ganham o público pelo coração, apesar de beirarem ao absurdo. E é isso o mais legal de La Casa de Papel. É um heist com traços de novela!


A série muitas vezes chega perto de passar o limite do tolerável nesses traços. Talvez até tenha passado em alguns momentos. Por exemplo, chega a ser quase ridículo pensar que uma inspetora de polícia cuidando de um caso com visibilidade e repercussão mundial tenha cabeça para ficar preocupada se o crush vai ligar ou dar bolo no date. Ou que uma ladra fique com ciúmes do namorado com uma refém durante o sequestro. Ou, em especial, o contraste absurdo entre o plano brilhante desenhado pelo Professor e as personalidades emotivas demais e quase nada profissionais que ele escolheu para o serviço, muito diferente do que se vê em filmes e seriados americanos, com criminosos frios e calculistas ao extremo. Entretanto, essas fraquezas na trama chegam até mesmo a se transformarem em força pela construção dos personagens. La Casa de Papel é narrada de um jeito que o público não apenas compra as histórias secundárias dentro da história principal, como ainda torce para elas darem certo. A inspetora deveria estar mais preocupada com o caso do que em arranjar um novo namorado? Dane-se, coitada, ela já passou por tanta coisa que merece um date legal no final do dia. A ladra fica com ciúmes no meio do sequestro? Que bom, quer dizer que ela ama o namorado, apesar do caso dos dois ter tudo para dar errado. Nenhum dos criminosos é realmente frio e calculista? Bom, eles são humanos como todo mundo!

Entre todas as lições de Storytelling que podemos extrair de La Casa de Papel, a maior delas, na minha opinião, é a seguinte: se sua audiência gostar dos seus personagens, ela vai comprar suas histórias. Sendo assim, estabelecendo elos emocionais e gerando empatia, até mesmo pontos fracos podem virar pontos fortes. E, com isso dito, quero fazer um paralelo com a série Black Sails.

Black Sails narra as aventuras do Capitão Flint e seus homens, personagens famosos pelo clássico da literatura escocesa "A Ilha do Tesouro", de Robert Louis Stevenson. Situada na segunda metade do século XVIII, a série mostra esses personagens 20 anos antes dos acontecimentos narrados no livro, lutando contra a marinha britânica pela sobrevivência do seu paraíso criminoso e estilo de vida. O problema de Black Sails é a dificuldade da audiência em se relacionar positivamente com algum dos personagens. A história é boa, a produção é excelente e o universo da trama é incrível. Mas o público se encontra cheio de personagens mentirosos, corruptos e covardes, que simplesmente não conquistam sua admiração. Dá para entender a diferença entre uma série e outra?


A Netflix lançou no Brasil 13 episódios de La Casa de Papel, reeditados de 9 episódios do formato original, com aproximadamente 50 minutos de duração. A “2ª temporada” (que na verdade é a segunda parte da 1ª temporada) terá 6 episódios, que serão lançados em 6 de Abril de 2018 pelo serviço de broadcast. Se você ainda não foi sequestrado pelo hype da série, fique atento. Quando você menos esperar, será mantido refém na frente do seu computador por espanhóis usando macacões vermelhões e armados com fortes emoções.




No sábado levei duas garrafadas, uma na cabeça e outra na cara. Eu ganhei uma luta e perdi uma briga. E, talvez, tenha aprendido uma valiosa lição no final dessa história que quero compartilhar com você. Afinal, é para isso que servem histórias, para aprendermos lições.

Eram 19h00 quando saí da agência onde trabalho. Cansado depois de terminar um projeto importante, mas com aquela sensação de dever cumprido, tinha certeza que voltaria direto para casa e deixaria meu primeiro bloquinho de carnaval de rua da Vila Madalena para outro dia. Entretanto, enquanto eu caminhava até a estação Fradique Coutinho do metrô, uma multidão levando glitter por onde passava me fez acreditar que eu poderia tentar espremer o bagaço da laranja para ver o que restava.

Mandei mensagens para alguns amigos e comecei a caminhar no contra fluxo. Encontrei conhecidos boêmios pelas ruas e paixões antigas que minha memória não era capaz de me dizer se foram concretizadas ou apenas platônicas. A cada passo que eu dava, saía cada vez mais do meu trabalho e entrava no Carnaval. Ou melhor, o Carnaval entrava em mim.



