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Verdade seja dita, as grandes livrarias tentaram. E tentaram muito desde o começo dos anos 2000. Mudaram de cara, ofereceram experiências, ampliaram suas ofertas e se tornaram templos de cultura ao invés de simples pontos de venda. Mas a realidade é que nada disso adiantou e o mercado editorial brasileiro encolheu 21% entre 2015 e 2018, fazendo muitos olhos se voltarem com atenção para os movimentos das grandes redes de livrarias. A Fnac chegou a divulgar em um balanço global que sairia do Brasil, mas no dia seguinte retificou o discurso e afirmou que procurava um parceiro para comprar parte da empresa. A Cultura, segundo o jornal Folha de S. Paulo, estaria estudando uma fusão com a Saraiva no ano passado e dando sinais de preocupação, como recontagem de estoque.


Segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), a expansão experimentada pelo setor editorial entre 2006 e 2011, quando o faturamento chegou a 7 bilhões de reais, caiu nos anos seguintes, somando um prejuízo de cerca de 1.4 bilhão de reais ao final do ano passado. Esse prejuízo foi acompanhado pela redução do número de livrarias de 20% de 2013 para cá – o Brasil tem hoje cerca de três mil, segundo a Associação Nacional de Livrarias (ANL) – e dos atrasos nos pagamentos às editoras.

Entre diversos responsáveis pela crise no mercado livreiro podemos citar problemas econômicos, questões culturais que afetam o interesse pela leitura e um cenário de novas tecnologias, onde canais de compra e seu principal produto em si, o livro, tornam-se cada vez mais digitais. Mas, independentemente do responsável, uma coisa é óbvia: o mercado está passando por uma transformação. E com essa transformação surgem oportunidades para novos formatos. Ou melhor, formatos antigos.

Enquanto o mercado livreiro brasileiro entrava em crise, o americano recebia uma nova tendência. Em 2011 quando a Amazon levou a gigante megastore Borders à falência, livrarias independentes de bairro voltaram a surgir. Como uma queimada no cerrado, que leva embora árvores gigantescas produtoras de sombras que não deixavam florescer nada no lugar que ocupavam. Entre 2009 e 2015 a ABA (American Booksellers Association, não o grupo musical sueco dos anos 70) registrou um aumento de 35% no número de livrarias independentes, de 1651 para 2227.


De acordo com Ryan Raffaeli, pesquisador da unidade de Comportamento Organizacional da Universidade de Harvard, o ressurgimento das livrarias independentes no mercado americano se deu por três “C”s:

Comunidade – Sentimento dos shoppers e consumidores de apoiarem sua comunidade local.
Curadoria – Foco na seleção de itens nos respectivos inventários para oferecer uma experiência de compra mais pessoal e especializada.
Convocação – A promoção do negócio como espaço cultural que reúne pessoas com interesses intelectuais em comum a partir de eventos e experiências que ampliam a compra.

Do outro lado do mundo, na China, algo similar aconteceu. Em 2015, livros vendidos online registraram mais um recorde de crescimento, com um aumento de 33% de um ano para o outro, fechando diversas megastores e livrarias tradicionais pelo país. Os vendedores de livros sobreviventes acabaram aos poucos virando marcos culturais das cidades da China, como a Sanwei Bookstore em Pequim, a Zhongshuge em Xangai, a Librairie Avant-Garde em Nanquim, a Sisyphe Bookstore em Guizhou e a Xiaofeng Bookstore em Hangzhou.


Com as dificuldades das livrarias tradicionais chamando cada vez mais a atenção do grande público, o governo chinês lançou políticas e soluções para dar apoio aos vendedores de livros, na tentativa de garantir a sobrevivência de negócios restantes e gerar o nascimento de novos estabelecimentos. Desde 2013, o Ministério das Finanças e a Administração Estatal da Imprensa, Indústria Editorial, Rádio, Cinema e Televisão iniciaram projetos-piloto para apoiar as livrarias. Em 2014, começou o trabalho em 12 cidades, incluindo Pequim, Xangai, Nanquim e Hangzhou, com 56 lojas recebendo um total de 90 milhões de yuans em apoio financeiro. Em 2015, o trabalho piloto de apoio a livrarias em instalações de alvenaria expandiu-se para 16 cidades e províncias, resultando em um crescimento de 12,8% em relação ao ano anterior.

