Você acaba de conhecer alguém. Quem quer que seja. Num elevador, um potencial network. No trabalho, um novo colega. Até mesmo na internet, um interesse romântico. A próxima etapa é sempre a mesma: se apresentar. Esse momento te empolga, te entedia ou te apavora?

Cada reação dessas tem uma razão de ser. Já passei por todas elas. Pra mim o mais o cenário mais comum sempre foi ao conhecer pessoas em viagens. Já me peguei entediado ao responder pela quinquagésima vez perguntas como "de onde é?" ou "para onde vai?" até que tive uma sacada.

Antes disso, o que me apavorava era conhecer a família de algum novo romance. Não sabia nem por onde começar a falar de mim… já devia falar da visão política? Talvez ir pra um campo neutro e falar de trabalho, mas correndo o risco de descambar pra uma conversa chata. Até que descobri o ponto certo.

Graças a duas viradas de chave, hoje em dia fico empolgado com toda e qualquer situação em que eu tenha que falar de mim. Explico:

Quando alguém te conhece é como se acabasse de chegar a uma casa sem eletricidade em plena madrugada. Escuridão total. Quando você se apresenta, é como se acendesse uma vela. A pessoa passa a ter uma ideia do que tem ali. Nem mais, nem menos. Com o tempo essa vela se apaga e a pessoa mal se lembra da gente. Isso vale pra carne e osso ou dígitos. 

O erro que a maior parte das pessoas comete é acender uma mesma vela pra todas as pessoas que encontra. Contar a mesma história, do mesmo jeito, pra qualquer pessoa, nunca vai ser bom. Pra começo de conversa fica tedioso. Você se cansa da própria história. A dica é tentar contar outras histórias sobre você ou, no mínimo, por outros ângulos. Esse simples exercício vai te levar do tédio à empolgação em menos de três tentativas.

Se quiser ver alguns exemplos disso, clique aqui.





Dia desses acabou o carnaval, hoje foi a vez do verão e agora, logo mais o trimestre e por incrível que pareça ainda tem gente esperando o ano começar enquanto outros não vêem a hora de acabar. Seja como for, a questão é o quanto você planeja adiante?


Conversei hoje com uma amiga que mora na Dinamarca. Ela disse que pra eles não estamos em março, mas na semana 11. Diz ela que os nórdicos já estão com tudo planejado até agosto.


Não sou desses. Estou vivendo como nômade digital e sequer sei onde estarei daqui duas semanas. A ironia do destino é que comecei minha carreira como planner e planejar sempre foi um talento natural.


Depois de alguns anos e algumas centenas de projetos planejados com sucesso, aprendi 3 coisas que continuam valendo mesmo duas décadas depois:


1. Aprender a planejar muda a vida de qualquer pessoa. É um tipo de encadeamento lógico que você leva pro dia a dia e causa uma revolução na forma de ver a atuar no mundo.


2. Mais importante do que planejar é replanejar. Por mais bem pensado que seja, pelo menos 30% das variáveis lo são imprevisíveis. Planejar pode levar meses. Replanejar tem que ser num piscar de olhos.


3. É impossível planejar uma inovação disruptiva. Se nunca foi feito, não tem como parametrizar. Nesses casos, o melhor a fazer é escaletar - um conceito que aprendi anos depois que deixei de ser planner e me tornei roteirista.


Estou vivendo nesse terceiro momento, me lançando de cabeça numa iniciativa disruptiva. Vou colocar em jogo mais de uma década de conhecimento acumulado como Pedro Álvares Cabral do Storytelling. Um projeto sem igual no campo do marketing digital.

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Você sabia que o Monet foi um herói de Guerra Mundial? Pois é. Essa é uma história que pouca gente sabe sobre o famoso artista francês.

Monet foi considerado um gênio pelo seu estilo único na pintura. Seu objetivo com os pinceis era transmitir a impressão exata que ele sentia diante de algo belo. Sua preferência eram flores e águas – e o reflexo da luz solar sobre estes elementos da natureza.

Assim como acontece com a maior parte dos grandes artistas, foi desacreditado no começo. Passou por dificuldades financeiras. Suas pinturas eram chamadas de incoerentes, falsas, insalubres e cômicas. Ele conta, com certo ressentimento, que um colecionador que comprou um quadro seu foi tão ridicularizado pelos críticos que o retirou da parede. Um desses críticos chegou a dizer que uma criança se divertindo com giz de cera fazia um trabalho melhor.

