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uma história sobre contar histórias


– Olha a lâmpada mágica! Lâmpada mágica a preço bom e com garantia – gritava um vendedor.

– Sabres de luz! Espadas de fogo! Lâminas encantadas! – gritava outro. – Na minha mão é mais barato!

– Ovos de dragão! Ovos de dragão! – gritava um terceiro. – Tem verde, vermelho e até azulão!

Eu olhava para tudo fascinado. Não sabia em que loja entrar primeiro.

– Acho que vou querer uma daquelas – disse para meu guia.

O guia olhou para a direção onde eu olhava e indagou:

– Uma nuvem voadora?! Deixa isso para lá. É besteira. Coisa de turista. Têm coisas muito mais importantes para vermos aqui.

Pensei por um momento. Abri a boca para debater, mas a fechei logo em seguida, concordando em silêncio. Era a primeira vez que eu ia ao Mercado de Histórias. Fascinado com tudo o que via, o melhor que eu poderia fazer era escutar ao meu guia.

Fizemos algumas viradas e caminhamos rapidamente por alguns minutos. Eu continuava maravilhado com tudo o que via pelo caminho.

– Chegamos – disse meu guia esbaforido, parando em um grande espaço redondo com uma fonte no centro. – Este é o centro do Mercado de Histórias – ele continuou. Ainda bem que estávamos juntos, caso contrário eu jamais saberia encontrar aquele local sozinho. – Essa é a Fonte da Inspiração. É daqui que saem os corredores principais do mercado.


Ele fez uma pausa para recuperar o fôlego e eu aproveitei para olhar ao redor. Pude ver cinco corredores grandes e largos por entre as colunas de pedra que rodeavam o espaço da fonte.

– Escute – o guia chamou minha atenção novamente –, temos muito a ver. Por isso, espere até eu te mostrar tudo para você fazer suas aquisições. Combinado?

– Combinado – eu concordei.

– Então, vamos – ele retomou o passo, me fazendo um sinal para que eu o seguisse.

Nós caminhamos um pouco por um corredor repleto de gente. Não importava o quanto eu forçasse minha vista, me sentia incapaz de ver um final para o caminho a minha frente. Talvez por isso mesmo tenha mudado meu foco e comecei a olhar para os lados.

As lojas daquele corredor eram estranhas. Todas estavam cheias de gente. Mas nenhuma tinha algum produto exposto. Quero dizer, vi alguns robôs em uma, zumbis em outra, e até mesmo dinossauros em uma terceira. Mas será que todas aquelas coisas bizarras estavam a venda? Afinal, do que aquele corredor se tratava?!

– Esse é o Corredor dos Personagens – me disse o guia, parecendo ler a confusão dos meus pensamentos. – É aqui que você vai encontrar os personagens para sua história, um dos elementos mais importantes para a ficção. Sua audiência vai se ligar diretamente com seus personagens em uma conexão emocional que deverá manter o interesse na história.

– O que é aquela loja ali – eu perguntei, apontando um estabelecimento cheio de pessoas presas em jaulas ou acorrentadas. Aquele lugar me dava arrepios.
– É uma loja de vilões. Muito boa por sinal – ele olhou a loja comigo por um tempo. Juntos pudemos ver um palhaço de cabelos verdes em uma cela ao lado de um pirata cadavérico com as mãos e os pés presos por grilhões de ferro ligados à parede. Próximo aos dois estava um alienígena avermelhado e musculoso em uma jaula que dividia parede com a de uma bela mulher de cabelos negros, corpo perfeito e olhos esverdeados. – Cuidado com vilões – continuou o guia, saindo de seu transe. – Eles podem roubar sua história.

– Roubar minha história?! – eu ri. – Como assim?

– Isso não tem graça nenhuma. É sério! Um vilão fraco demais faz seu público perder o interesse. Mas um vilão forte pode fazer sua audiência mudar de lado e começar a torcer para ele, ao invés de para o seu herói. Você deverá saber como conduzir seu vilão para ele não roubar a história... Mas podemos conversar melhor sobre isso em outro corredor.

Andamos mais um pouco. Pude ver uma loja que parecia uma academia de boxe, com ringue de luta e uma disputa acontecendo. Vi outra que me lembrou de uma escola, cheia de garotos arrumadinhos escrevendo e estudando. Mas a que me fez parar mais uma vez foi uma loja inteira rosa e perfumada.

– Espera – pedi ao meu guia, que caminhava apressado. – Quero entrar nessa loja.

– Está bem – ele concordou. – Mas essa é a última parada antes do próximo corredor, ok?

Eu assenti com a cabeça e em seguida entramos na loja.

Eu estava maravilhado. Haviam mulheres lindas e charmosas para onde quer que eu olhasse. O lugar lembrava um pouco um palácio. Ou um harém repleto de cortesãs.

– O que essa loja vende? – perguntei.

– Essa é uma loja que está se modificando. Antigamente ela vendia somente mocinhas frágeis que precisavam ser resgatadas. Mas a demanda dos consumidores mudou. Então o dono da loja, que não é bobo, começou a importar mercadorias diferentes. Agora ele vende todo o tipo de personagens femininos: heroínas, personagens cômicos, vilãs e outros artigos. Continua vendendo mocinhas também, mas em menor escala.

Da entrada da loja pude ver uma sereia se banhando em uma piscina rústica de pedras cinzentas, próxima a uma guerreira que afiava sua espada. Mais ao longe pude ver uma garota jovem com flores no cabelo tocando violão, acompanhada de uma gueixa que preparava chá e uma mulher vestida com uma burca negra dos pés à cabeça.


– Você pode voltar depois para comprar qualquer uma delas. Só lembre-se de uma coisa: você não é o único que precisa se apaixonar pelas suas personagens...

Eu balancei minha cabeça.

– Vamos embora daqui antes que eu comece a falar com alguma delas – disse isso, dei meia volta e saí andando.

Pela primeira vez meu guia riu. Não sei se pela minha idiotice ou se por já ter presenciado aquilo antes. Pelo menos ele não tardou em me ultrapassar e voltar a liderar o caminho enquanto eu fugia desesperadamente daquela loja.

Fizemos uma virada em um pequeno corredor que vendia tesouros, roupas, pássaros e alguns tipos de armas. Eu estava tão desconcertado com a última loja que tinha entrado que não prestei muita atenção em nada até chegar a outro grande corredor.