No Brasil, a tendência das livrarias independentes já chegou, mas ainda não é notável. A realidade é que megastores como a Livraria Cultura e a Livraria da Vila são pontos culturais consolidados em diferentes cidades do país e oferecem experiências de compra incríveis replicadas para diferentes unidades de suas cadeias de lojas. Esses gigantes do varejo ainda chamam mais atenção do que as livrarias de bairro, oferecendo espaços agradáveis atrelados a serviços diferenciados. Porém, o maior problema dos novos entrantes desse mercado tem um diferencial no Brasil que dificulta muito mais as coisas do que nos EUA e na China: não há um bom incentivo para empreender! Mesmo assim, alguns pequenos empresários encaram de frente as dificuldades e montam suas próprias livrarias movidos por paixão.


O diferencial da oferta de livrarias independentes muitas vezes não está no serviço prestado, mas nos produtos. O que se observa no cenário do mercado livreiro nacional é um panorama diferente do resto do mundo com a consolidação de megastores diferenciadas como centros culturais estabelecidos, enquanto livrarias independentes tornam-se ícones de cultura urbana, como a Comix Book Store, a Parada Literária da Consolação, a Freebook, a Livraria da Esquina, a Haikai, a Tapera Taperá, entre outras, oferecendo produtos de nicho para seus shoppers. E, por sua oferta nichada, esse modelo transforma livrarias em “joalherias”. Muitas das obras oferecidas em seus catálogos são consideradas artigos raros, oriundos de autores e editoras independentes, itens de colecionadores, importação ou produção de baixa tiragem. É dessa forma que esse novo modelo de negócio está sendo bem-sucedido, ao mesmo tempo que impulsiona editores independentes. Logo, a livraria independente brasileira não atrai seus shoppers apenas pela experiência de compra em um espaço diferenciado, mas por um tipo de oferta que as grandes redes não têm acesso ou, simplesmente, interesse.


A história dessa mudança nas livrarias ainda não acabou e tem muitas páginas pela frente. Não se sabe até onde a influência digital vai sacudir as coisas, ou se as grandes redes continuaram gravadas nos seus respectivos papéis. Mas, seja como for, uma coisa é certa: para quem quer ser editor, autor ou livreiro independente, o momento é de aproveitar a oportunidade de participar de um novo capítulo nesse mercado.



"Steh, quero escrever um livro. Me ajuda?!". Desde quando lancei meu livro, GiraMundo, essa é uma das frases que mais escuto. A continuação da conversa é mais variada, mas geralmente permeia pelos caminhos de como começar a escrita, maneiras de publicação ou detalhes técnicos. Já quero adiantar que não sou nenhum George Martin ou Yuval Harari, mas minha obra foi muito bem avaliada e vira e mexe está entre os dez mais do dia em duas categorias da Amazon. Sendo assim, acho que posso dar um conselho ou outro que será útil caso você queria começar a escrever.

Meu livro é sobre a viagem que fiz em 2015 e mudou minha vida. Estava puto com tudo, liguei o foda-se e comprei uma passagem só de ida para Roma, onde deixei meu dinheiro e passado para trás e parti pegando carona rumo a Jerusalém em busca de Deus (na sentido mais amplo possível) e de mim mesmo. No caminho encontrei paixões na Estrada, quase morri algumas vezes e fui realmente iluminado. Depois acabei indo morar em Ibiza onde curti a vida adoidado em um estilo muito mais hardcore que o icônico Ferris Bueller. Essa história e as histórias que fazem parte dela me ensinaram muita coisa. Ensinamentos que tentei passar no meu livro. E esse é o primeiro conselho que te dou caso você queira escrever. Como assim? Qual conselho? Esse aqui, ó: passe ensinamentos! Desde a Idade da Pedra contamos histórias para lições serem passadas para frente. Para que a roda não tenha que ser inventada de novo e para que ninguém morra comendo o que não deve. Então, antes de escrever a primeira letra maiúscula no topo de uma página em branco, pense nos ensinamentos que você quer passar adiante.


