Hoje não é um dia qualquer, é dia em que na rua todo o mundo se deseja boas festas. Dia 24 de dezembro é a véspera de um dos aniversários mais importantes da História. Falando em aniversário, todo o mundo conhece a cena. Todos ao redor da mesa, que ao centro tem um bolo e alguém acende as velas. As luzes abandonam o ambiente para dar lugar às palmas e ao canto em coro. Ao final o aniversariante apaga o fogo com um sopro. O ritual é idêntico em boa parte do planeta. Mas será que o aniversariante não está sendo enganado?

No dia 30 de maio completei 33 anos. Alguns dizem que é "a idade de Cristo". Acontece que no Vietnã me ensinaram que fui enganado. Não sobre a idade de Cristo, mas sobre os 33 anos. Ao conversar com os moradores da Bahia de Halong, eles garantiram que os ocidentais todos são ludibriados sobre suas idades. Fiquei curioso e perguntei mais a respeito.

A Bahia de Halong é composta por milhares de ilhas e assim que se descobrem grávidas, as mães são abandonadas em uma delas com suprimentos. Assim como cantamos parabéns, para eles isso faz parte de um importante ritual. A mãe e seu filho que ainda não nasceu precisam sobreviver por meses para provar que são fortes e merecedores da experiência da vida. Por isso, a data do aniversário não está ligada ao momento em que o bebê saiu da barriga e, sim, quando foi concebido. Nove meses antes. Se pensar assim, meu aniversário deveria ser 30 de setembro. Passei 33 anos comemorando errado.

A mesma coisa vale para empresas. Quando será que devemos celebrar a fundação da Storytellers? Quando surgiu a ideia? Quando deixou de ser ideia e foi registrada em cartório? Quando surgiu o primeiro cliente? Pois é, a história de origem é sempre complicada.

No caso da Storytellers poderia ter sido na origem do primeiro insight, que aconteceu em 2005 ou na formatação da ideia de forma mais estruturada, que se deu através de uma apresentação de Power Point para amigos e parceiros. Isso foi em meados de 2006 e o arquivo em si se perdeu, então a data não pode ser especificada. Olha aí a importância dos registros históricos.


Ao buscar as primeiras datas, encontramos o registro do domínio do site. Nesse caso, hoje, dia 24 de dezembro, essa alfaiataria de histórias completa oito anos de jornada. Até por isso estou escrevendo esse post hoje.


Mas o fato é que nem sempre alguma coisa nasce no momento em que é registrado. Sobretudo uma empresa.  Os especialistas insistem que "a ideia não vale nada, o que vale é a execução".  Então na prática a empresa só teria vida a partir do momento em que passou a realizar os primeiros projetos. A primeira apresentação da Storytellers para empresas foi feita no dia 21 de março de 2007. Nesse caso, teria agora 7 anos e 3/4 de vida.


A primeira proposta oficial para um cliente foi feito em parceria com a agência Lew Lara no primeiro dia do mês de junho de 2007. Nesse caso, 7 anos e meio de vida.


Esse projeto foi muito elogiado: transformar slides de PPT de uma convenção em um espetáculo teatral, mas não havia tempo hábil para realizar. O primeiro projeto que de fato foi aprovado e realizado foram as Aventuras no Livro de Mini-Schin, em parceria com a agência Id/TBWA. Esse aconteceu no dia 4 de setembro de 2007 e a Storytellers estaria com 7 anos e 1/4 de vida. O resultado desse primeiro projeto pode ser visto aqui.


Também podemos considerar quando a metodologia exclusiva e proprietária foi foi constituída, o que aconteceu junto com o primeiro trabalho acadêmico de Storytelling no Brasil, defendido junto à Universidade de São Paulo, no dia 21 de novembro de 2011. Nesse caso, sete anos e um mês.


Tudo isso para dizer que é difícil escolher quando cantar os parabéns. Aliás, o dia de hoje é uma prova disso. Em nenhum lugar da bíblia está escrito que Jesus nasceu dia 25 de dezembro. Não havia registros na época. Mesmo que tivesse, a data estaria errada, já que o calendário gregoriano foi atualizado de lá para cá. Acredita-se que a data de 25 de dezembro foi escolhida para coincidir com a celebração do solstício de inverno dos romanos, facilitando a assimilação do cristianismo para os antigos pagãos. Ou seja, mais importante do que saber o dia exato para bater palmas é ter o ímpeto de comemorar!