As lojas desse novo corredor eram mais simples. Na verdade, pelas vitrines, pude apenas olhar homens e mulheres trabalhando atrás de mesas e atendendo alguns clientes. Em uma ou outra loja pude ver pequenas construções em miniaturas ou mapas na parede, mas nada que realmente chamasse à atenção como no corredor anterior.

– Onde estamos? – perguntei.

– Esse é o Corredor Tempo/Local – me respondeu o guia. – Bem simples não?

Eu olhei ao redor e concordei.

– Muitos consideram esse o elemento menos relevante da ficção – o guia continuou. – Mas existem casos que o tempo e o local ganham tanta ênfase na história que também estabelecem uma ligação emocional com a audiência. O exemplo que mais gosto de usar é de uma escola de magia e bruxaria que você, como o resto do mundo, deve conhecer muito bem.

– Sim, conheço – concordei olhando ao redor impaciente. – Mas será que podemos ir a outro corredor. Esse está meio... chato.

– Tudo bem. Mas primeiro vamos a uma loja.

Passamos por duas lojas e entramos na terceira. Um lugar sem graça com luzes brancas que ofuscavam minha visão. Eu realmente queria ir embora dali.

– Boa tarde – saudou um homem de camisa e gravata, vindo em nossa direção. – Posso ajudá-los?

– Sim, - disse meu guia -, quero ver as opções de cenários épicos que vocês têm.

– Vamos à minha mesa, será um prazer atende-los. Meu nome é Roberto e hoje eu serei seu corretor Tempo/Local.

Caminhamos até a mesa e nos sentamos em duas cadeiras vermelhas de frente para Roberto que estava se sentando do outro lado, de frente a um computador. Ele digitou alguma coisa e virou a tela para nós.

– Essas são algumas das opções que tenho para vocês hoje – ele movia a página para baixo lentamente. – Como vocês podem ver, temos bastante coisa.

Enquanto a página descia pude ver diferentes anúncios: “Mundo mágico 20000000m², repleto de florestas, mares e montanhas”; “Cidade Submarina com anfiteatro, palácio e espaço para 20000 pessoas”; “Fortaleza Ninja no Japão Medieval, com armas e armadilhas inclusas”; “Templo Sagrado na Grécia Antiga”...

– Espera – pedi. – Deixa eu ver esse “Templo Sagrado na Grécia Antiga”, por favor.

De canto de olho pude ver um sorriso brotar nos lábios do meu guia. Ele ficou satisfeito pela minha demonstração de interesse.

– Essa é uma ótima escolha! – disse Roberto, clicando com a seta do mouse no anúncio.

Roberto era realmente um bom corretor. Me mostrou todos os aspectos do templo, me deu sugestões de combinação com personagens e falou um pouco sobre temas e enredos possíveis.

– Meu amigo aqui não sabe nada sobre temas e enredos – interrompeu meu guia. – Então é melhor não tocar nesses assuntos com ele.

Roberto se desculpou, concordou e prosseguiu seu discurso abordando outros aspectos da venda. 

Meu guia conduziu as negociações dali por diante. Pediu para vermos outras ofertas. Perguntou pontos chaves. E, quando chegou a hora, agradeceu e disse que voltaríamos depois.

– Tempo/Local realmente é uma parte chata e complicada na criação de qualquer história, eu sei – ele me disse assim que saímos da loja e entramos em um corredor lateral. – Mesmo assim, é um aspecto que requer muita atenção. Lembre-se disso.

Logo chegamos a outro corredor. Um corredor estreito, com lojas que nada mais eram que balcões em frente a prateleiras vendendo...

– Chaves? – perguntei.

– Temas – respondeu o guia. - Esse é o Corredor dos Temas. Aqui você poderá encontrar a mensagem que quer passar, o que o público vai lembrar quando pensar na sua história.

Olhei pelo corredor. Apesar de estreito, era extremamente longo.

– Esse corredor parece não ter fim – disse. – Existem tantos temas assim para que ele seja tão comprido?

– Tantos quanto sua imaginação puder criar – ouvindo as palavras do guia eu comecei a observar melhor as chaves a venda pelas prateleiras atrás dos balcões. – Existem temas batidos como amor incondicional – pude ver uma chave de ouro, com um rubi em formato de coração –, a luta do bem contra o mal – vi uma chave com serra dupla, de um lado preta do outro prateada –, e sobre conquistas – vi uma chave de madeira que parecia terminar uma bandeira tremulante. – Mas existem outros temas, como peixes zumbis do espaço – eu ri ao escutar isso, pois na mesma hora pude ver uma chave futurística em formato de peixe. – É uma dessas chaves que vai abrir um espaço na cabeça do seu público. Por isso, escolha bem.

Diferentemente dos outros dois corredores, meu guia não se demorou muito no Corredor dos Temas. Logo após seu breve discurso, virou de costas e fez um sinal para que eu o seguisse, indo para outro corredor intermediário, que eu já esperava que ligasse a outro corredor principal. E eu estava certo.

– Vamos passar rápido por esse corredor também – ele me disse logo de cara. – Não que não seja importante, mas é que tanto esse corredor quanto o Corredor dos Temas são melhores de serem explorados sozinhos. Eu só queria te dar uma introdução a eles.

– Por quê?

– Porque são corredores muito pessoais. Quero dizer, no Mercado de Histórias tudo acaba sendo meio pessoal. Mas nesses casos não adianta muito eu te mostrar lojas e negócios, porque tudo depende do que você estiver buscando, entende? No Corredor dos Personagens você até pode fazer uma compra por impulso. E no do Local/Tempo você até pode pensar em algo diferente do que estava imaginando. Mas tanto nesse corredor quanto no dos Temas é uma escolha um tanto quanto íntima e única.

– Mas, afinal, que corredor é esse? – perguntei enfim.

– Esse é o Corredor dos Estilos.

– Corredor dos Estilos? – era estranho ele dizer isso. Eu só conseguia ver lojas de tapetes ali.

– Sim – meu guia me respondeu. – Talvez seja melhor eu demorar um pouco mais de tempo nesse corredor do que o planejado. Vai te ajudar a entender melhor. Vamos entrar naquela loja.

Ele apontou para uma loja grande onde em frente um vendedor fumava narguilé sentado em um banquinho. Meu guia cumprimentou o vendedor e entrou na loja. Eu o imitei e o acompanhei, curioso para entender o que ele iria me mostrar ali.

– Magnífico – ele disse examinando um tapete. – Você consegue ver?