Tudo certo até aqui? Pensou no que você quer ensinar para sua audiência? Beleza, pode começar a escrever... só que não. Para o livro ser bom mesmo, antes de você começá-lo, tem que pensar em uma pergunta que será respondida no final da escrita. E você não pode saber a resposta. Pode ter hípoteses, mas a resposta será uma jornada de autodescobrimento sua. Tipo: "Será que servem cerveja no inferno?"; ou "Androides sonham com ovelhas elétricas?" (dois títulos de livros reais, que dão ótimas perguntas a serem respondidas/descobertas de diferentes formas no final do processo). Escolha bem sua pergunta, porque não dá para mudar depois. Ou até dá, mas sua obra corre o grande risco de ficar uma coisa esquizofrenica.

Para qualquer história ser contada, existem cinco elementos básicos de Storytelling a serem considerados: Personagens (com quem sua audiência estabelecerá uma relação emocional), Templo/Local (onde e quando se passa sua história), Estilo (o jeito de conduzir seu público pela narrativa), Enredo (como os elementos se relacionam) e Tema (sobre o que se trata sua história). Abordo cada um desses cinco elementos de forma lúdica e profunda em outro texto desse blog no seguinte link, caso você tenha curiosidade. Esse é meu último ponto para você considerar antes de começar a escrever. Agora pronto, está liberado, vamos começar.

O começo de qualquer coisa dá medo e escrever um livro não é diferente. Por isso uma página em branco intimida muito. Então, como começar o "começo" da história? Bom, o começo da sua narrativa tem sempre que dizer sobre o que ela se trata. O ideal é que nos primeiros parágrafos o leitor já descubra sobre o que você está falando. Deixe isso claro para ele. Saber disso já é um grande avanço para começar o "começo". Daí para frente tudo fica mais fácil.

O caminhar do seu livro pode seguir diferentes formatos. Desde "A Jornada do Herói" de Joseph Campbell até o modelo Pixar de criação de conteúdo. Vai de você. Mas seja qual for o formato, dê picos de excitação para sua audiência ao construir o "recheio" em meio ao andar da carruagem. Existem três pontos de conteúdo que nossos cérebros nos obrigam a prestar atenção: situações de quase morte, conteúdo sexual e momentos empáticos. Cada um desses pontos está ligado à evolução da nossa espécie e ao nosso passado ao redor das fogueiras. Seja por necessidade de sobrevivência, reprodução ou simplesmente pela nossa humanidade em si, aprendemos a prestar atenção à histórias com esses atributos. Então pense em colocá-los como linhas de batimentos cardíacos entre momentos cotidianos da narrativa para manter seu público interessado e ao mesmo tempo não sobrecarregá-lo de acontecimentos.



O último toque que dou a respeito de construção de conteúdo é uma opinião pessoal minha. Quando entrevistei Walcyr Carrasco na Rota da Tocha Olímpica descobri o motivo do sucesso das suas obras: ele transcreve a própria essência. E eu tentei fazer a mesma coisa com meu livro, o que deu muito certo. Esse detalhe é bem ilustrado logo no começo desse texto. Eu falo palavrão, sou agressivo, brincalhão, desbocado e adoro figuras de linguagem que envolvem a cultura pop. Foi muito mais fácil e natural escrever meu livro do jeito que eu falo e sou do que mascarando a mim mesmo por trás de algum outro tom de voz menos polêmico. Mas aí vai de você o jeito que quer transcrever sua história e se expor.

Começo e miolo prontos, agora só falta o final. E o final é simples. Basta responder aquela pergunta que você elaborou antes mesmo de colocar a primeira letra maiúscula no topo da primeira página em branco. Depois disso é só se despedir da audiência de uma forma condizente com a trajetória da narrativa. Fim. Fim?! Não, espera aí, tem muito mais coisa.

Depois do conteúdo pronto você pode buscar uma editora ou virar um autor independente, como foi meu caso. Escolhi esse caminho simplesmente por não querer ficar preso a nenhum contrato e ter total poder de decisão sobre meu livro. Confesso que fui muito feliz com minha escolha, diferente de amigos que conheci que se foderam na mão de editoras incompetentes ou mal intencionadas ou incompetentes e mal intencionadas (embora outros amigos escolheram editoras que foram grandes diferenciais no sucesso de suas obras).