Quando menos percebi, estava sem camisa brilhando (tanto literal quanto metaforicamente falando) no meio de uma multidão de foliões. Pela mão esquerda virava uma garrafa de Catuaba e pela direita uma de vodka. Quando não estava com a boca cheia de bebida, aproveitava para flertar aleatoriamente com algumas meninas que se mostravam interessadas em mim ao mesmo tempo que eu me mostrava interessado nelas. Foi em um desses momentos de troca de interesse que aconteceu a primeira briga.

Eu e meus amigos conversávamos tranquilamente com um grupo de meninas tentando descolar um copo com gelo de um vendedor ambulante quando duas outras meninas, que tinham se distanciado do grupo, voltaram extremamente irritadas.

         - Meu, vocês não vão acreditar! - gritava uma delas. - Aquele cuzão de máscara passou a mão na minha bunda.

         - E ainda me chamou de filha da puta quando eu não quis ficar com ele - complementou a outra.

Eu olhei na direção de onde as duas tinham vindo e vi o cara de máscara que, coincidentemente, incomodava mais duas outras meninas.

          - Que cara babaca - eu disse, tentando servir de consolo.

          - Gente, eu não posso deixar isso assim - continuou a primeira menina. - Eu vou tacar um copo de bebida nele. Mas... e se ele vier para cima de mim...?

Ela tinha razão de fazer o que queria. E não deveria se sentir nenhum pouco intimidada por repreender um filho da puta daqueles. Quem deveria se sentir intimidado era ele.

          - Vai fundo - incentivei. - Se ele fizer alguma coisa, deixa com a gente.

Ela jogou o copo. O mascarado, para a minha surpresa, não ficou envergonhado e jogou o copo dele de volta. Aquilo foi demais.

          - Você tá louco?! - eu gritei, indo em direção a ele. - Vai passar a mão na bunda de mulher, chamar outra que não quis ficar contigo de filha da puta e ainda quer jogar copo de bebida?! Você tá louco, cuzão?!

Uma roda se abriu formando um ringue provisório comigo e o mascarado no centro. E o mascarado resolveu retrucar.

          - Você se acha forte porque está sem camisa? - disse ele me encarando e tirando sua máscara e sua camiseta. - Eu também sou forte.

Em seguida, meio que imitando uma cena de briga de rua de filme B de artes marciais, começou a chutar o ar achando que fosse me intimidar. Não funcionou. Especialmente porque, naquele momento, vendo que a treta estava para começar, o público ao redor começou a gritar: "Jesus! Jesus! Jesus!". Não, eles não eram religiosos ou algo do tipo. É que eu sou barbudo e cabeludo e muita gente me chama assim em festas no geral.

Eu esperei até o Van Damme do bloquinho parar sua sequência de espacamento de ar e fui para cima. Com um chute na bunda dele, a briga acabou. Ele simplesmente não esperava por aquilo.

           - Oh, mano! - disse com a mão no rabo e o rabo entre as pernas - Para com isso. Não quero brigar...

           - Então respeita as minas, caralho! - quando falei isso, a galera foi ao delírio.

Voltei para o grupo onde eu estava antes e a menina que jogou o copo de bebida no mascarado me deu um abraçado bem apertado, me agradecendo com lágrimas nos olhos. Nós não ficamos, nem trocamos telefone e muito menos flertamos. O que aconteceu foi algo totalmente livre de segundas intenções. Eu comprei aquela briga porque ela realmente valia a pena ser comprada (presta atenção porque a moral da história tem a ver com isso). Porque pensei no que eu gostaria que alguém fizesse se aquela desconhecida fosse minha amiga, minha namorada, minha mãe ou minha filha. Porque já estou de saco cheio de escutar mulheres dizendo (cobertas de razão) que deixam de ir em lugares por causa desse tipo de comportamento. E porque eu odiaria passar pela mesma situação. Então foi algo que valeu a pena.

Saí dali aclamado como um herói, recebendo cantada de tudo quanto era canto e gente vindo me cumprimentar. E isso mexeu comigo. Mexeu de um jeito que tentarei explicar usando um processo neuroquímico de lagostas (não é zuera).