Mesmo que a data não seja essa, não custa nada desejar: Parabéns e Boas Festas!




Quem já escreve, seja para cinema, literatura ou HQ uma hora ou outra se depara com esta pergunta: Como eu escrevo ou qual formato de roteiro que devo usar para um jogo?

by michalivan


Bem, para trazer a luz sobre este assunto busquei referências na IGDA - International Game Developers Association, através da autora Wendy Despain: 

Conformidade não é comum nesta indústria. Eu vi essa percepção colocar escritores de outras disciplinas em ataques de pânico prolongados. Escritores estão acostumados a receberem um conjunto estruturas e a liberdade para preencher essa estrutura e decorá-lo da maneira que quiserem . Com jogos não é assim que funciona . Na verdade, às vezes, é exatamente o oposto. Você recebe uma atribuição onde não se importa com o formato , mas que sua narrativa precisa ter uma princesa , um encanador, e um monte de cogumelos. (Professional techniques for video game writing)


Isso acima quer dizer que cada escritor vai criar o seu formato de acordo com o projeto. E, sim... eles podem ser bem diferentes.  Claro que esse tipo de resposta pode ser frustrante então não vamos ficar por aqui. 

Apesar de não ter um padrão e de "talvez" ser inviável se apegar em algum padrão, devido as inúmeras variáveis relacionadas a um projeto de game, ainda sim é possível considerar algumas formas de escrever um roteiro interativo. 


Sai Word entra Excel


Pois é, estamos falando de planilhas.  Diferente do cinema e da TV, muitas vezes um roteiro de game não é feito para ser lido - sei o quanto paradoxo é dizer isso, mas é verdade.  A história do jogo e seu arco deve ser compreendida no game ou story treatment. 

A planilha serve para inserir no banco de dados ou no sistema de jogo os diálogos de maneira mais eficiente para que se possam identificar com rapidez.  Percebam que alguns gêneros de jogos como MMORPG, podem ter roteiros de diálogos que passam das 10 mil linhas. 

Dentro dessa planilha algumas anotações podem ser inseridas para quem está produzindo o jogo, como os eventos que podem disparar um diálogo: conquista de um item ou nível, por exemplo.




Um fator extremamente importante é que novos formatos de games são inventados a cada momento, e não apenas os formatos, mas os avanços tecnológicos acabam impactando tremendamente na narrativa.

Nem sempre você vai utilizar essa planilha de diálogo para escrever um jogo. E quando pensamos em um Branded Game ou Advergame, muitas vezes seu desenvolvimento acaba sendo mais simples, por isso é interessante ter o feeling para identificar qual ferramenta, técnica ou forma de narrativa vai aplicar a cada projeto. 

Quer desenvolver uma narrativa potente e imersiva para alguma ação da sua empresa? Entre em contato com a gente por este link - www.storytellers.com.br/p/contato_19.html



E se eu te disser que ninguém fala a verdade? Você acreditaria?

Seja do ponto de vista filosófico ou linguístico, a comunicação humana é toda baseada no pensamento abstrato, o que significa que nós falamos das nossas impressões sobre a realidade e não sobre a realidade em si.

Freud já dizia que nossas memórias não são tão fiéis quanto pensamos e que cada vez que recontamos nossas histórias estamos reescrevendo nossas lembranças.

A neurociência prova que muitas das nossas memórias são afetivas, ou seja, estão vinculadas a emoções, ou seja, elas podem corresponder mais a sentimentos do que a fatos.

Então toda vez que você ouvir uma história ou mesmo contar uma lembre-se que tanto o seu cérebro quanto o do seu interlocutor não são confiáveis!

;)

By timbayo


"Eu quero escrever um game, sobre um ditador baseado em uma personalidade real. Como fazer isso de forma subjetiva?

Ora, as ferramentas que precisa são as figuras de linguagem: Metáforas, alegorias e outras que são empregadas nos textos como a farsa, desde a idade média." 



Esse diálogo acima foi inspirado em uma discussão que presenciei (e participei) essa semana em um grupo de desenvolvedores de games no FB.  É um hábito frequente de developers e game designers se pautarem em conhecimentos específicos de games para falar de Storytelling.

Com toda certeza o gameplay ou mecânica é essencial, aliás existem jogos feitos sem histórias - talvez com uma ficção mínima, sugestiva apenas.  - , então vamos desconsiderar estes dois conhecimentos nesse momento, sobrepondo a discussão da sua necessidade e focar na narrativa.