O bom de optar por uma editora é que você já tem tudo organizado e não precisa se preocupar com "nada". Já como autor independente você precisará encontrar e dirigir seu capista (quem faça sua capa), seu revisor, seu diagramador e tirar os documentos necessários. Você será seu próprio editor e chefe. Então se dedique. E não pense que qualquer um desses serviços é dispensável. Economize na cachaça do final de semana, mas não na produção do seu livro. Muita gente julga um livro pela capa, então procure um designer/diretor de arte com portfólio similar ao que você deseja para chamar a atenção do seu público. Revisor é extremamente necessário para que nenhum erro de português escape ou algumas passagens da história não fiquem confusas para seus leitores. Diagramador nem preciso falar, né?! É desconfortável ler alguma coisa que parece que foi feita no Word de qualquer jeito e sem espaçamento correto. Todos esses serviços você consegue achar em sites especializados ou simplesmente pela recomendação de amigos via redes sociais. O mesmo pode ser dito das medidas de capa (como lombada, orelha e faces) e miolo (contando com lombada e sangria ideais para diagramação). O que eu mais penei para descobrir foi o tipo de papel para ser utilizado. Fiz uma pesquisa para ver o melhor custo benefício e cheguei no Supremo Alto Alvura 250 gramas para capa e Pólen Soft 80 gramas para o miolo.

Recomendo fazer todo esse processo de edição depois de tirar os documentos requisitados para proteger seus direitos autorais e para a comercialização do seu livro. São eles o ISBN (http://www.isbn.bn.br) e a Ficha Catalográfica (http://cbl.org.br/servicos/ficha-catalografica). O código de barras do ISBN geralmente é colocado na contracapa do livro enquanto a Ficha Catalográfica entra na folha de rosto. Tanto seu capista quanto seu diagramador vão te agradecer se você já tiver ambos em mãos. E tem mais uma coisinha que vale a pena ser feita antes do processo de edição: mandar o material para alguns leitores beta.

Minha história inteira era muito clara para mim. Mas quando escrevi algumas partes, passei uma impressão ruim que pude perceber por causa dos meus leitores beta. Eu mandei o manuscrito do meu livro para 10 amigos antes de publicá-lo e registrei críticas e observações recorrentes que indicavam a necessidade de mudanças ou melhorias. Fez toda a diferença no resultado final da obra.

Bom, livro escrito e produzido. O trabalho acabou? Não! Falta a divulgação. O que eu fiz foi escrever artigos gratuitos para diferentes portais contando sobre minhas aventuras e loucuras, participei de lives com influenciadores digitais de viagem e dei palestras pocket para diferentes públicos. Daí para frente, a coisa viralizou e espero que ela também viralize para você.

Se você chegou até aqui, deve ter percebido uma coisa: escrever um livro dá trabalho. E cansa, ah, como cansa! Mas também é uma coisa extremamente gratificante. Quando vejo que estou no topo do ranking da Amazon ou recebo alguma mensagem de um leitor, fico extremamente feliz e orgulhoso. Como se fosse um rockstar e escutasse minha música tocando na rádio. Ou fosse jogador de futebol e me visse na televisão fazendo um golaço. A moral dessa história toda de ser escritor é a seguinte: escrever um livro dá trabalho, ansiedade e estresse, mas vale totalmente a pena!

Dia desses conversava com um amigo que me disse: “Os seriados são a era de ouro do Storytelling”. Acho que ele tem razão. Fiquei pensando em quantas vezes eu fiquei acordada até tarde, mesmo quando não podia, para ver mais um capítulo do meu seriado favorito. E, mesmo depois de dormir sonhava com o personagem, e acordava de “ressaca” por ter salvado a embaixada americana de um ataque terrorista.

Sei que estou atrasada, mas já assistiu Homeland? Esse é o que me viciou no último mês e agora falta pouco para acabar toda a série. É uma história intrigante sobre o luta contra o terrorismo e os bastidores da CIA que praticamente acontece em tempo real: a quinta temporada foi uma aula para entender o que está acontecendo na Síria.