Aliás, “impressionismo”, movimento artístico do qual Monet é considerado o maior nome, foi um batismo pejorativo dos críticos. Ele, Renoir, Degas e Cézanne eram menosprezados jocosamente por suas obras que seriam “menos bem-acabadas do que um papel de parede”.

Ele mantinha uma caderneta com os recortes das críticas. Apesar disso, nunca se abalou. Ignorou todas e se manteve firme numa jornada de autoaperfeiçoamento. Essa persistência deu frutos e o levou a ser um dos poucos artistas a verem o sucesso em vida. E não qualquer sucesso.

Em um momento triunfante, ele viu 14 de seus quadros irem para um dos maiores museus do mundo, o Louvre (isso geralmente acontecia após, pelo menos, 10 anos da morte de um artista). Aquelas mesmas obras que, um dia, foram tão intensamente desprezadas pelo estabelecimento artístico e tão controversas para o público, agora, ocupavam um lugar de respeito na história.

Enfim, suas obras foram elogiadas a ponto de serem comparadas aos afrescos de Michelangelo na Capela Sistina e aos últimos quartetos de Beethoven. Seu colega Manet o chamou de “Rafael das águas”. A reputação de Monet como maior artista vivo era indiscutível. Porém, após o sucesso, veio o cataclisma da tristeza.

Alice, sua esposa amada, morreu. Em seguida, seu filho Jean, precocemente também morreu. Como se já não fossem perdas suficientes, a vista esquerda começou a ficar comprometida, bem como a sua percepção de profundidade e, o pior: até a visão das cores tinha ficado distorcida. Os críticos – olha eles aí novamente - já começaram a apontar que Monet estava ultrapassado... Mas ele seguia não se importando com isso.

Até que veio a Primeira Guerra Mundial e tudo mudou. Se Monet lidava bem com as críticas externas, certamente não lidou tão bem com a autocrítica. Ele passou a se sentir constrangido por pintar flores e lagos, enquanto outros franceses, inclusive um de seus filhos, pegavam em armas. Ele paralisou. Chegou a pensar que nunca mais iria voltar a pintar...

Começou, neste momento, sua busca por tentar ser útil para além dos pinceis. Os soldados feridos eram alimentados com legumes da sua horta. Ele doou quadros para que instituições de caridade pudessem fazer leilões. Ainda assim, ele se sentia insuficiente. Até que foi convocado a ser um dos signatários de um manifesto contrário à guerra. Os artistas e intelectuais franceses precisavam daquele nome de peso para dar relevância àquela ofensiva cultural.

O manifesto não foi a última vez que Monet foi convocado a emprestar seu nome e seu talento aos esforços de guerra. Mas, enquanto não foi convocado novamente, ele pôde voltar a pesquisar cores e formas em paz. Trabalhou por anos naquele que veio a se tornar o projeto mais importante da sua vida: a Grand Décoration.

A Grand Décoration era um projeto audacioso, que beirava o impossível. Monet sonhava em pintar vários quadros imensos que não terminavam em si. Um a um, as telas de muitos metros de largura e altura se complementavam em composição, formas e luz. Juntos formariam um ambiente imersivo jamais visto.


 Enquanto Monet trabalhava em seu projeto dos sonhos, o governo francês fez uma proposta inusitada: o convidou para pintar a Catedral de Reims, uma das mais importantes da França e que havia sido destruída pelos alemães. A ideia era que essa imagem chocasse o mundo e servisse como um testemunho contrário à barbárie. Uma série de pinturas da catedral semidestruída, vinda do pincel de Claude Monet, anunciaria ao restante do mundo o medonho vandalismo de um modo que nenhum fotógrafo poderia fazer.

Embora Monet tenha respondido prontamente à incumbência, ela viria a apresentar uma série de desafios. O maior deles, evidentemente, era que os bombardeios estavam longe de acabar. Os projeteis seguiam caindo. A população de Reims estava praticamente exterminada. E não havia qualquer razoabilidade em levar um senhorzinho de 78 para se expor tão vulneravelmente assim.

Monet não era um artista de ateliê. Ele pintava in loco. Captando as impressões do momento. Essa era a sua marca registrada. Destruída pela guerra, Reims não oferecia abrigos onde ele pudesse se instalar com segurança ou comodidade. Portanto, o tempo foi passando sem que essa empreitada tivesse início.