Independente do meio em que uma história aconteça, Storytelling é storytelling. Uma comédia é uma comédia e uma jornada heroica ainda é o monomito.  Pra escrever bem, uma boa narrativa primordialmente depende das ferramentas certas de imersão narrativa.  Os diálogos por exemplo, oriundos da dramaturgia, são essenciais para fazer um personagem se identificar com aquele jogo e com sua saga.  Mas ninguém vai aprender a escrever belos diálogos apenas consumindo jogos e sim, estudando obras de nomes como Quentin Tarantino.

No caso representado no diálogo acima a resposta foram simples figuras de linguagens, ferramentas próprias da nossa língua portuguesa, o que nos leva a perceber que não basta apenas dominar a gramática para escrever bem. Existe muito mais em uma história do que se pode imaginar.  O fato de você estar escrevendo seja para uma HQ, Cinema ou Game não exclui a necessidade de entender as bases do romance, da narrativa épica ou da morfologia dos contos de fadas.  Até porque se tiver uma conversa com grandes autores perceberão que eles te darão aulas sobre isso.

Quer mesmo saber quais são as ferramentas da imersão narrativa ou storytelling? Estude sobre a escrita. Quer mais uma ajuda? Fique atento aos cursos da Storytellers aqui





Não! Nenhuma palavra é por acaso. Isso eu te garanto. Do cinema hollywoodiano ao mais amador dos poemas, eu posso garantir que, experiente ou não, nenhum escritor, seja ele um adolescente apaixonado ou um redator publicitário, coloca palavras em vão no papel.

Aliás, escrever em si já é um ato consciente, não nascemos sabendo idiomas, regras gramaticais e muito menos os significados sutis das palavras, portanto, nem que seja a consciência da “força que nos domina” ao escrever, estamos sempre conscientes de alguma forma.

Há quem diga que o que está no papel é ficção, por isso cunhamos o “baseado em fatos reais” e não o “essa é uma história real”. Se estamos conscientes é porque temos alguma, nem que seja pouca, experiência de vida. E dizem os especialistas, filósofos, sociólogos e até alguns pensadores de boteco que são essas experiências que criam, no fim das contas, as lentes pelas quais enxergamos o mundo.
Hitchcock já dizia que a “história é a vida sem as partes chatas” e para quem assistiu Storytelling, o filme,  a mensagem é clara: não importa quão baseada em fatos reais seja a sua história, ela será, sempre que posta no papel, uma ficção.

Esse é, no fim das contas, o trabalho de muitos de nós, a descoberta das palavras, a brincadeira despretensiosa com a linha de equilíbrio entre a realidade e a ficção. A válvula de escape do que está preso dentro de nós. A nossa profissão é a constante busca pelo poder de transformar uma sala de cinema em uma máquina de viagens intercorporais. Um livro é uma porta para o outro lado da janela, o lado de dentro dos olhos de outra pessoa.

Assusta-me o espanto das pessoas quanto a descoberta da ficção na publicidade. Não consigo entender como é que podemos esperar realidade em anúncios que tem por objetivo maior alterá-la e torna-la palatável. Não estamos falando de mentiras, estamos falando de um ato natural de mostrar o melhor que podemos sobre os nossos produtos e marcas, apenas isso. É como uma conquista qualquer, ninguém sai por ai demonstrando todos os seus defeitos no primeiro encontro.  

Há entre o acordo de suspensão da realidade e uma redação publicitária, muito mais do que a nossa vã filosofia é capaz de imaginar. “Abrir a felicidade” é tão ficção quanto a história do avô que veio da França com sua receita de sorvetes na qual um dos principais ingredientes é a neve. Usar neve para fazer sorvetes não é absurdo o bastante para que entendamos que a história é uma ficção? Ou quando abrimos uma lata de Coca, saem dela raios da cor do arco-íris recheados de felicidade?