A série é super bem produzida e já foi indicada para diversos prêmios. A protagonista, interpretada pela Claire Danes, ganhou 3 Golden Globes de melhor atriz pela série. E o roteiro é um prato cheio para quem gosta de storytelling. O seriado usa 4 regras de ouro do Storytelling que o seriado usa de forma precisa. Quer conferir?

1) O personagem tem que ter um desejo e ser capaz de praticamente qualquer coisa para poder realizá-lo. No caso da Carrie é lutar contra o terrorismo nos Estados Unidos depois do atentado de 11 de setembro;

2) É necessário que o personagem tenha um obstáculo. Carrie é brilhante e (quase) sempre tem uma boa idéia na manga, mas ela foi tem um distúrbio psíquico grave, é bipolar, portanto, nem sempre suas hipóteses são confiáveis;

3) É preciso que aconteça algo extraordinário. Já imaginou um fuzileiro naval ter voltado para os EUA depois de 8 anos no Afeganistão e talvez estar trabalhando para o Talibã? É recebido como herói, mas a única pessoa que suspeita do que ele está fazendo é Carrie, que como mencionado, apresenta um distúrbio psíquico grave...

4) O personagem tem que se transformar ao longo da jornada. Neste caso, não vou aprofundar se não vira Spoiler...

E você? Consegue decifrar as 4 regras de ouro do seu seriado preferido?



Durante a primeira Cruzada da Igreja Católica aconteceu um feito bem curioso. Imagine, os cruzados estavam sitiados pelo exército Muçulmano durante alguns meses. A fome e a desolação da esperança já habitava o coração e a mente daqueles homens - incontáveis guerras eram vencidas apenas por sítio.

Já não havia o que fazer, senão esperar a morte dentro das paredes ou encará-la no campo de batalha além dos portões, mas pra que? 


Foi quando Pedro Bartolomeu retirou do bolso (na verdade de uma escavação) um artifício milagroso, a Lança do Destino. A relíquia que teria perfurado o peito do Cristo na cruz. Ninguém sabe se foi pela visão turva ou histeria coletiva, mas ele brandou ela no alto e disse algo como "ninguém pode com a gente, bora lá".  E aquela guerra foi vencida.

Essa é uma história muito curiosa, mas que expressa o que eu gostaria de trazer para a discussão: Histórias fantásticas sempre estiveram a frente de guerras.  Júlio César era outro, enviava seus arautos espiões que disseminavam entre seus inimigos feitos horrendos de batalhas (degolações, estupros e toda qualidade de tortura possível).  Assim, quando encarava o exército oposto, ele estava abalado de algum modo, tendendo fugir com mais facilidade.

Uma boa historia era capaz de influenciar legiões sem levantar uma espada. Então se um grande rei quisesse mudar a cultura de um lugar, ele começava a contar as suas. Já ouviu falar da verdade humana? Quando alguém encontrava uma verdade poderosa e usava uma boa estrutura arquetípica, a revolução era infalível.



Voltemos a religião cristã para entender isso. Quando Roma se tornou oficialmente cristã, eles tinham centenas de cultos politeístas, templos, calendários, símbolos que o povo cultuava. Confrontar isso poderia custar o império. Ao contrário, foram ressignificando tudo...

"Sabe aquele Deus Sol? Então vou te contar a história de quando ele nasceu em Jerusalém e a mensagem que ele deixou... é coisa nova, os homens acabaram de entender".

Assimilando e moldado novas culturas a igreja foi se instalando em Roma e propagando sua fé sobre todos os outros povos. A expansão da Igreja Romana foi uma forma de imperialismo cultural, que obliterou inúmeras culturas e histórias pelo seu caminho.  Depois de um tempo a própria igreja foi vitima disso, assimilada por todos símbolos, linguagem e sistema político europeu. Chegando a 2017 em países como o Brasil que ainda usam uma forma de canto gregoriano em rituais religiosos.



Agora que entendemos um pouco de como uma história pode cobrir uma cultura em toda sua extensão podemos levar essa discussão para outra dimensão, a dimensão comercial aonde as histórias mais vendidas e contadas por todo o globo são as Holywoodianas.