Nessa época, algumas fotos da Grand Décoration começaram a circular pela França. Gente do alto escalão do governo e grandes artistas, como Matisse, se impressionaram com a vasta ambição de Monet e, acima de tudo, com a abrangência do seu talento. Monet nunca havia feito algo naquela escala de complexidade.

Para a sua surpresa, seus esforços e talentos não apenas foram notados, como consagrados. Aqueles membros do governo que haviam contratado as obras da Catedral de Reims, decidiram que a grande “obra de guerra” (oeuvre de guerre) seriam as ninfeias de Monet. Ou seja, ao invés de promover uma catedral destruída, fazia muito mais sentido utilizar a Grand Décoration, como propaganda da glória da cultura francesa.

Foi assim, portanto, que Claude Monet, o maior dos impressionistas franceses, e certamente um dos maiores artistas de todos os tempos, se tornou, aos 78 anos de idade, um verdadeiro Herói de Guerra, sem nunca ter tocado em armas.  

Fiquei sabendo dessa história no livro “Monet e a pintura das Ninfeias” de Ross King, enquanto estou vivendo em Paris. A dica veio de uma seguidora no insta. Uma das coisas que gosto dessa vida de nômade digital é mergulhar na cultura do local e descobrir as suas histórias enquanto estou ali pra ver de perto. Dessa forma, acabei aprendendo duas grandes lições com Monet.

Primeiro, as críticas vão vir a qualquer momento da sua carreira, então registre mas não se abale. Segundo, há outras formas de lutar numa guerra e a arte talvez seja a maior das armas secretas. Afinal, mesmo depois de décadas, essas obras continuam aqui pra nos impressionar. Elas estão expostas no museu L´Orangerie. Aliás, qual foi a última vez que uma obra de arte te impactou?

Com amor,

Flávia Monjardim


 
Vou fazer mistério, deixando a resposta para o fim. Até porque eu mesma ainda não terminei de ler. Uma coisa eu já adianto: foi um livro que me surpreendeu muitas vezes. Por exemplo, você sabia que o Will Smith começou a carreira como um rapper? Digo mais: um rapper de sucesso! A ponto de ter sido citado por ninguém menos que Eminem em uma de suas músicas de maior sucesso.

A grande surpresa, no entanto, é o quanto o tema “storytelling” é abordado – e não somente nas entrelinhas.  Em determinados trechos, a lógica da contação de histórias é explorada de maneira mais didática e explícita.

Will Smith, que se auto intitula “contador de histórias”, chega a afirmar que um dos livros que mais marcou a sua vida foi “O herói de mil faces”, de Joseph Campbell. A jornada do herói se tornou seu guia para criação de personagens interessantes, fornecendo recursos para transformá-los em protagonistas memoráveis.

Ele percebeu que a mente humana busca por histórias, sobretudo aquelas que inspirem a “volta por cima”. É exatamente por isso que a jornada do herói funciona tão bem - não apenas nos grandes sucessos de bilheteria dos cinemas mundiais, mas também nos best-sellers da literatura.

O Alquimista, de Paulo Coelho, por exemplo, foi o primeiro caso de amor literário de Will Smith (e ainda é uma das suas maiores referências). Apesar de muitos brasileiros torcerem o nariz para o autor brasileiro, seu talento em contar histórias que cativam é inegável. E por que cativam? Dentre vários motivos, se destaca a utilização dessa fórmula tão manjada quanto eficaz.

É interessante perceber, contudo, que a ligação de Will Smith com storytelling surgiu muito antes do contato com esses conceitos. Ele entendeu storytelling na prática, sentindo seus efeitos na pele.

Quando criança, a habilidade de contar histórias engraçadas foi desenvolvida por ele como um mecanismo de defesa surgido a partir do medo que ele sentia de seu pai. Ele sentia culpa pelos episódios abusivos do seu genitor, sempre autoritário e por vezes violento.

Ao fazer os familiares rirem das suas piadas, ele redirecionava a energia de briga para a alegria. Sendo assim, desde muito cedo, seu primeiro impulso sempre foi transformar a realidade em algo melhor, de modo que a verdade não machucasse tanto.

Na adolescência, a habilidade de contar histórias ganhou outra dimensão. Além de um recurso protetivo na vida pessoal, foi o mecanismo que fez com que ele se destacasse em sua primeira profissão, a de rapper.