Não! Nenhuma palavra é por acaso. Ainda mais quando escritas por mais de 4 mãos e 2 cabeças. Ainda mais quando admitimos que entidades corporativas não humanas, símbolos artificiais com significados cuidadosamente criados através da utilização de ciências que vão desde etimologia e semiótica até a física das cores e química das tintas, todas resumidas como “branding”. Não entendo, enquanto sento na frente do meu computador de onde é que veio a expectativa de que o sorvete de neve era real. Realmente, não entendo. Houve, é claro, um erro na criação da história. Algo que a tenha a feito parecer um pouco mais absurda, ou seja, ficcional, talvez fosse a solução. Talvez se na histórias houvessem monstros e elfos o mercado não estaria tão inconformado. O que nos leva ao ponto mais curioso de toda a discussão entorno da ética do storytelling: vivemos em um tempo no qual para ser verdadeiro, talvez precisemos ser fantásticos. 


Nos últimos dias do ano o Storytelling tem sido alvo de denúncias, debates e, inevitavelmente, bastante senso-comum. Os recentes escândalos envolvendo as histórias que contam os sucos Do Bem e a Diletto acenderam a questão: quais são os limites da ficção na publicidade – mais do que isso – no branding, na construção de marcas?


Durante mais de um ano, quando Diletto ainda não ocupava as páginas policiais dos principais portais, me propus a estudar o tema sem atirar pedras ou moralizar o assunto. O resultado, para quem quiser ler, está aqui.

De uns dias para cá, o novo jargão entre publicitários e entusiastas das marcas tem sido algo como “marcas não devem contar histórias, marcas devem fazer histórias”. O que faz, sim, muito sentido. Mas para se fazer histórias, primeiro, é preciso saber contá-las. Já sabemos contar histórias?

Fato é que, ultimamente, como espectadores ou como consumidores, temos buscado cada vez mais aquilo que nos é, ou ao menos nos parece, mais real e autêntico. Ao mesmo tempo em que queremos que as frutas dos sucos Do Bem sejam mesmo produzidas pelo senhor Francesco, no interior de São Paulo, não toleramos mais usos e abusos no Photoshop nas capas de revistas e lotamos salas de cinema para ver cinebiografias autorizadas de grandes estrelas.

Qual é a realidade que estamos buscando?

Entre os principais cotados para o Oscar do ano que vem, até agora, temos 3 cinebiografias (A Teoria de Tudo, O Jogo da Imitação e Invencível) e o favorito Boyhood, filme que, para contar a passagem da infância para a fase adulta, esperou por 12 anos para que os atores e atrizes envelhecessem naturalmente.


Em “Simulacros e Simulações”, um livro pra lá de cabeludo que usei em meu estudo sobre Storytelling e Ficção na construção da Diletto, o autor Jean Baudrillard defende que a realidade, puramente, já não existe há tempos. O que buscamos são simulacros de realidade – imagens em FullHD que, tão bem imitam a realidade, acabam se confundindo e por vezes sendo mais reais que elas.

Assim como na antiga fábula, onde era bem vista a formiga, que produzia, e condenada a cigarra que só fazia consumir – a realidade nos parece o polo positivo e a ficção o polo negativo. O nobel da literatura, Mário Vargas Llosa, defende que a ficção é mais verdadeira que a realidade, quando pode moldar uma história para contar uma verdade que a realidade jamais seria capaz por si só.

Quando o assunto é publicidade e construção de marcas, me parece, mais do que nunca o consumidor prefere a realidade e nada menos que ela. Uma coisa não muda: seja realidade, seja ficção, histórias não se contam sozinhas. Das telas do cinema aos comerciais de tevê, para uma história ser legítima e autêntica sempre serão precisos Storytellers de verdade.



Esse post foi publicado originalmente pelo portal AdNews.

"Conte a verdade, mas faça com que ela seja fascinante". A frase é do lendário David Ogilvy e poderia resumir o conceito de storytelling, se de fato esse termo já existisse na época. Nesta semana ganhou destaque uma discussão importante sobre o uso da ferramenta pelas marcas para gerar engajamento com os seus consumidores. 

O assunto entrou na pauta do trade após o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) resolver avaliar denúncias envolvendo a comunicação das empresas Diletto (sorvetes) e Do Bem (sucos) e possíveis "mentiras" em suas histórias.

A primeira delas diz que a marca foi criada por um imigrante italiano, Vittorio Scabin, que veio ao Brasil após fugir da segunda guerra mundial. Acontece que tal personagem nunca existiu, como desmitificou uma matéria da revista Exame. No segundo caso, a Do Bem diz que suas laranjas são fresquinhas, cultivadas e colhidas na fazenda de um senhor chamado Francesco. Acontece que grande parte das frutas é fornecida pela Brasil Citrus.