Eu via, mas não entendia. Via as cores vermelha, marrom e azul. Via padrões geométricos. Via a costura. Mas não entendia o que nenhum daqueles aspectos do tapete tinham a ver com uma história.

– É realmente bonito, mas e daí?

Meu guia pareceu insultado por um momento.

– Mas e daí? – ele indagou irritado. – É isso mesmo o que você me perguntou? – eu abri a boca para responder, mas ele não deixou espaço e continuou sua fala logo em seguida. – O Estilo é um dos elementos principais ao se construir uma ficção. São as escolhas que você fará sobre o modo de contar a história. O ponto de vista, o tom, o ritmo, a linguagem, a estrutura e muito mais – ele pegou o tapete e me fez observá-lo novamente. – Veja. Você consegue ver os traços? Os padrões perfeitamente lineares costurados em meio a um caos colorido? Isso é uma obra de arte.

Eu estava surpreso.

– Agora entendi.

– Que bom – meu guia disse satisfeito. – O estilo que você escolher será único para contar toda sua história. É ele que vai levar os seus leitores pela sua ficção.

Em um gesto súbito, meu guia estendeu o tapete no ar e o jogou. E foi aí que minha surpresa ficou completa. O tapete não caiu. Simplesmente ficou flutuando no ar.

– Vamos, suba – ele disse. – Vou falar com o dono da loja para fazermos um test drive. Ele me conhece, acho que vai deixar.

Eu subi no tapete que aguentou meu peso e continuou flutuando enquanto observava meu guia conversando com o dono da loja. Aparentemente estava tudo certo para o nosso test drive.

– Me dê espaço – ele pediu quando se aproximou e começou a subir no tapete. – E se segure.

Com um gesto simples, meu guia fez o tapete voar para fora da loja e por cima do Corredor dos Estilos. Eu tive que me segurar para não cair quando ele fez uma curva abrupta e diminuiu a velocidade para pousar.

– Já? – perguntei quando chegamos ao que parecia ser o último dos cinco corredores principais do mercado.

– Sim – meu guia respondeu, saindo de cima do tapete. – Um pouco mais rápido do que eu pensava, devo confessar.

Eu coloquei meus pés no chão, um pouco tonto pelo passeio com o tapete voador. Estava de olhos fechados, tentando evitar a visão navegante de tudo girando a minha frente. Escutava muitos barulhos, porém o sentido que mais aguçou minha curiosidade e me fez querer abrir os olhos foi meu olfato.

– Esse é o último corredor – me disse o guia –, o Corredor dos Enredos.

As lojas ali vendiam temperos, nozes, frutos, sementes e doces. Dessa vez eu nem iria tentar formar alguma das dúvidas que tinha na minha mente. Era melhor ficar quieto, já que meu guia iria me tirar da minha confusão em algum momento.


- O enredo – continuou ele, enrolando o tapete voador e o jogando por cima do ombro – é o que incita a curiosidade do seu público. É como as coisas acontecem. É o que faz um leitor querer virar a página perguntando “O que acontecerá agora?”.

Meu guia se aproximou de uma loja e pegou uma espécie de doce gelatinoso que estava exposto e cortado para degustação.

– Vamos – ele disse –, experimente!

Ele colocou um pedaço de doce na boca e eu fiz o mesmo.

– Você consegue sentir? – ele falou de boca cheia, mastigando. – O começo é um pouco azedo e depois vai se modificando. Quando você pensa que vai perder totalmente o gosto, ele fica muito doce. Quase enjoativo. E então vem esse amargor final e está na hora de engolir.

– Parece uma história de amor não muito feliz – eu disse, fazendo careta para o gosto ruim que tinha ficado na minha boca.

Meu guia caminhou até outra loja, pegou uma colher de plástico descartável e a colocou em um punhado de pó vermelho. Em seguida colocou a colher na minha boca tão rapidamente que eu nem pude contestá-lo.

– Aqui está um sabor um pouco mais feliz para tirar esse amargor da sua boca então.

Era salgado. E doce ao mesmo tempo. Um sabor confuso que devo admitir que me agradou.

– O que é aquilo ali? – perguntei aprontando para uma bandeja de prata com frutos avermelhados em frente a uma árvore.

– Quer provar? Estão expostos para degustação.

Eu caminhei até a bandeja e peguei um dos frutos, colocando-o na minha boca. Um sabor exótico, doce no começo, depois salgado e depois... depois... depois incendiário! Minha boca estava em chamas.

– Venha – disse meu guia gargalhando e me pegando pela mão –, tome um pouco disso – ele pegou um copinho plástico com um líquido branco e me deu – Vai apagar o fogo na sua boca.

Eu tomei o líquido instantaneamente. Não tinha gosto de nada. Mas fez as labaredas que incendiavam minha língua se apagarem.
– Que diabos era aquilo? – eu perguntei, com lágrimas escorrendo dos meus olhos.

Meu guia também tinha lágrimas escorrendo dos olhos, mas eram de rir e não de agonia.

– Um toque de pimenta. Tem gente que gosta! Mas para outras pessoas é realmente muito forte. Entretanto, é sempre bom colocar um pouco de pimenta na sua história. Nada exagerado para não ofuscar outros sabores, mas, na medida certa, uma apimentada no seu enredo faz seu público pedir por mais e mais da sua história.

Depois daquilo, eu teria mais cuidado com o que experimentaria. Na verdade, sempre faria meu guia experimentar tudo junto comigo.

Juntos experimentamos nozes de sabores amenos e sabores salgados. Doces divertidos e enjoativos. Temperos salgados, amargos, azedos, adocicados e até mesmo apimentados (mas em menor escala). Aquele corredor era fascinante.

– Você vai escolher a combinação que quiser para formar o enredo da sua história. Porém tente fazê-la de forma harmoniosa ou até mesmo contrastante. Nunca de forma enjoativa, sem graça ou exagerada. Esse é o conselho que te dou. Agora vamos, você deve estar com sede depois de experimentar tanta coisa.

Ele estava certo. Eu estava sedento.

– Para aonde vamos agora? – perguntei curioso para saber aonde mataria minha sede.

O guia estendeu o tapete voador no ar que voltou a flutuar. Ele subiu e disse:

– Para o centro do Mercado de Histórias, a Fonte de Inspiração. Lá você pode beber um pouco de água e pode começar a fazer as escolhas que quiser para suas histórias. Espero que tenha gostado do passeio.

Gostado? Eu tinha adorado!