Recentemente assisti a uma palestra de um professor e psicológo canadense chamado Jordan Peterson, autor do livro 12 Rules for Life. No começo dessa palestra, Peterson afirma que serotonina rege status, regula emoções e postura em humanos de forma similar ao que faz por lagostas. Então, de acordo com ele, se uma lagosta é derrotada em uma batalha de domínio de grupo, você pode dar a ela antidepressivos para que lute de novo. E, assim sendo, uma lagosta líder tem naturalmente altos níveis de serotonina, enquanto lagostas em níveis hierárquicos baixos tem baixos níveis de serotonina. Logo, você pode mudar a hierarquia em um grupo de lagostas simplesmente manipulando seus níveis de serotonina. E, seguindo essa linha de estudos e raciocínio, Peterson faz uma correlação biológica com as "batalhas" humanas pelo domínio e ascenção em hierarquias. Segundo ele, essas "batalhas" afetam como o sistema das pessoas envolvidas responde ao mundo através de processos neuroquímicos, fazendo-as experimentarem mais ou menos emoções positivas e negativas de acordo com suas "vitórias", de uma forma similar ao que ocorre com as lagostas. Exatamente por isso pessoas defendem tão ferozmente suas ideias, de forma a estabelecerem sua autoridade em diferentes cadeias hierárquicas para não passarem por processos neuroquímicos que as coloque para baixo (expliquei de forma resumida, mas você pode entender melhor vendo o vídeo abaixo).



Depois daquela primeira briga, eu me sentia uma lagosta alpha. Falando de forma grosseira, eu era a lagosta fodona com quem as outras queriam acasalar ou respeitavam a posição (tipo gorilão da bola azul). Foi por isso que entrei na segunda briga. E foi também por isso que perdi a segunda briga.

Eu andava para cima e para baixo da Aspicuelta fazendo novas amizades e me divertindo com meus amigos. Foi em uma dessas andaças eu esbarrei em um pivete. Ou talvez nem tenha esbarrado (pelo menos um dos meus amigos disse depois que não esbarramos em ninguém). O pivete veio atrás de mim me apontou um dedo e disse:

            - Você vai trombar com os moleques da quebrada? A gente vai te arrebentar!

Eu, em meu estado lagosta alpha, ouvi aquilo e nem pensei antes de responder:

            - Escuta aqui, seu pivete de merda, se você falar mais alguma coisa dessas eu te enterro com um soco no chão.

Grande erro. Não que não fosse verdade, mas foi algo totalmente desnecessário, movido por ego e bebida.

O primeiro pivete estava acompanhado por outros cinco caras que não me intimidavam nenhum pouco, apesar de eu estar acompanhado por apenas mais dois amigos que não são de brigar. De repente, começaram a surgir outros membors do grupo de "moleques da quebrada", que também não me metiam medo.

           - A gente é bandido da quebrada, vai tirar? - gritou outro, chegando perto demais da minha cara.

Eu tirei. Meti um soco no meio da cara dele. E meti um soco no cara do lado também. E acho que chutei um terceiro. Briga de rua, na vida real, é bem diferente dos filmes. Tudo parece muito mais rápido e lento ao mesmo tempo. Como em um sonho, que você lembra de imagens, mas esquece o contexto. Um dos meus amigos, que estava ficando com uma menina na hora que tudo aconteceu, disse que me viu longe, estrangulando um cara enquanto usava o mesmo de escudo para outros dois não me acertarem. Eu lembro que soltei o "bandido da quebrada" para me defender de um outro que tentou me atacar por trás. Fiz isso de um jeito rápido, fácil e eficaz e até achei que a briga tinha acabado e que eu tinha vencido de novo quando meus amigos começaram a separar a confusão. Mas eu estava enganado. O "bandido da quebrada", livre do meu estrangulamento, foi até um vendedor ambulante, pegou uma garrafa de cerveja e jogou na minha cabeça. Eu passei a mão no couro cabeludo para ver se estava sangrando, e foi quando abaixei a guarda desse jeito que o filho da puta jogou a segunda garrafa. Essa acertou em cheio na minha cara e abriu minha sombrancelha.

Se você já jogou Call of Duty vai entender minha sensação naquele momento. Eu senti que meu avatar estava prestes a "morrer", vi tudo mais lento com gotas de sangue embassando minha visão, a única coisa que conseguia escutar era um zumbido chato pra cacete e sabia que tinha que ir para um lugar seguro. Por praticamente um milagre, nenhuma outra garrafa me acertou, ninguém conseguiu ir atrás de mim graças aos meus amigos e eu fiquei em um lugar seguro onde eles me encontraram pouco tempo depois para me levarem para o hospital.


O preço dessa segunda briga foi um corte na minha sombrancela, que me deixará com uma cicatriz parecida com a do Aquaman e um hematoma no meu olho que vai durar pelo menos dez dias até desaparecer. E o que eu ganhei foi uma lição muito importante, que vou contar logo depois de usar um exemplo de um filme para ilustrá-la melhor.