Tais gargalos podem comprometer a credibilidade do Storytelling? O impacto maior será no consumidor, que vai desconfiar cada vez mais das histórias "espetaculares" das marcas? Ou no anunciante, principalmente aqueles que já olham para a ferramenta com alguma desconfiança? O Adnews convocou três especialistas no assunto para debater a questão:

Fernando Palacios, professor de Storytelling na ESPM e Diretor da Storytellers Brand´n´Fiction
O consumidor talvez fique mais ligado e até mais calejado com esse tipo de ação. Das próximas vezes talvez até pesquisa no Google mais sobre o assunto. Pelo menos a parcela que se sentiu muito ofendida ao saber da verdade. Muita gente nem ligou e até defendeu dizendo para tomarmos o cuidado de não levarmos a comunicação para um caminho cada vez mais enfadonho, já que entre alguém berrando que agora está mais barato e uma história simpática, o segundo caminho é mais agradável ao próprio consumidor. É só uma questão de como conduzir o processo, de não induzir o consumidor ao erro.

Claro que o assunto vai repercutir nas empresas. Os profissionais que já estão ressabiados com o termo tendem a apontar o dedo e dizer 'viu só?' 
Só que vale lembrar que Storytelling não é apenas uma ferramenta. Estamos falando de um conceito que abrange grande parte das atividades humanas. Vamos ao cinema para assistir a histórias, quando estamos no bar com os amigos contamos histórias, assim como as conversas do café. O tempo todo estamos cercados por narrativas e é impossível fugir disso.

Sábio é o executivo que aprende com os erros dos concorrentes. Ele pode perceber que não é esse tipo de Storytelling que deve ser feito, ou pelo menos não desse jeito. Mas uma coisa é inegável: algo de muito certo essas empresas fizeram, ou não teriam feito tanto sucesso em tão pouco tempo. Nem estaríamos todos debatendo sobre elas.


Nesse caso, a lição é simples e eu já ensinei mais de mil alunos sobre isso: se não aconteceu de fato diga que é uma ficção e ponto. E se aconteceu no mundo real não diga que é verdade, mas que é baseado em fatos reais. Toda história tem muitos lados.



Para finalizar, vale ressaltar que esse tipo de acontecimento sempre é bom para o mercado, pois o ajuda a amadurecer. Se Do Bem e Diletto tivessem buscado uma consultoria de Storytelling, elas não estariam nessa situação. Cada vez vai ficar mais difícil contar histórias corporativas baseadas apenas em intuição. Que venha e profissionalização e que ela traga grandes histórias.

Para ler a matéria completa acesse o post no AdNews.
Para participar dessa discussão, deixe seu comentário no post.

by Vandad-Farhady

Uma das formas mais clássicas do romance literário é o que a gente chama de Quest Romance, aquele em que o herói passa por uma jornada em busca de algo que possa mudar ou salvar sua vida.

Segundo o professor Jay Clayton de Vanderbilt, especialista em ficção pós moderna.: "Quest é a estrutura arquetípica da narrativa romance. (a mais famosa quest romance pode ser a busca pelo Santo Graal). "

Os leitores mais astuciosos perceberam que essa estrutura arquetípica é a própria jornada do herói e que essa estrutura vai de encontro com o paradigma de Syd Field - vamos observar mais de perto.





Syd Field quando apresentou seu paradigma ele defendeu que o segundo ato deveria ser até o dobro do primeiro ou do terceiro. Visualmente podemos observar isso na estrutura da jornada heroica de Campbell e percebemos os limites de cada estágio.

Primeiro Ato - A apresentação. Aonde a situação e necessidade dramática do protagonista é demonstrada.

A história começa no Mundo Comum, mundo normal do herói antes da história começar. Na hora de escrever é interessante lançar mão da ideia das 10 páginas de roteiro. As páginas iniciais que deve apresentar os elementos básicos para agarrar a audiência. Apresentar o mundo comum é importante nesse momento, porque é quando você deixa claro o que o seu protagonista está abrindo mão.

O Chamado da Aventura - Um problema se apresenta ao herói: um desafio ou a aventura.
Reticência do Herói ou Recusa do Chamado - O herói recusa ou demora a aceitar o desafio ou aventura, geralmente porque tem medo.
Encontro com o mentor ou Ajuda Sobrenatural - O herói encontra um mentor que o faz aceitar o chamado e o informa e treina para sua aventura.
Cruzamento do Primeiro Portal - O herói abandona o mundo comum para entrar no mundo especial ou mágico.