– Posso ficar com esse tapete? Vai ser muito mais fácil me locomover por aqui com ele.

– Eu tenho que devolvê-lo para a loja de onde viemos no Corredor dos Estilos. Mas você pode compra-lo lá mais tarde. Seria um bom modo de começar suas escolhas por aqui, não é? Já escolhendo um bom estilo.

Eu sorri e concordei.


– Sim, mas primeiro acho que um pouquinho de água daquela fonte não me faria mal.

Da Série Desvendando o Storytelling #Post 5 (último Post)
Para ver o # Post 4: O QUE PODERIA SER Storytelling, MAS AINDA É storytelling
Para ver o # Post 3: O QUE TODO MUNDO DIZ SER STORYTELLING
Para ver o # Post 2: O QUE TENTA ENGANAR NO STORYTELLING
Para ver o # Post 1: O QUE NÃO É STORYTELLING
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A Surpresa
"Finalmente." - Pensou Lívia. Finalmente ela poderia viver em paz, sem chorar quase todas as noites  ao pensar em seu amado com outra. Assim que ele fosse dela, todas as lembranças sombrias antes dele ficariam para trás. Fazia agora seis anos desde o fatídico dia. Naquela época, ela era apenas uma jovem moça que nunca havia deixado sua cidade no interior. Vivia tranquilamente e pagava suas contas não muito altas com seu salário de gerente. Havia trabalhado para o seu Tônio desde que era adolescente e havia conquistado o cargo com merecimento. Namorava Hélio e todos os meses recebia dele trufas de morango e maracujá, junto a uma carta que trazia em verso os mais belos dizeres. Tudo ia conforme o planejado. Até que um dia, ao abrir a carta de Flávio, ela não encontrou juras de amor, mas sim um bilhete de despedida. Flávio a havia abandonado após três anos de namoro e nem tivera a coragem de lhe dizer adeus pessoalmente. Lívia precisava sair dali. Não conseguia viver em um lugar onde tudo lhe lembrava dor. Ela pegou sua mala rosa, ainda nova por nunca ter sido antes usada, e partiu para a cidade grande. Ela agora estava sozinha, mas era exatamente onde queria estar. 

Lívia não contava com as dificuldades em arranjar um emprego, conseguindo apenas trabalhar como dançarina em um dos clubes de São Paulo.  Mas não era isso o que ela havia planejado. Sabia que podia mais, mas ninguém parecia interessar-se por uma garota caipira. Exceto por Carlos. A primeira vez que ele a olhou, Lívia não sentiu julgamento da maneira como costumava sentir, mas sim compaixão. Os dois se aproximaram e começaram uma amizade doce. Foi apenas no dia em que essa amizade evoluiu para um romance que Carlos lhe revelou ser casado. Era tarde demais, Lívia já estava envolvida e optou por aceitar ser sua amante. Mas seu sofrimento continuava e o pouco de Carlos que tinha já não era mais suficiente. Ela tinha duas opções: ou desistia de seu amor por Carlos e tinha seu coração dilacerado mais uma vez, ou continuava a sofrer calada, aproveitando o pouco de amor que Carlos lhe dispunha. A decisão veio em um momento de raiva e loucura, algo que ela nunca havia considerado antes: Ela precisava contar a Amélia a verdade. Amélia era esposa de Carlos e nunca havia desconfiado de nada. Lívia podia ver a decepção em seus olhos quando bateu a sua porta. Mas tudo tinha valido a pena e agora Carlos seria só dela. Lívia havia pedido que lhe desse o presente de casamento que ele daria a esposa e quando viu aquela caixinha rosa, já sabendo o que tinha dentro, riu de felicidade. Agora ele seria inteiramente dela. Mas Carlos agia de um modo estranho. Enquanto Lívia sorria, ele permanecia sério e suor escorria de sua testa. 

Quando menos esperava, Carlos mostrou o que estava carregando por trás de suas costas. Era um machado. Lívia ficou completamente sem reação ao perceber que quem ela mais amava estava prestes a cometer uma grande atrocidade. Seus olhos começaram a arder e ela falou com a voz mais firme que conseguiu encontrar dentro de si. "Me perdoe, Carlos, pois eu também o perdôo." As palavras pareceram tocar Carlos, que largou a arma e se retirou, deixando Lívia com o presente que antes tanto queria. Agora nada daquilo fazia mais sentido. Ela percebeu havia tentado possuir Carlos do mesmo modo que havia desejado possuir aquele vestido de seda e o colar de pedras azul turquesa. Lívia nunca mais tentaria ser dona de ninguém e não deixaria mais ninguém ser seu dono. Agora, ela pertencia a si mesma.
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Chegamos ao último Post da série exemplificando o que é o Storytelling, restritos pelo espaço disponível. A partir dessa história conseguimos identificar do que uma narrativa precisa para ser considerada Storytelling. Então vamos a isso:

1) Storytelling é sobre alguém.
A história deve importar para uma pessoa ou para qualquer outra coisa que possua verdade humana. Pode ser um robô ou um peixe, mas ambos precisam ter os sentimentos, aflições e desejos humanos. No caso da nossa história, esse alguém é Lívia.

2) Esse alguém tem um desejo
Apresentamos em nossa história o desejo de nossa personagem de forma sutil. Ela estava feliz com sua vida no interior e orgulhosa de si mesma. Tinha um amor e pretendia continuar com ele por toda a vida. No Storytelling, o personagem precisa querer algo em todos os momentos.

3) Esse personagem deve ser multi lateral
Um personagem multi lateral significa um personagem que tem várias perspectivas de personalidade. Por exemplo, se analisássemos a história sob a perspectiva de Amélia, poderíamos cair no erro de julgar Lívia como uma pessoa sem caráter. Ao invés disso, colocamos o ponto de vista de Lívia para mostrar como ela também possui conflitos e desejos com os quais podemos nos relacionar.

4) Esse personagem precisa sofrer uma mudança em sua vida
Se nada acontece na história, Lívia continua com seu namorado e todos vivem felizes para sempre. Precisamos, então, de um evento que impulsione a transformação de Lívia. No caso, foi o término de seu relacionamento de forma brutal.

5) Esse personagem precisa enfrentar conflitos
Vemos aqui que ao reagir ao incidente do término de namoro, Lívia começa a arcar com dificuldades que impulsionam a história pra frente.