Ele formou uma dupla com Jazzy Jeff, DJ que detinha enorme sofisticação musical e conhecimento profundo desse universo. O que eles fizeram juntos foi revolucionário. Will fazia versos que contavam uma história (storytelling aplicado à música). Cada verso levava ao próximo, implorando ao ouvinte que terminasse de escutar a canção para descobrir o que acontecia no final.

DICA: Se você, assim como eu, desconhecia esse passado do ator, sugiro que explore suas músicas. São bem divertidas. Eu, particularmente, adorei Girls ain’t Nothing but Trouble.

É óbvio que algumas pessoas já nascem com uma inclinação natural a serem engraçadas. Mas, sendo a comédia uma extensão da inteligência, com observação, estudo e perspicácia, é possível aplicar o humor às suas histórias. O próprio Will Smith credita à disciplina a lapidação do seu talento.

Aliás, o próprio professor Fernando Palacios já afirmou que humor é uma habilidade treinável na escrita. Para quem deseja desenvolver ou aprimorar essa técnica, ele recomenda o livro: “The Comic ToolBox – how to be funny even if you´re not”.

Se você, por acaso, ainda está na dúvida se deve ler “Will”, escrito em coautoria com Mark Manson, vá em frente, que eu te garanto: mais do que uma biografia, ele é um livro técnico, cheio de dicas para quem busca o sucesso... escrito de um jeito leve, que arranca risos e sorrisos o tempo todo. Existe algo mais poderoso do que o humor?

Com amor, Flávia Monjardim.

PS: Este é meu primeiro texto para o blog. Ainda estou pegando o jeito de como escrever por aqui. A minha ideia é dividir semanalmente minhas percepções sobre histórias que me marcaram e, eventualmente, dar pitacos sobre storytelling. Qual deveria ser meu próximo tema?

Adaptações para o cinema, videogame, animação ou série costumam ser muito criticadas e meu saudoso professor de Teoria Literária, Ivo Lucchesi, certa aula me disse que uma adaptação só é melhor do que o livro se o livro for muito ruim.

Essa aversão à versão é justa já que muitas das adaptações ocorriam de forma tímida tornando-se uma pálida versão do original. Isso se deve ao fato de que a tradução das obras literárias e quadrinhísticas (os formatos de mídia escrita) para o audiovisual visa angariar um grande público em contrapartida do restrito, porém cativo, da mídia impressa.

A Transmídia, que já era utilizada antes mesmo de ter sido concebida por Henry Jenkins agora é criada em profusão. O presente artigo pretende mostrar as diversas versões do personagem Coringa, das HQs de Batman, da DC Comics, para as telonas e exemplos de animações e games, além de revelar a eminência parda responsável por sua criação, um personagem de Victor Hugo.

Este artigo é em memória de Denny O'Neil, criador do vilão Ra's al Ghul, que originou a consagrada trilogia de Christopher Nolan, falecido dia 11 de junho deste ano.


Joaquin Phoenix levou o Oscar por seu pavoroso Coringa ( por pavoroso, me refiro tanto ao filme quanto ao personagem que intitula a trama) e quando digo "pavoroso", estou elogiando. Dentre os muitos coringas que estrelaram na tela, tivemos um hiato de 22 anos entre o pândego e inocente bozo maléfico de Cesar Romero (da série televisiva sessentista recheada de onomatopeias) até o icônico gângster gótico de Tim Burton, vestido pelo não menos icônico Jack Nicholson. Curiosamente, 22 era o número atribuído à carta do Louco, no Tarô.

Outro hiato e eis que surge o assustador Coringa de Heath Ledger e, pouco depois, a mais criticada versão, vivida por Jared Leto; e mais duas (de Roger Stoneburner e Cameron Monaghan), que passaram praticamente despercebidas, salvo pelos que assistiram as séries Mulher Gato e Gotham. O fato é que Ledger não chegou a curtir os louros da vitória em vida, já que demorou para se despir do Exu brabo que encarnou, além de sua versão do Coringa ter sido rapidamente “substituída” pela atuação cristalina de Phoenix. 

Seja como for, frequentemente nos deparamos nas redes sociais com memes comparando as várias versões do palhaço do crime nas telas, rendendo críticas e homenagens às mesmas. Não venho por meio deste artigo defender ou rebaixar esta ou aquela versão, mas expor as muitas versões do personagem no cinema e elucidar os momentos e fases nas HQs que serviram de base para cada uma.