Segundo Ato - A confrontação. Aonde o protagonista vai atrás de sua necessidade dramática e vai passar por provações tentaram impedi-lo de alcança-la. 

O segundo ato já acontece fora do Mundo Comum, exatamente no mundo especial da história, aonde ele encontrará com o fantástico. 

Provações, aliados e inimigos ou A Barriga da Baleia - O herói enfrenta testes, encontra aliados e enfrenta inimigos, de forma que aprende as regras do mundo especial.
Aproximação - O herói tem êxitos durante as provações
Provação difícil ou traumática - A maior crise da aventura, de vida ou morte.
Recompensa - O herói enfrentou a morte, se sobrepõe ao seu medo e agora ganha uma recompensa (o elixir).

Terceiro Ato - O relaxamento. A tensão dramática acaba e a história segue para seu desfecho. 


Um ponto interessante neste ato é que o confronto final não é o fim do texto. Ainda existe um retorno para a casa, a volta para o mundo comum.

O Caminho de Volta - O herói deve voltar para o mundo comum.
Ressurreição do Herói - Outro teste no qual o herói enfrenta a morte, e deve usar tudo que foi aprendido.
Regresso com o Elixir - O herói volta para casa com o "elixir", e o usa para ajudar todos no mundo comum.


Por fim, uma das características do Quest Romance e que funciona muito bem para a literatura é que ele tem caráter episódico, ou seja, o final de uma história sempre vai criar a sensação do início de uma nova jornada.  


Em um determinado momento da história da humanidade um grande ponto de virada ressignificou a forma com que os produtos eram vendidos. Mais ou menos a partir da Revolução Industrial, as marcas deixaram de ser só ícones de origem, da produção, para gerarem valor de consumo.

Daí em diante muitas marcas apareceram, dando opções ao consumidor e um novo desafio para as marcas: se diferenciar.

Só que simplesmente dizer “a minha marca é inovadora”, ou “a minha marca tem tradição” não bastava. Era preciso de algo a mais que endossasse essas qualidades: uma boa história.

Steve Jobs apostou nos primeiros computadores portáteis, inventou o mouse, redefiniu como se pensam os celulares e, acima de tudo, foi polêmico e criou desafetos por pensar sempre à frente. Coco Chanel redefiniu a forma com que as mulheres poderiam se vestir.

Mas e quando a marca não tem uma história para contar?


Recentemente temos visto dois casos polêmicos do uso do storytelling para gerar valor às marcas. Os gelatos Diletto e os sucos Do Bem foram alvo de denúncia por utilizarem histórias “mentirosas” em seu branding.

A Diletto diz ter começado a fabricar sorvetes em 1922 com o avô dos sócios-fundadores. Só que o Sr. Vittorio nunca existiu e muito menos fabricou gelatos. A Do Bem diz que sua matéria-prima vem de pequenos produtores, enquanto tem os mesmos grandes fornecedores das outras marcas de suco.

O dueto entre Storytelling e Branding tem tudo para ser um sucesso no ponto em que os valores da marca contam com o endosso de uma história por trás e, para empresas novas e menores, como as startups, por exemplo, custam muito menos do que uma grande campanha publicitária.

Como podemos criar grandes histórias por trás de marcas sem infringir os limites éticos da ficção? Mais do que nunca, essa é mais uma prova de que Storytelling é muito mais do que contar histórias, é saber contá-las no contexto entre marcas e consumidores, na realidade entre produção e recepção.




Sempre falamos da influência do Storytelling no consumo, mas hoje vamos ver um outro ângulo desse impacto.

As grandes histórias, aquelas que entram para o tecido cultural da sociedade, possuem um poder incomparável: gerar um código próprio de comunicação. 

As pessoas se apropriam do universo simbólico e passam a usá-lo. Um anúncio demonstra o processo de forma genial.



Às vezes isso pode significar mais vendas de um produto, mas em alguns casos específicos o uso é muito mais revolucionário. Um dos casos mais emblemáticos é o V de Vingança.

Alguém desavisado pode até achar que ele está sorrindo. 

O caso mais recente está ligado à saga Jogos Vorazes. O que começou como uma história distópica quase boba, acabou tomando proporções grandiosas. O primeiro efeito foi inaugurar uma nova era de distopias como Divergente e Maze Runner.