6) A maneira como o personagem lida com seus conflitos e as escolhas que ele faz dizem tudo sobre ele
Muitas vezes lemos que é preciso definir o signo, a cor dos olhos, dos cabelos, as roupas utilizadas pelo personagem.. Sim, tudo isso é importante, mas não essencial. O que diz mais sobre a personalidade de um personagem, é quando ele é colocado em uma encruzilhada e deve tomar uma decisão.

7) Depois de enfrentar os obstáculos o personagem deve fazer uma escolha
Colocamos Lívia em uma encruzilhada. Ela está amando um homem casado e não suporta a dor que isso está lhe trazendo. Pressionada por seus próprios sentimentos, ela decide, num ato de loucura, contar tudo à esposa de Carlos.

8) O personagem enfrenta as consequências da sua escolha
Nenhuma escolha deve ser fácil. Deve estar claro o que está sendo colocado em jogo. No caso de Lívia, ela poderia perder Carlos para sempre, como realmente aconteceu. Acrescentamos um agente agravante, colocando, também, a vida de Lívia em risco. 

9) O personagem sofre um insight
Experiências negativas não vem de graça para o personagem. Tudo é feito para que ele aprenda algo. No caso de Lívia, ao ver o que tinha causado a si mesma, ao ver o presente (a posse) que ela tinha conquistado com tudo aquilo, ela percebeu algo sobre como vinha agindo até então.

10) O personagem sofre uma transformação
Com o Storytelling, devemos ser capazes de ver claramente a diferença do personagem que começou a história do personagem que terminou a história. A jornada deve, de alguma maneira, mudar algo na forma do personagem perceber e viver sua vida. Esse personagem utilizará seu conhecimento servindo de exemplo para as pessoas ao seu redor. (A transformação pode ser tanto positiva quanto negativa, caso a história retrate uma corrupção do personagem)

Muito cuidado, pois esses elementos e muitos outros que utilizamos para compor histórias não funcionam separadamente. Tudo deve agir em uníssono consolidado o universo ficcional criado. Aliás, você percebeu que a história "A Surpresa" foi composta pelas informações dadas nos posts anteriores.?Será que poderíamos chamar isso de transmídia? A resposta é NÃO. ISSO NÃO É TRANSMÍDIA. Aguarde o próximo POST explicando o porquê!

QUER APRENDER SOBRE STORYTELLING MAIS A FUNDO E COMO APLICÁ-LO? ÚLTIMOS DIAS PARA INSCRIÇÕES NO CURSO DO RIO DE JANEIRO:





Da Série Desvendando o Storytelling: # Post 4
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A Decisão


Amélia estava rindo a aproximadamente cinco minutos, desde que Carlos havia lhe mostrado o presente. Mas o riso que levava lágrimas a brotar de seus olhos não era de alegria. Era indignação, raiva, nervosismo. Ela sempre tivera problemas em lidar com suas emoções. Parecia que seu corpo não entendia qual era a coisa certa a se fazer em cada ocasião. Em todos os cinco anos de casados, Carlos sempre havia lhe dado presentes caros. Agora, ela suspeitava que eram o modo encontrado por ele para se redimir de tudo o que fazia de errado sem que ela soubesse. Há seis anos atrás, eles eram dois jovens apaixonados. Carlos a havia incentivado a fazer coisas que ela nem sabia que seria capaz. Ele a ajudou a largar a faculdade, desafiando seus pais e os obstáculos foram enormes. Acabaria ficando sem dinheiro e sem lugar para morar naquela época, se não fosse por ele, sempre pronto para ajudá-la. Agora, ela se lembrava daquela garota assustada de anos atrás, mas ela lhe parecia distante, quase como um personagem em um livro.  Quanto ao garoto apaixonado, ainda era visível no rosto do homem que lhe encarava com olhos de súplica. A decisão parecia simples, perdoá-lo e salvar seu casamento, ou mandá-lo embora, recuperando seu orgulho próprio. Mas nada que machuca o coração é simples. Seria muito difícil esquecer a dor que estava sentindo e aceitá-lo, sabendo que poderia novamente traí-la, quebrando seu coração novamente em pedaços.  
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Muito bem. Agora temos uma história melhor estruturada. Temos um personagem principal, Amélia, que passa por dificuldades, obstáculos e consegue o que quer, até chegar em outro problema: uma traição. O conflito força Amélia a fazer uma escolha. Mas isso é Storytelling? Ainda não. Começamos a ter um resquício de Storytelling, mas ainda estamos longe disso. Seria o que chamamos de storytelling, com "s" minúsculo. Esse é feito de qualquer jeito, colocando apenas elementos da narrativa de uma forma equivocada. Por exemplo: No texto "A Decisão" apresentamos trechos de uma jornada, mas ainda estão expressos de modo confuso e destoante.

Mas o que falta?

Se fossemos estruturar isso como Storytelling, teríamos que separar o que foi colocado em dois momentos.

O primeiro seria sobre a jornada de Amélia de auto descobrimento, quando ela teve que abandonar o que a família acreditava ser bom e passar a escolher por si própria. O incidente que levou Amélia a uma mudança poderia ser Carlos, que impulsiona Amélia a sair de sua "zona de conforto". Teríamos que mostrar a transformação clara de "Amélia sem auto-confiança, sendo manipulada pelas opiniões de outros" e ao final "Amélia confiante, segura de si, fazendo escolhas por conta própria". Ao meio da jornada teríamos que fazer Amélia merecedora da auto-confiança para que sua transformação fosse crível. Para isso, ela teria que passar por grandes obstáculos e complicações ainda piores.

O segundo momento da história seria sobre o casamento de Amélia e Carlos.  Teríamos que definir o que fez Amélia chegar no momento em que deve fazer a escolha de perdoá-lo ou não. No que implica essa escolha? O que acontece com Amélia se ela o perdoa? E o que acontece se não perdoa. O que ela tem a perder precisamente? E por que o que ela perde é importante para ela. Qual a transformação que essa escolha gera?