No domingo, enquanto estava de repouso obrigatório após o episódio aqui narrado, vi War Machine, no Netflix. Apesar do filme ter sido considerado fraco pela crítica, confesso que achei sensacional. Talvez pela temática que muito me agrada ou pela atuação caricata do Brad Pitt. A história é uma sátira de guerra inspirada no general Stanley McChrystal, ex-comandante dos EUA no Afeganistão. Uma das críticas mais fortes do filme é contra a visão e estratégias usadas na guerra contra insurgentes que, segundo o narrador, é travar uma guerra contra o povo de um país que você não deveria ter invadido e tentar convencê-los de que você é o mocinho da história. Na minha segunda briga, eu fiz o que os Estados Unidos fez ao invadir o Afeganistão. Eu me senti ameaçado, ataquei, praticamente venci (tirando a parte do meu rosto atingida pela garrafada, eu não tenho nenhuma outra marca ou machucado) e depois tomei um prejuízo enorme que poderia ter simplesmente sido evitado não entrando naquela confusão. E, como o general Glen McMahon (personagem de Brad Pitt em War Machine), fui derrotado pelo meu ego. Os EUA perderam homens, bilhões de doláres, reputação e tempo. Eu quase perdi um olho.



A lição que aprendi e que quero passar para você contando essa história é: saiba escolher suas batalhas, e eu não me refiro apenas a "brigas de rua". Saiba escolher também suas batalhas pessoais, profissionais, acadêmicas, amorosas ou em qualquer outra vertente que seja. Existem motivos que pedem para a gente se impor e existem motivos que pedem para a gente dar as costas e sair andando. Reprimir um comportamento machista e babaca, por exemplo, foi uma causa que valeu a pena comprar uma briga, mesmo se eu tivesse apanhado. Brigar com "moleques" da quebrada simplesmente porque eles queriam brigar foi um erro, e teria sido um erro mesmo se eu tivesse batido. Quando entrei na primeira briga, venci. Quando entrei na segunda, perdi. E o preço para aprender essa lição pode ser alto. Ás vezes um emprego, outras um amor ou até mesmo uma amizade. No meu caso, saiu barato. Vou ficar com uma cicatriz maneira e só. Mas poderia ter perdido meu olho, como ainda posso perder se não aprender a lição que essa história tentou me ensinar.

É olhando minha vida através do Storytelling que eu percebi esse ensinamento. E é a partir dessa mesma ótica que vou colocá-lo em prática. Final de semana tem bloco e eu pretendo escrever uma história com um final muito diferente do último sábado.

Dia desses conversava com um amigo que me disse: “Os seriados são a era de ouro do Storytelling”. Acho que ele tem razão. Fiquei pensando em quantas vezes eu fiquei acordada até tarde, mesmo quando não podia, para ver mais um capítulo do meu seriado favorito. E, mesmo depois de dormir sonhava com o personagem, e acordava de “ressaca” por ter salvado a embaixada americana de um ataque terrorista.

Sei que estou atrasada, mas já assistiu Homeland? Esse é o que me viciou no último mês e agora falta pouco para acabar toda a série. É uma história intrigante sobre o luta contra o terrorismo e os bastidores da CIA que praticamente acontece em tempo real: a quinta temporada foi uma aula para entender o que está acontecendo na Síria.

A série é super bem produzida e já foi indicada para diversos prêmios. A protagonista, interpretada pela Claire Danes, ganhou 3 Golden Globes de melhor atriz pela série. E o roteiro é um prato cheio para quem gosta de storytelling. O seriado usa 4 regras de ouro do Storytelling que o seriado usa de forma precisa. Quer conferir?

1) O personagem tem que ter um desejo e ser capaz de praticamente qualquer coisa para poder realizá-lo. No caso da Carrie é lutar contra o terrorismo nos Estados Unidos depois do atentado de 11 de setembro;

2) É necessário que o personagem tenha um obstáculo. Carrie é brilhante e (quase) sempre tem uma boa idéia na manga, mas ela foi tem um distúrbio psíquico grave, é bipolar, portanto, nem sempre suas hipóteses são confiáveis;

3) É preciso que aconteça algo extraordinário. Já imaginou um fuzileiro naval ter voltado para os EUA depois de 8 anos no Afeganistão e talvez estar trabalhando para o Talibã? É recebido como herói, mas a única pessoa que suspeita do que ele está fazendo é Carrie, que como mencionado, apresenta um distúrbio psíquico grave...

4) O personagem tem que se transformar ao longo da jornada. Neste caso, não vou aprofundar se não vira Spoiler...

E você? Consegue decifrar as 4 regras de ouro do seu seriado preferido?