A história de Jogos Vorazes é a seguinte: depois de um apocalise nuclear, o mundo viveu um caos até que um grupo conseguisse se organizar em uma nação chamada Panem. Com pouco pão para os pobres e muito circo para a elite, houve uma rebelião. O símbolo dos rebeldes é aquele da foto no começo do texto: o braço erguido com três dedos unidos. A rebelião foi abafada e como medida disciplinar, os estados rebeldes devem entregar dois jovens anualmente. Eles são chamados de tributos, porque é como se fossem lançados ao vulcão: serão colocados em um coliseu moderno onde duas dúzias de jovens irão lutar até a morte. O sucesso de vendas foi espantoso.

Parte do fenômeno editorial pode ser explicado por aquilo que alguns autores chamam de "conjuntuta" e outros mais poéticos colocam como "espírito da época".

Apesar de se passar em um futuro distante, Jogos Vorazes conversa perfeitamente com o contexto social em que vivemos. Panem é composto por uma rica capital cercada por doze distritos pobres. É só visualizar Brasília e suas cidades-satélites. Por essas e por outras, é fácil de traçar o paralelo com a realidade.

Não é por acaso que os manifestantes na Tailândia estão usando o mesmo gesto contra o regime militar que recentemente derrubou o rei.


Nada mais providencial do que esse movimento justamente agora, que o terceiro filme da saga chega aos cinemas. A tela inspira a revolução e os gestos divulgam o filme como se fosse uma invejável ação de marketing de guerrilha.

Não é por menos que a primeira coisa que os ditadores fazem é aplicar a marca registrada das épocas de trevas: queimar os livros. Mas nem as grandes fogueiras dos soldados de Hitler ou dos bombeiros de Fahrenheit 451 são capazes de acabar com as histórias.

como ensina o mascarado de V de Vingança, as ideias e as histórias são à prova de balas. 

O código secreto das grandes narrativas

O fenômeno vai muito além de Jogos Vorazes e V de Vingança. Estamos falando de algo mais profundo: quando uma história transcende o entretenimento e vira tecnologia de transformação social.

E aqui está o insight que a maioria perde: as corporações que entendem esse mecanismo não vendem produtos. Vendem movimentos.

Por que três dedos erguidos viraram resistência global?

Não é coincidência que o gesto de Jogos Vorazes tenha sido adotado em:
Protestos na Tailândia (2014-2020)
Manifestações em Myanmar (2021)
Movimentos estudantis na China (2022)
Protestos no Irã (2023)

O segredo está em três elementos:

  1. Simplicidade executável - Qualquer um pode fazer
  2. Significado carregado - Representa resistência, solidariedade, esperança
  3. Origem narrativa - Vem de uma história que todos conhecem

O mapa histórico: quando ficção vira realidade

1984 de Orwell: A profecia autorrealizável
"Big Brother está te observando" não era apenas uma frase do livro.
Virou o alerta global sobre vigilância.
Hoje, quando denunciamos câmeras excessivas ou invasão de privacidade, usamos "orwelliano" como adjetivo. A narrativa criou a linguagem para criticar a própria realidade que previu. É um meme analógico. Viral antes da internet.

Star Wars: Rebeldes vs. Império
Por que manifestantes em Hong Kong tocavam a marcha imperial quando a polícia chegava?
Porque Star Wars forneceu o vocabulário simbólico universal para opressão vs. resistência.
Não precisam explicar. Todos entendem quem é o Império.

Harry Potter: A geração que cresceu resistindo
"Dumbledore's Army" virou modelo para grupos de ativismo juvenil.
"Não devemos temer o nome das coisas" virou lema contra censura.
A cicatriz em forma de raio? Símbolo de sobrevivência e resistência.
Uma geração inteira aprendeu a questionar autoridade através de uma história sobre bruxos.

O mecanismo psicológico: por que funciona?

1. Identificação sem exposição
Usar um símbolo de ficção é mais seguro que criar um novo.
"Não é política, é só uma referência pop."
Até que todo mundo entenda que é, sim, política.

2. Comunidade instantânea
Ver alguém fazendo o gesto cria conexão imediata.
Você não está sozinho. Você faz parte de algo maior.
É tribalismo narrativo em ação.

3. Narrativa compartilhada
Todos conhecem a história. Sabem como termina.
Os rebeldes vencem.
Isso não é detalhe. É programação mental coletiva.