São diversas perguntas a serem respondidas. Então vamos a 5 casos que não responderam perguntas como essas:

1)  O filme "Eu, Frankenstein" - Conflitos e escolhas fracas
Sabemos que re-leituras de histórias já contadas estão na moda e, com certeza, essas novas interpretações vendem. Mas não adianta ter um personagem conhecido e deixar o público  decepcionado. Esse é o caso do filme "Eu, Frankenstein". O filme fala sobre o conflito de Frankenstein, o único ser que não possui alma no mundo todo. A transformação é clara: No começo do filme, Frankenstein não tem alma; ao final, ele ganha uma alma. Mas ainda assim, a narrativa é fraca. Os personagens não parecem ter vida fora do momento em que estão na tela. A estrutura é seguida, mas as decisões feitas tornam-se sem sentido já que as alternativas carecem elaboração. Por exemplo, a mocinha, em determinado momento deve decidir entre ressuscitar seu colega de trabalho, que renascerá sem alma e será habitado por um demônio (isso também levará à destruição o mundo), ou simplesmente deixar seu colega morto sem que o mundo seja destruído e que ele seja habitado por um demônio. Estranhamente ela escolhe a primeira opção, desvalorizando o poder de discernimento da audiência. No caso, as proporções e as cargas das escolhas foram feitas de maneira equivocada.

Perguntas não respondidas: O que tem-se a perder com as escolhas e o que isso representa para esses personagens?


2) Comédias românticas que se perdem no clichê
Storytelling não é só estruturar de modo que o filme cumpra o "check list" de tudo o que tem que acontecer, é também inovar e dar voz artística ao como tudo vai acontecer. Sabemos que toda comédia romântica deve, sem exceção ter uma cena de "garoto encontra garota". É um fato que tal cena deve existir. Mas se o autor coloca em seu roteiro "Garota derruba papéis e garoto corre para ajudá-la", ele estará reproduzindo o que milhares de filmes já fizeram. Não basta a cena ter funcionado em outros filmes, ela precisa funcionar para essa história. Se depois de percorrer diversas alternativas sobre como a cena "garoto encontra garota" deve ser, o autor chegar a conclusão de que derrubar os papéis é o que se encaixa melhor no contexto dos personagens, daí sim, essa será uma cena que fará sentido para a audiência.

Perguntas não respondidas: Qual a relevância da escolha dessas cenas para os personagens?


3) Filmes Biografia e só
Vamos comparar dois filmes sobre o mesmo tema, só que construídos de maneira diferente. O filme "Chico Xavier" e o filme "Bezerra de Menezes - diário de um espírito". Os dois narram a trajetória de figuras do espiritismo. Independentemente do teor dos filmes, em questão de narrativa, um acerta e o outro erra. No filme sobre Chico Xavier, o autor de forma muito inteligente intercala a narrativa da vida de Chico com a história de uma família que ele influenciou. Mas por que isso foi tão inteligente? A vida inteira de uma pessoa é um âmbito muito grande para uma jornada. Devemos trabalhar sempre, no Storytelling, com recortes significativos. Além disso, tem-se a transformação necessária do personagem. Chico começa como uma criança boa e gentil e termina como um homem bom e gentil. Ele tem algumas questões e conflitos também trabalhados sobre a vida difícil que levou, porém, com um recorte tão extenso, esses conflitos não tem a chance de serem aprofundados. Já a família começa com um problema bem claro: são incapazes de perdoar o suposto assassino de seu filho. Ao final do filme, acabam salvando o menino da prisão.
Agora analisando a segunda biografia de Bezerra de Menezes. Temos no filme apenas uma narração de fatos. "E então isso aconteceu. Depois isso, e assim por diante". Uma biografia formada por narração de eventos, apesar de poder ser transformada em filme, não é Storytelling.

Perguntas não respondidas: Qual a transformação feita? O que exatamente foi superado?


4) Games com dissonância
Em alguns jogos que são permeados por uma narrativa, muitas vezes há uma dissonância entre o personagem da história contada na interação do Game e o personagem quando se transforma em jogador. Por exemplo, quando a história conta que o personagem em questão é um super herói que passou por diversos testes e superou desafios, espera-se que o jogo apresente tarefas a altura do personagem apresentado. Mas quando esse super herói cheio de poderes tem dificuldade até para abrir uma porta sozinho, acontece uma falha de narrativa. Não adianta fazer o Storytelling para animação do jogo, quando não é isso que o jogador está vivendo. Um dos jogos em que acontece isso é o Mortal Kombat vs DC Universe.


5) Percy Jackson - Adaptações mal sucedidas
Transformar um best seller em filme, nem sempre é certeza de sucesso. É preciso entender as diferenças entre um livro escrito e o filme de longa metragem que será apresentado na tela. Ao mesmo tempo deve-se ter em mente que alterar o formato não significa mudar a essência da história. Ocultar informações importantes pode fazer com que a narrativa tão aclamada pelos leitores, torne-se motivo de revolta. Nos filmes de Percy Jackson, os roteiristas e produtores ignoraram erros graves em relação à narrativa, que rendeu o cancelamento da filmagem do terceiro filme da série. No primeiro filme, um personagem importante que batia de frente com Percy(personagem principal) foi retirado, tirando também da trama um dos conflitos de Percy. Além disso o filme foi tratado de forma superficial, seguindo uma estrutura, mas sem capturar a essência do livro. No segundo filme, a história também ficou incompleta, já que muitas informações utilizadas na história eram continuações do que  deveria ter sido apresentado no primeiro filme. Para consertar, outras alterações foram feitas, bagunçando ainda mais os dados da história e revelando peças chaves em momentos não propícios para a trama.

Perguntas não respondidas: Como as circunstâncias apresentadas afetam na vida dos personagens? Como são relevantes? Como os eventos da série se interligam? Como estabelecem relação de causa e efeito?

Mais uma vez fica clara a minuciosidade necessária ao se pensar em Storytelling. Mesmo seguindo estruturas e receitas que já deram certo, podemos errar se não nos atentarmos para os mínimos detalhes e não trabalharmos bem com o universo que desejamos criar.

Quer desvendar os segredos de Storytelling também? Fique atento aos nossos cursos.
O próximo será dia 7 de Novembro no Rio de Janeiro.