Cesar Romero - Batman (1966)

Em 1966 Adam West desponta como o Batman nada fitness que faltava pouco dar mesada ao Robin bambino vivido por Burt Ward. A série foi ao ar pela American Broadcasting Company (ABC) - que hoje emplaca nomes como Grey’s Anatomy, The Good Doctor e How to Get Away With Muder - e chegou ao Brasil pela TV Paulista, na época, canal 5, ainda em preto e branco, que mais tarde foi comprado pela Rede Globo, que passou a exibir a série em horário nobre até ser repetida à exaustão no SBT, como as séries Chaves e Chapolin, tendo animado a infância da década de 1980. Cesar Romero fez um Coringa caricato que tinha tudo a ver com o personagem e com o clima da série.

Filho de uma cantora cubana e neto do lendário José Martí*, sua família decaiu economicamente após a crise de 1929 e logo em seguida, Romero ingressou na carreira de ator, já interpretando gangsters italianos. Contracenou com Carmen Miranda em Aconteceu em Havana (1941) e até com Frank Sinatra em Onze Homens e um Segredo (2001), mas seu papel como Coringa foi o que realmente alavancou sua carreira, que nunca chegou ao estrelato, sempre em papéis coadjuvantes. A série do “Soc, Tum, Pow” voltou à ativa na televisão brasileira em canais inexpressivos, mas só veio à tona mesmo no início dos anos 2000, com uma paródia youtúbica a la Tela Class. “Santa Feira da Fruta, Batman!” 


*José Juan Marti Pérez. Político, jornalista e poeta cubano


Jack Nicholson - Batman (1989)

Com o passar dos anos o personagem amadureceu a duras penas no inconsciente coletivo dos leitores. Cortesia de Danny O'Neil (falecido recentemente, no dia 11 de junho) que, junto a Neal Adams, devolveu o homem morcego às suas origens obscuras. A tão aclamada trilogia de Christopher Nolan onde Ra's al Ghul aparece como mentor e responsável pela parte essencial do treinamento de Bruce Wayne para posteriormente se tornar um inimigo  não teria existido já que o mesmo fora criado por ambos. Danny O'Neil mergulhou fundo na psiquê do personagem e trouxe a sombra à tona... ou devolveu Batman a ela. Com essa fase e a abordagem posterior de Frank Miller, ninguém melhor do que Tim Burton (com sua estética trevosa e ao mesmo tempo fofinha) e Jack Nicholson (com sua conhecida careta emblemática presente em O Iluminado) para fazê-lo.

A despeito das duas risíveis continuações (de Joel Schumacher), o universo de Tim Burton funcionou muito bem até o segundo filme, com talvez o melhor Pinguim já concebido e uma Mulher-Gato de fazer inveja à Madonna no clipe Erotica, que só seria lançado quatro meses depois do filme. Ambos passaram por extenso e intenso trabalho de maquiagem, mas o personagem de Danny DeVito era um Quasímodo gângster e tinha de ter toda a sua fisionomia alterada enquanto as caras e bocas de Jack Nicholson eram mais que suficiente para dar vida ao Coringa. A simples menção pelo cirurgião plástico de que os nervos faciais haviam sido totalmente seccionados era o bastante para que acreditássemos mais tarde ao ver o seu sorriso.

Como era de praxe dos antigos filmes de quadrinhos, a versão para as telonas era sempre um paliativo e a história original era modificada para se adaptar a um longa metragem. O Coringa morre no final e foi o responsável pela morte dos pais de Bruce Wayne. Heath Ledger deveria ter dado ouvidos a seu antecessor, já que todo ator que encarna o palhaço já dançou com o demônio sob a luz do luar... 


Roger Stoneburner (Quem?) - Aves de Rapina (2002) 

Muito antes do filme, houve uma série das Aves de Rapina pela The Warner Bros Television (TWB), onde o Coringa, durante um  flashback, atira em Barbara Gordon, reproduzindo o canônico episódio retratado em Batman: A Piada Mortal (1988). Embora o desconhecido Roger Stoneburner esteja caracterizado de uma forma cômica (no mau sentido para o personagem), sua participação na trama foi tão pálida que seu nome nem apareceu como parte do elenco. O Coringa foi creditado a 


Mark Hamill (Ele?!) - Batman: The Animated Series (1992)

O primeiro Luke Skywalker de Guerra nas Estrelas, que emprestou sua voz ao personagem durante a série e para o desenho animado Batman: The Animated Series (1992), além da série de games Batman: Arkham.