Quando o presidente americano Herbert Hoover, nos anos 20, promoveu os filmes americanos entre os outros países ele esboçou a famosa frase:"aonde quer que um filme americano penetre, nós venderemos mais automóveis, mais bonés e mais vitrolas americanas"

Historicamente, o país estava consolidando também o que foi chamado de Estilo de Vida Americano, que foi carregado junto com todo o cinema - sem contar a parte racista, afinal o primeiro grande filme do país "O Nascimento de uma nação" mostrava a Ku Klux Klan como heroína. 

Faturamento passou a ser um termo importante para o entretenimento e o Storytelling, as fórmulas surgiram e se adaptaram. A jornada do herói de Holywood foi reproduzida pela Disney, Universal, Warner e todos os outros estúdios que procuram morder esse bolo.  Daí que surgem aquelas conversas sobre os filmes da Marvel sempre puxar para o humor. O alívio cómico, aliás, é uma figura que Vogler trouxe á luz em sua obra "a jornada do escritor" como um dos principais arquétipos de um bom filme.



O passar dos anos foi juntando essas estruturas com um comportamento social padrão, um novo reino e uma nova religião conhecida como Cultura Pop. Vocês devem reconhecer seus símbolos e suas músicas.  Eles foram imprimidos no nosso DNA cultural de forma tão intensa, que muitas novas gerações nascem sem conhecer sua identidade local, apenas se alimentando das histórias pop, blockbusters e games AAA.

Vogler dedicou parte da segunda edição dos eu livro a discutir sobre isso, será que a generalização das histórias está matando as histórias que não seguem a estrutura da jornada do herói de holywood?  Definitivamente não, basta ligar a TV aberta no SBT por exemplo e ver as novelas latinas, que tem sua própria estrutura e arquétipos ou mesmo sucessos internacionais como Bahubali de Bolywood ou qualquer bom filme Chinês.

Mas de fato se você não prestar atenção vai ficar nadando eternamente nas histórias que propagam o império cultural popular. Isso não deve ser problema algum para a audiência, mas como escritor você precisa mergulhar mais fundo para ter ideias mais originais ou com conexões culturais verdadeiras em seu país.





Estamos vivendo um momento interessante do cinema: a TV ganhou relevância com os seriados e Holywood tem apostado em histórias antigas. Um exemplo disso é o filme Mad Max que recentemente ganhou uma sequência bastante comentada. Porém, ele não está só. Em breve receberemos um reboot de Ghostbusters – Os Caça Fantasmas, Highlander, Gremlins... e uma lista sem fim.

Mas será que vale a pena? Afinal, por quê precisamos recontar ou estender uma história? 


O primeiro ponto a se levar em consideração é a forma com que a sociedade absorve uma narrativa. Ela muda. Eu mesmo não consigo ver com os mesmos olhos os filmes que assistia na década de 90. ET, de Spielberg me apresenta um ritmo bem mais lento do que me acostumei atualmente. 

Há também questões sociais que são consideradas quando se escreve em um momento diferente. Muitas histórias são percebidas, hoje, como racistas, machistas ou homofóbicas.  Talvez elas fizessem apologia a comportamentos que não são bem aceitos contemporaneamente, de repente algo como estimular o cigarro. Outro ponto que podemos considerar determinante é a criação de verdadeiros mitos modernos. 




Um mito é construído com várias narrativas, símbolos e esquemas que ultrapassam a quarta parede. E isso faz dele extremamente comercial. 


Religiões são exemplos de histórias que vem sendo adaptadas a realidade a cada era da humanidade. Assim como elas, os mitos modernos criados pela indústria do entretenimento (seja nos games ou nos filmes) também tem a capacidade de entrar em nossas vidas e fazer sentido.  É aí que entra o hábito humano de colecionar coisas e juntar peças de uma história... o que justifica a construção de franquias com livros, action figures, jogos, camisetas, exposições e todo tipo de conteúdo que for sustentável ao tamanho do mito que aquela história representa.




Todavia nem toda narrativa se torna mitológica.  Essa é uma questão para outro post , mas é só reparar nos nomes dos reboots que citei acima e vocês entenderão.  Ghostbusters, Highlander, Gremlins... verdadeiros ícones da cultura pop. 