Da Série Desvendando o Storytelling #Post 3

Para ver o #Post 5: O QUE É STORYTELLING
Para ver o #Post 4: O QUE PODERIA SER Storytelling MAS AINDA É storytelling.
Para ver o #Post 2: O QUE TENTA ENGANAR NO STORYTELLING
Para ver o #Post 1: O QUE NÃO É STORYTELLING
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A Aprovação


Quando Carlos lhe mostrou o presente, Laura nem sabia o que dizer. Era perfeito. Ele havia acertado em cheio. Aquele homem era com certeza merecedor de sua irmã. O vestido preto de seda tinha o caimento ideal para o corpo de Amélia, de modo que Laura podia imaginá-lo, ajustando-se à silhueta longilínea da irmã. O colar de pedras azul turquesa davam o toque final.  Amélia ficaria extremamente elegante, como sempre. Laura se lembrava como se fosse ontem o dia em que a irmã apresentou Carlos para a família, e agora, depois de 5 anos casados, ele ainda a mimava como se fossem dois jovens apaixonados.
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Normalmente, quando perguntamos a alguém: "O que é Storytelling?", ouvimos ideias genéricas , baseadas em um senso comum. Talvez constituam até elementos que uma narrativa deve ter, porém, se trabalhadas de maneira rasa e individual tornam-se qualquer outra coisa que não uma narrativa, raríssimas vezes se atentando ao menos a como essa história deve ser contada. No texto "A Aprovação", escrevemos o que seria um fragmento de uma história. Esse trecho poderia ser um parágrafo de um capítulo de um livro, um relato, mas é apenas uma pequena porção do que a narrativa deve englobar. Abaixo, elegemos 10 itens que costumam ser confundidos com Storytelling:

1. Storytelling é algo com começo meio e fim

Colocar começo meio e fim em uma história pode ser o início do raciocínio para criar uma estrutura de atos, porém não é o suficiente para dar a história como completa. O autor deve saber o que deve estar presente no começo, o que impulsiona para o meio, como o meio será elaborado e como se dará a conclusão de seus pensamentos ao final. A ideia de começo, meio e fim é com certeza um ponto de partida interessante para o autor, não podendo ser seu ponto de chegada. Tendo a visão clara dessa estrutura, o autor consegue brincar com os elementos da história, mudando-os da ordem convencional, sem que fique confuso para a audiência. 

2. Storytelling é algo com diálogos

Mas do que valem diálogos sem nenhuma ação? Em qualquer estrutura narrativa, seja ela um romance, um roteiro de filme, série, ou qualquer outro; as ações dos personagens dizem mais do que suas palavras. Se coloco, por exemplo, um dos meus personagens tendo uma reação de raiva, quebrando objetos ao receber uma notícia, isso reflete mais sobre sua personalidade do que se colocasse ele conversando com um amigo, contando sobre a sua raiva. Mais do que ações, as escolhas de cada personagem definem quem ele é. Se colocamos alguém em uma encruzilhada em que um caminho deve ser escolhido, entendemos o modo como essa pessoa vê o mundo.

3. Storytelling é algo com conflito

Mas todo conflito precisa de uma conclusão. Seguindo a linha de que escolhas definem um personagem, se tenho um protagonista em que o conflito não é resolvido de nenhuma forma, tenho um protagonista que está em cima do muro. Sendo assim, sua história não tem como se desenvolver. O personagem vira apenas um ser reativo a tudo o que ocorre a sua volta. E a vitimização de um personagem não é Storytelling.

4. Storytelling é algo em que se tem que fazer uma escolha

Uma escolha não vale de nada se o personagem não tem um preço a pagar. Supondo-se que o autor seguiu como esperado, colocou um conflito, uma escolha e concluiu seu pensamento. De que vale tudo isso, se o conflito era fraco, a escolha fácil, e a conclusão superficial? Muitas vezes isso ocorre quando o preço a se pagar pelo que está sendo feito não é alto o suficiente. Assim como na vida, cada escolha carrega uma responsabilidade. Deve estar muito explícito para a audiência o que o personagem perde ao tomar uma decisão e como isso pode ser drástico em sua vida.

5. Storytelling é algo que segue a estrutura (modelo dos três atos, quatro atos, cinco atos, jornada do herói...)

De nada vale uma estrutura, se você tem personagens rasos. Quando criamos todos os personagem, devemos também imaginar como seria a história contada sob cada uma de suas perspectivas. Se não formos capazes de entender a trajetória, os conflitos, dúvidas e motivações de cada um de nossos personagens, perdemos força em nossa história. Acabamos, então, caindo no clichê do vilão que só queria dominar o mundo, da garota popular e metida do colégio que era apenas fútil e nada mais. O filme "Malévola" é um ótimo exemplo de um twist de percepção. Uma das mais temidas vilãs da Disney foi colocada como heroína e veja como ficou muito mais rica a história.

6. Storytelling é quando fazemos o personagem achar que não tem mais solução para seus problemas, e bem no final, mostramos uma saída.

Tudo bem, mas que tipo de saída? Esse pensamento gera a típica história em que o roteirista, na ânsia de colocar tantos obstáculos para o seu protagonista. só consegue resolver sua trama com um passe de mágica. É o helicóptero que surge sem explicação; é o time da S.W.A.T. que entra no último minuto, sendo que nunca antes havia sido mencionado; é o objeto que se transforma em portal, também sem nenhuma explicação plausível. Enfim, todos esses itens podem existir com tanto que façam sentido para a história e já tenham sido apresentados antes. Se surgem como um ato de desespero, podem deixar qualquer um duvidando de sua veracidade e não entendendo a história. 

7. Storytelling é quando o personagem tem uma mudança de comportamento ou de atitude.

O personagem deve sim ter uma mudança de atitude ou de percepção. Em algumas histórias, isso ocorre durante vários momentos durante a trama, mas ninguém simplesmente muda de atitude sem nenhum estímulo. Deve sempre haver algum impulso para que o personagem passe a pensar diferentemente do modo como estava pensando. Histórias em que o detetive depois de muito tentar solucionar o crime, simplesmente acorda um dia sabendo quem é o assassino, não colam. Insights devem seguir uma lógica. Um ótimo exemplo é da série "Homeland". Em um dos episódios, a detetive tem um insight de que um ex-soldado americano está mandando códigos para os terroristas. Essa percepção acontece apenas após ela observar um músico tocando seu instrumento e mexendo seus dedos de maneira semelhante a que o soldado fazia perante as câmeras. 

8. Storytelling é quando o personagem passa por uma jornada

Sim. Mas não adianta passar pela jornada, sem aprender nada. Na jornada do personagem, ele recebe um estímulo que vai incentivá-lo a mudar algo dentro de si. Se o personagem passa por todos os conflitos e complicações, voltando a ser o que era, de nada vale sua trajetória. Sabemos que em Sitcom's a graça está em ver os personagens sofrendo com os mesmos erros, intrínsecos às suas personalidades. No entanto, embora os personagens de séries de comédia cometam os mesmos erros, em algum aspecto eles acabam evoluindo, mesmo que muito mais lentamente do que em um filme de drama, por exemplo.