Heath Ledger - Batman: O Cavaleiro das Trevas (2008) 

Ledger realmente entrou no personagem! Ou talvez tenha sido ao contrário e o personagem tenha se recusado a sair, como cogitei no sexto parágrafo. A caracterização da boca é um show à parte e voltou a entrar em cena na HQ Coringa (2008), de Brian Azzarello.

O motivo pelo qual a boca foi cortada nunca é revelado ao longo do filme, assim como o motivo pelo qual não tem impressões digitais, suscitando a ideia de que teria caído no ácido, como conta a história original do personagem e é mostrado no Batman de Tim Burton. O sorriso psicótico é conhecido no estudo da linguagem corporal como a contração da AU13 (Unidade de Ação 13), o músculo Angulis Oris, tão bem representado por Jack Nicholson e dramatizado na cicatriz de Ledger.
Se o Coringa de Phoenix nos dá pena e nos desperta empatia pelo personagem, o de Ledger dá medo e… nojo! Seu terno sujo, sua maquiagem mal feita e seu cabelo desgrenhado nos passam muito mais a impressão de abandono que justifica sua fala: “Eu sou só um agente do caos…” Muito mais que um flagelo social, o Coringa de Ledger é uma entidade… a própria Sombra da psiquê humana encarnada. 

Cameron Monaghan - Gotham (2014 a 2019) 
Em Gotham, o proto-Coringa passa por uma verdadeira metamorfose ao longo da trama tal como um personagem nipônico evolui. Trabalhando o arquétipo dos gêmeos, a série apresenta os irmãos Jerome e Jeremiah Valeska.

Não vou me alongar acerca de ambos portanto vamos nos ater ao primeiro. Seu aspecto deriva da HQ A Morte da Família (2016), onde o Coringa se submete voluntariamente a uma cirurgia estética. Cortesia do Mestre das Bonecas (que, a meu ver, foi descaradamente chupinhado e num próximo artigo vou mostrar de qual personagem). O sorriso cortado fica por conta do filme estrelado por Ledger. 


Jared Leto - Esquadrão Suicida (2016)

Chegamos ao tão criticado Coringa de Jared Leto. E vou dizer a vocês que não vou criticá-lo. “O quê?” - você se pergunta aí em sua tela. Isso mesmo! Sou bastante chato e crítico, mas Leto não mandou mal. “O QUÊ?!” Sim, ele não mandou mal não.

Embora Leto estivesse parecendo uma mistura de Marilyn Manson com MC Guimê, o Coringa de Esquadrão Suicida é criticado por ter sido uma versão infiel ao personagem, quando na verdade é um blend do Coringa de Batman: Descanse em Paz (2013), HQ de Grant Morrison, com as risadas presentes em Batman: A Piada Mortal (1988) tatuadas em seu corpo. Os dentes blindados foram só pra dar o estilo gangsta.


Joaquin Phoenix - Coringa (2019) 

Depois do assustador e asqueroso Coringa de Heath Ledger, todo mundo se perguntava quem seria o próximo ou quando haveria um tão bom assim. Onze anos após o fatídico personagem ter bombado (literalmente) as telonas, Joaquin Phoenix é escalado para protagonizar um filme… do vilão!

Quando assisti o trailer, pensei: "Ou vai ser muito bom, ou vai ser uma m...!", e o filme realmente dividiu o público e a crítica, principalmente os fãs de quadrinhos e do personagem. Não que eu duvidasse da atuação de Phoenix, mas tanto a caracterização me parecia duvidosa quanto a cena das pessoas mascaradas; uma clara alusão a V de Vingança.

O Coringa como palhaço de rua em De Volta à Sanidade

O que ninguém parece ter percebido é que a evolução do personagem e toda a sua ambientação lembram a HQ De Volta à Sanidade (1995), da antiga publicação Um Conto de Batman. O trocadilho presente no nome original (Going Sane) se perde na versão brasileira e a trajetória do personagem de Phoenix dramatiza exatamente o trocadilho: go insane... A cena da entrevista no final do filme está presente na HQ O Cavaleiro das Trevas. 