Quando marcas entenderam o código

Nike: Just Do It
Não é um slogan. É uma filosofia de vida.
Criou uma tribo global de pessoas que "simplesmente fazem".
Atletas? Não. Qualquer um enfrentando um desafio.
Vendas em 1988: US$ 800 milhões
Vendas em 1998: US$ 9,2 bilhões
Coincidência? Não quando você vende coragem, não tênis.

Apple: Think Different
"Pelos loucos. Pelos desajustados. Pelos rebeldes."
Jobs não vendia computadores. Vendia revolução criativa.
Cada Mac comprado era um voto contra o status quo.
Resultado: A empresa mais valiosa do mundo não vende produtos. Vende identidade rebelde.

Red Bull: Te dá asas
Começou como bebida energética.
Virou sinônimo de superar limites.
Patrocina apenas esportes radicais. Por quê?
Porque vende a narrativa de transcender o impossível.

O erro fatal: tentar forçar símbolos
Pepsi e Kendall Jenner (2017)
Tentaram se apropriar de símbolos de protesto.
Uma modelo rica resolvendo tensões raciais com refrigerante.
Resultado: Retirada do ar em 24 horas. Pedido de desculpas público.

Por que falhou?
Símbolos narrativos não podem ser fabricados.
Devem emergir organicamente de histórias autênticas.
Autenticidade não se compra. Se conquista.

Como criar narrativas que geram símbolos (sem parecer forçado)

1. Comece com verdade, não com marketing
Patagonia: "Não compre esta jaqueta"
Parece contrassenso? É honest storytelling.
A narrativa: consumo consciente acima do lucro.
O símbolo: Usar Patagonia = ativismo ambiental

2. Deixe a comunidade se apropriar
Harley-Davidson nunca disse "seja rebelde".
Mas criou uma narrativa de liberdade na estrada.
Os clientes criaram os símbolos: tatuagens, patches, rituais.
A marca apenas forneceu a mitologia base.

3. Consistência obsessiva
Star Wars mantém a mesma narrativa há 45 anos.
Bem vs. mal. Escolha vs. destino. Esperança vs. tirania.
Símbolos precisam de tempo para maturar no inconsciente coletivo.
O futuro dos símbolos narrativos

A lição suprema para líderes e marcas
Você não controla os símbolos que cria.
Mas pode plantar as sementes narrativas certas.
J.K. Rowling não previu que Harry Potter viraria manual de resistência.
Suzanne Collins não imaginou manifestantes usando o gesto de Katniss.
Mas ambas criaram narrativas profundas o suficiente para transcender suas páginas.

Como aplicar isso no mundo corporativo

Para líderes:
Sua visão corporativa precisa de uma narrativa, não apenas de números.
Pergunte-se:

Qual história estamos contando?
Que símbolos emergem naturalmente dela?
Como nossa comunidade pode se apropriar disso?

Para marcas:
Pare de tentar criar "viral". Crie mitologia.
Foque em:

Narrativas que ressoam com verdades universais
Símbolos simples mas carregados de significado
Histórias que empoderam, não apenas vendem

Para movimentos:
A melhor resistência é uma boa história.

Lembre-se:
Ditaduras temem narrativas mais que armas
Símbolos viajam mais rápido que manifestos
Histórias sobrevivem quando pessoas não

O paradoxo final
As melhores narrativas corporativas não parecem corporativas.
Parecem movimentos. Causas. Revoluções silenciosas.
Porque no fundo, toda grande marca é uma história de transformação.
Todo grande líder é um contador de histórias.
E toda grande mudança começou com alguém dizendo: "E se...?"
A revolução narrativa já começou

Enquanto você lê isso:
Alguém está usando um símbolo de ficção para protestar
Uma marca está virando movimento sem querer
Uma história está mudando como pessoas veem o mundo
Uma agência, a  Storytellers, está ajudando líderes e marcas a construir histórias que não apenas vendem, mas transformam.

Descubra o poder simbólico da sua narrativa e como sua história corporativa pode gerar movimento. Afinal, as melhores revoluções começam com as melhores histórias.

Fernando Palacios estuda há 15 anos como narrativas comerciais se tornam fenômenos culturais. Este artigo é parte da série "O Poder Oculto do Storytelling". Esse post tem muitas influências de Mauro Palacios, CEO da Twist