9. Storytelling é quando o personagem busca e consegue um Elixir

Um Elixir não compartilhado, é um elixir sem propósito. O elixir é o que o herói/protagonista consegue após percorrer toda sua jornada, antes de voltar ao seu cotidiano. Pode ser físico ou simbólico e representa o que foi aprendido pelo herói. Se o personagem guarda esse conhecimento para si, seu elixir perde o valor. Ele deve praticar o que foi aprendido e compartilhar com o mundo. Por exemplo, na comédia romântica "Alguém tem que Ceder", Érica deve aprender a se abrir para o mundo para que consiga amar. Sua mudança de atitude é refletida em todos a sua volta, quando ela dá conselhos a sua filha ensinando que o amor vale a pena, ou quando permite que alguém mais jovem se torne seu namorado.

10. Storytelling é ficção. Você pode inventar o que quiser, colocar alienígenas, super-heróis. Tudo pode.

Sim, com tanto que siga as regras estabelecidas pelo autor. Você já viu alguém falar "até parece" assistindo a um filme do Homem Aranha? Provavelmente não. Isso acontece pois o autor delimitou qual era o universo criado e quais as regras a serem seguidas nesse universo. No filme, Peter Parker é picado por uma aranha geneticamente modificada, adquirindo assim o poder de se lançar entre os prédios com sua teia. Aceitamos isso, pois o autor é fiel as delimitações colocadas para a criação. Monstros radioativos são aceitos nessa narrativa como algo normal. Agora, se colocarmos um humano , pilotando um carro que cai de um penhasco a 120km/hora e nada acontece ao carro nem ao motorista, daí passamos a infringir leis da física que se aplicam a esse universo criado. Funciona para filmes de ação? Claro. Para vários, mas sabemos que o propósito desses filmes não é a construção de uma boa narrativa.

Entendemos com esse tópicos que o problema central não é O QUE é Storytelling, mas COMO fazê-lo, COMO estruturá-lo e COMO criar uma narrativa forte e atrativa.

Para aprender a fazer Storytelling de verdade, dê uma olhada nos nossos cursos. O próximo será dia 7 de Novembro, no Rio de Janeiro.





Nem só de plot twist se faz uma boa história, mas são eles que pontuam dramaticamente os pontos chave de uma história tornando-a inesquecível.

No último episódio de Game of Thrones, que foi o oitavo episódio da quarta temporada, presenciamos o fabuloso duelo entre a montanha e a víbora vermelha. Mas apesar do gore óbvio da sequência, muitas coisas estavam em jogo. Não adianta apenas virar a história de cabeça pra baixo, mudar o contexto subitamente ou fazer uma grande revelação.

Toda a construção da história deve ser arquitetada para que a virada seja relevante. Temos que lembrar que muitas coisas estavam em jogo naquele duelo, por exemplo, a liberdade de um dos personagens mais cativantes da história. E os duelistas também não foram apresentados somente para esta cena. Os personagens já tinham sido contextualizados ao longo da trama, adicionando carga emocional a sequência e fazendo com que o expectador se importasse com o resultado da luta.

Em fim, todo storyteller deve saber que não basta apenas mudar o rumo da história para se fazer um bom plot twist. É preciso anunciá-lo assim como um bom ilusionista faz com um truque de mágica.

O ano é 2110, e o Corinthians, graças a um longo processo de internacionalização, é o maior time do mundo. Mas, no ano em que completa 200 anos, o saudosismo torna ao coração alvinegro e resulta em louca invenção: um dispositivo capaz de voltar a qualquer período da história.
Essa é a premissa do filme “Nova Era: Corinthians”, previsto para 2015. Após alguns documentários sobre momentos marcantes do clube, este será o primeiro filme ficcional sobre um clube de futebol brasileiro – e logo de ficção científica.

De alguns anos para cá, não é novidade a ninguém que os clubes tenham inovado em vender a sua marca a seu “fiel” consumidor. Os departamentos de marketing cresceram, com direito a todos os Ps: Produto, Preço, Praça, Promoção e Paixão.
E não é preciso ser corinthiano para saber: se não foi o primeiro, o Corinthians hoje é o clube que melhor trabalha a sua marca dentro e fora das quatro linhas. Tanto é que, além dos 5 Ps citados, o time inova mais uma vez e traz o P de Plot para reforçar o seu time a partir de uma lógica básica: Se conseguimos lotar estádios, podemos lotar as salas de cinema também.
A grande questão, desta vez, é que se trata de uma história ficcional, ainda que, é claro, com pitadas de muitas histórias verdadeiras do clube. É comprar a pipoca e esperar pra ver o resultado dessa história dentre os mais de 30 milhões de espectadores em potencial. 



For the last month or so I’ve been watching the TV series MadMen, both because I was told to do so and also because it is a really good series. I’ve also been reading a lot about advertising nowadays and suddenly the two things merged in one single thought: Have we, the MadMen of our times gone really mad now?

When you watch MadMen, just by the third season you understand the market changes they are living, the TV is the newest and most important media and the characters insist on repeating to clients that the important thing for a brand to do is to buy media. I feel that was true for a long time and some of us still believe that time in media, whatever media it is, should solve the problem for a great campaign. But time has changed and with the internet we’re working in world full of information where the boring part of it does not survive. As uncle Ben said to Peter Parker “Great powers come with great responsibilities” but more than that they come with great challenges, after all it is not storytelling if the hero is not transformed by the end of it.

One of the first concepts of storytelling you learn is “plot” which is, superficially speaking, an idea that evolves every beat and every scene of a story to make it become more real and interesting. Why not do the same with a brand?

The plot of a company or brand should be able to make people relate to it, feel something about it and eventually, if that’s you purpose, buy it. It is not a lie when marketers say that TV commercials are going down the road to inexistence. I, for instance, when getting into a supermarket want my refrigerator to look like Steve Jobs’ even if I haven’t ever seen his refrigerator. It is natural to want to be part of something we like and to belong to the group of people we admire. The best way to make us feel that is to tell a good story about the day Steve Jobs drank a can of Pepsi to freshen up. Product Placement has evolved to Story Placement and all of it in a plot.

Maybe it is time for us to understand that the challenge in advertising now is the same as it is in storytelling: to find the human truth in our brands which should be shared with everyone and let our hero/brand grow on people’s heart and not just on their minds. Have the media supported strategy of the Madison Avenue in the 60’s became so crazy it sounds mad? Or it is just me being mad now?