O Homem que Ri (1869/1928)

Um certo personagem de Victor Hugo foi a eminência parda por trás do personagem, principalmente para as versões de Ledger, Monaghan e Phoenix. Lançado em 1869, O Homem que Ri (L'Homme Qui Rit) não fez muito sucesso, mas se tornou um longa metragem em 1928 pelas mãos do cineasta alemão Paul Leni. Houve até uma HQ com este título.


Conrad Veidt

A história? O pai de do menino Gwynplaine traiu o Rei James II, da Inglaterra, e foi condenado à dama de ferro (instrumento de tortura que, entre outras coisas, batizou a banda Iron Maiden e serviu de alcunha nada lisonjeira a Margareth Thatcher). Para o menino, foi encomendada uma pequena “cirurgia” que o deixaria “sorrindo” pra sempre. Para ganhar a vida, ele, uma menina por quem mais tarde se apaixonou e um velho que os adotou fazem pequenos espetáculos mambembes.
O corte na boca é o detalhe presente no Coringa de Ledger. O proto Coringa da série Gotham tanto possui o corte na boca como cresceu em um circo, mas o Coringa de Phoenix é o cerne da questão lavantada em O Homem que Ri. Em um determinado momento do romance, Gwynplaine exclama para um lorde: "Eu sou um símbolo. Ah, vocês todo-poderosos, abram os olhos. Eu represento a todos. Eu encarno a humanidade (...)". Ambos, tanto Gwynplaine quanto o Coringa de Phoenix, são representações do lumpen. O Quasímodo, de O Corcunda de Notre Dame (também de Victor Hugo), o Povo de Rua, da umbanda, o Zé Ninguém, de Wilhelm Reich... e talvez até Legião, da Bíblia.
Claudio Siqueira- formado em Jornalismo pelas Faculdades Integradas Hélio Alonso (FACHA), autor da primeira monografia sobre Storytelling & Transmídia da Cidade Maravilhosa, cheia de embustes mil.



Na educação de forma mais ampla, a prática de contar histórias é uma das mais antigas. Desde as épocas em que a humanidade vivia em cavernas, os caçadores ensinavam as técnicas de caça para as novas gerações ao redor das fogueiras. "As cavernas modernas são as empresas, e elas também estão percebendo que contar histórias é vantajoso para treinar e motivar", afirma Fernando Palacios, fundador Storytellers Brand ´N´ Fiction. Ele explica que uma história é como uma esponja, capaz de absorver qualquer tipo de conhecimento. "Nos dias de hoje já sabemos que se aprende muito mais sobre negócios assistindo a seriados como House of Cards, Game of Thrones ou Breaking Bad do que recorrendo a livros técnicos." Em entrevista exclusiva ao portal Callcenter.inf.br, Palacios fala sobre as vantagens de usar o Storytelling, como colocar em prática e os desafios.

Qual o principal diferencial dos Storytellers?
As histórias são contadas por meio de enredos, palavra que remete a rede. As narrativas são assuntos distintos que se entrelaçam formando uma série de tramas. Então, ao invés de lidar com um assunto por vez, um enredo consegue lidar com uma série de temáticas simultaneamente. Quando refletimos sobre o Aladdin da Disney, podemos concluir que é uma história da força do amor, mas também de disputa de classes, e também do valor da amizade, sem deixar de ser uma discussão entre o que é certo e errado na sociedade... e assim por diante. A audiência pode não se dar conta, mas ela está diante de todos esses temas. Com isso é possível treinar e motivar ao mesmo tempo, por exemplo. Ou instruir e vender.

Como as empresas podem utilizar o Storytelling para treinar os colaboradores?
Dando exemplos para contextualizar a informação que está sendo ensinada. Quando uma professora primária diz que 2+2=4, ela pode acabar complicando a vida da criança, já que abstrair tende a ser mais difícil do que visualizar. Então, para facilitar, ela diz que Pedrinho tinha 2 maçãs e ganhou duas e assim ficou com 4 maçãs. OK, já facilitou. Pelo menos agora está menos abstrato. Isso não deixa de ser um princípio de storytelling. O problema é que a criança não sabe quem é Pedrinho e qual a vantagem de duas maçãs a mais na vida dele. Agora, se a história for da Magali que já tem 2 maçãs e só precisa de mais duas para matar a fome, então fica mais fácil de acompanhar e até torcer. E a partir do momento que o aluno está na torcida, ela presta muito mais atenção aos detalhes, já que qualquer coisa pode fazer a diferença para o sucesso. Ou seja, na educação, as histórias podem ser utilizadas como um contexto mais interessante para transmitir a informação.

