Micro Histórias

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Depois do cão, o melhor amigo do Homem contemporâneo é a caixa com a temporada completa de uma série televisiva. Qual? Qualquer uma, e não é só porque a maioria seja muitíssimo bem escrita e produzida, prendendo a atenção do espectador. Isso obviamente acontece, mas há outro fator associado ao fenômeno: tempo.

Por mais ocupadas que estejam, as pessoas sempre arranjam tempo para ler um livro, ir ao cinema ou acompanhar a novela. A relação das pessoas com as histórias é algo que trascende o trabalho, as multinacionais, o neoliberalismo ou até mesmo a bolha imobiliária na economia americana. Não é exagerado dizer que as pessoas precisam de histórias como precisam de oxigênio. Mas se der para encurtá-las um pouco, melhor.


Nunca vi uma pesquisa nesse sentido, mas creio que o caso não seja a diminuição do tempo total que as pessoas dedicam às histórias, até mesmo porque há um mínimo vital de oxigênio que é preciso respirar para continuar vivendo. Mas o ponto é que a vida moderna nos força a fragmentar cada vez mais esse tempo.

Se você crê no apocalipse, peço muita calma nessa hora. O cinema NÃO VAI acabar, nem nas salas e muito menos no seu home theater. Mas que o tempo de duração dos episódios de seriados, variando entre 20 e 40 minutos, cabem como uma luva na vida da maioria das pessoas, ah, isso é um fato inegável.

A vantagem é que os seriados cabem nas janelas onde os filmes de 2 horas não se encaixam, ali entre o jantar e a necessidade de terminar aquela apresentação para a reunião do dia seguinte. Na soma o fã de seriado acaba investindo tanto ou mais tempo do que o fã de cinema, só que de forma mais fragmentada.

É interessante notar como essa necessidade de se criar histórias que se encaixem melhor no tempo das pessoas, que estão no trânsito, no metrô ou entre um compromisso e outro, começa a transformar outras mídias. Isso foi um dos temas da FLIP desse ano (comentado aqui).

O escritor Samir Mesquita, por exemplo, fez um livro de micro contos do tamanho de uma caixa de fósforo. Na verdade o livro é uma caixa de fósforos! Veja entrevista com o autor nesse post. Já no campo da internet são cada vez mais comuns os concurso de micro contos, como o 140 (número máximo permitido de caracteres) , pelo Twitter, que inclusive teve participação de 2 Storytellers.


Mas, em termos de encurtar histórias, os seriados americanos estão anos luz de à frente de qualquer outro formato, e com eles há uma lição importante a ser aprendida. Apesar de todas essas mudanças, comparativamente, o espectador do seriado se insere de forma muito mais profunda no universo ficcional da história. Esse pelo menos é o caso dos que têm continuidade entre um episódio em outro (e geralmente um fim), como Lost. Se cada episódio tem no máximo 40 minutos, multiplique isso por todas as temporadas... As histórias ficando mais curtas, e o universo ficando mais extenso.

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  1. ah, isso não é de agora (tudo bem que a tendência é éncurtar cada vez mais agora, que menos é mais na net ou no celular). Mas é só lembrar que o formato de capítulos menores já fazia sucesso desde os tempos do folhetim. E nosso exemplo brasileiro super bem-sucedido, a novela.
    enfim.
    bjo!

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  2. Czarina, realmente não é de hoje que as histórias ficam cada vez mais curtas.

    Já faz um bom tempo que usar 10 páginas de um livro só para a escrever a paisagem saiu de moda. :)

    Os exemplos do folhetim e da novela são bons. Mas o "estado da arte" em histórias curtas são mesmo os seriados americanos. Não dá para compará-los nem com a melhor das produções globais...

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  3. Há um estudo antropológico do Claude Levi-Strauss em que ele analisa os mitos e chega a conclusão que essas histórias estavam presente em todas as culturas. Portanto, haveria uma função socio-cultural desse tipo de narrativa. Ainda segundo ele, ao mito cabe apaziguar, resolver conflitos, problemas, questões a que os homens conseguem na realidade.

    De certa forma, e por extensão, toda a narrativa tem função semelhante. Vale a pena dar uma procurada. Abraços, parabéns pelo blog e obrigado pelo link.

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