E para motivar?
Existe um detalhe fundamental: a história não é sobre o assunto que está sendo ensinado. No exemplo anterior, a história não é sobre as maçãs, mas sobre a Magali. As maçãs não passam de um pano de fundo para que os alunos acompanhem a Magali em mais uma aventura. Poderia ser o Cebolinha juntando quatro gravetos para preparar um plano infalível. Isso gera uma humanização na comunicação e facilita com que as pessoas possam criar uma identificação com o que está acontecendo. Dessa empatia surge a motivação.

Quais os principais desafios para sua adoção?
Não é possível "substituir" o processo formal por storytelling. Esse contexto é algo que deve ser feito "a mais". Depois de fazer todo o conteúdo é que é possível revestir com uma história. Isso implica num investimento maior de tempo e energia. O desafio é saber selecionar quais mensagens são mais importantes e realmente merecem ser transformados em história.

Como esse uso do Storytelling pode auxiliar as empresas de call center?
Tanto no treinamento, como na própria abordagem. Boas histórias podem ajudar tanto no call center reativo quanto no pró-ativo. Vamos pensar em um call center que recebe reclamações de consumidores. Vamos supor que a reclamação seja barulho sendo feito na rua durante a madrugada. Se além de pedir desculpas pelo ocorrido o atendente souber contar a história que está motivando o problema, as questões de segurança que estão sendo trabalhadas, os cenários que estão sendo evitados e os motivos por que o horário não pode ser transferido, o consumidor vai ficar mais convencido de que o barulho é inevitável e que a empresa não é culpada

Esse post foi originalmente postado no Portal Callcenter.


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O mercado internacional reconhece o impacto e a efetividade dos trabalhos de product placement. Fosse diferente, a maioria das superproduções não teriam a introdução das marcas durante as cenas. Para alguns especialistas, o Brasil parece ainda engatinhar no tema, apesar de já ter algumas iniciativas interessantes. Uma delas, criada pela J.Walter Thompson, chamou a atenção de parte do público do Twitter.

No penúltimo capítulo da novela Império, exibida pela Rede Globo, o vilão José Pedro (Caio Blat) bebeu uma Coca-Cola momentos antes de sequestrar a própria irmã (Leandra Leal). "Estou ansioso. Fiquei até com a boca seca. Adeus, bastarda", disse o personagem, ao lado de Maurílio (Carmo Dalla Vechia). Na sequência, durante o sequestro, Maurílio segura a lata vazia na mão e questiona o que fazer com o objeto, que agora tem impressões digitais.

Ao tentar jogar a embalagem no lixo, entretanto, o personagem erra o alvo, e o item cai na rua. A última cena parece deixar evidente a importância que a lata da Coca deve ganhar no desfecho do último capítulo da trama. Entretanto, parte do público do Twitter não entendeu a ação como um encaixe bem contextualizado. Uma enxurrada de críticas sobre a introdução do produto nas cenas ganhou a rede social. A maior delas: a associação do vilão com o produto.

Para Fernando Palacios e Fundador da Storytellers Brand´n´Fiction, a questão é também a própria cultura do brasileiro com relação à polarização entre mocinhos e vilões. "A estratégia foi ousada. Enquanto os Estados Unidos investem cada vez mais em seus vilões, o Brasil ainda tem esse apego dicotômico ao herói bonzinho e ao vilão malvado", acredita.
Para Palacios, talvez o fator mais grave esteja em outro ponto. "Colocar uma Coca-Cola na mão do vilão no penúltimo episódio certamente daria o que falar. Talvez o escorregão esteja no fato de que a Coca-Cola se posicione como a marca ‘Embaixadora da Alegria’ e essa associação com a vilania acaba ficando estranha", explica.

Ainda assim, Palacios lembrou que a mesma Coca-Cola já se arriscou em cenas de placement com o contexto parecido. "No seriado Breaking Bad, a Coca-Cola também apareceu em contextos de vilania, tanto quando o protagonista Walter White compra o lava-rápido para lavar seu dinheiro, como na cena icônica do episódio ‘Say my name’ em que ele diz que sua droga é a melhor e que se ele morrer seria como acabar a Coca-Cola do mundo", finalizou.

Post publicado originalmente no portal Adnews



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