Desde que os personagens de Alan Moore foram repaginados para a roupagem dos Novos 52, fiquei com medo de ver qualquer outra obra midiática envolvendo os deuses, semideuses e heróis do panteão Vertigo, já que Monstro do Pântano, Homem-Animal, John Constantine, Zatanna e o espetacular Deadman (Desafiador, no Brasil) ficaram parecendo personagens da Turma da Mônica Jovem
Quando vi Keanu Reeves na capa do longa Constantine, em 2005, empunhando uma arma de crucifixo, pensei: “Só iria ao cinema para apedrejar a tela!”. Tudo bem, a cruz estava de cabeça pra baixo mas e daí? Reeves nunca ficou bem em nenhum papel que não fosse dele mesmo (e talvez nem nesse), e o antigo coadjuvante do Monstro do Pântano, que se elevou à categoria de protagonista das próprias estórias merecia coisa melhor! Quando um amigo me falou da série, perguntei quem era o ator. “Não sei!” foi a resposta, ao que emendei outra dúvida: “Como é a roupa?”
Quando percebi que o ator Matt Ryan, oriundo do país de Gales, estava à caráter, com seu sotaque pra lá de “constantinesco” que apenas pudemos imaginar nos quadrinhos – e a voz de Reeves é melhor deixar de lado – resolvi ver a série, que já era um fracasso antes mesmo de engatar os supostos treze episódios da primeira temporada. Desencanado e sem qualquer expectativa, encarei a tarefa.
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Para quem ainda não assistiu a série, fique tranquilo! Ao contrário do que dizem outros veículos de comunicação, a série não tem nada a ver com os Novos 52. Trata-se de um apanhado geral de vários episódios da antiga série iniciada por Jamie Delano, na HQ Hellblazer, que chegou a contar com grandes nomes como Garth Ennis e Warren Ellis. O personagem passou pela controversa fase de Brian Azzarello, o “reboot” de Mike Carey e sua conclusão com Peter Milligan. Os enredo da primeira temporada de Constantine é uma colcha de retalhos da fase Vertigo do personagem.
John Constantine foi muito bem representado por Matt Ryan, que realmente vestiu o personagem. Cheio de trejeitos, TOC’s e não-me-toques, Ryan nos dá o gostinho de reencontrar um velho conhecido. Com seu sobretudo surrado e a gravata desgrenhada, é possível ver Constantine em ação. O problema é que Matt teve de limitar sua atuação para se adequar ao clima da série, que está mais paraSupernatural do que para Vertigo. Vamos a uma breve análise dos…
Personagens:
Constantine - Season Pilot
Manny, John, Zed e Chas!
John Constantine se apresenta como “exorcista” e “Mestre das Artes Ocultas”. Tem até carteirinha! Sem contar o “Quartel General”, casa do pai de Liv, herdada pelo protagonista. A atuação de Ryan não deixa a coisa cair no ridículo mas é impossível conter o baque de decepção. Constantine se dá mal, leva murros, nos brinda com episódios de vergonha alheia, mas onde está o Casanova que sempre se envolvia com suas sidekicks que faleciam durante a estória, ou saíam traumatizadas de sua vida sem desejar vê-lo nunca mais? Apenas no sexto episódio Constantine aparece levantando de manhã, saindo da cama de uma amante, às pressas, pois seu namorado acaba de chegar. Não foi explicado como ele chegou ali em episódios anteriores. Foi mais para calar a boca dos fãs mais críticos, salvando o protagonista da fama de assexuado.
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Liv Aberdine nem chegou a sentir o gostinho de ser uma sidekick de John Constantine e a atriz Lucy Griffiths foi exorcizada da série já no segundo episódio. Culpa do Elmo de Sr. Destino que ela encontra na casa de seu pai no primeiro episódio? Mal sabia ela que andar com Constantine era furada. Tal máxima se estendeu a fazer parte do seriado.
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Manny (Harold Perrineau) é um anjo bundão que parece chupado do anjo que fica de supervisor do Inferno após a renúncia do Primeiro dos Caídos, nas HQ’s de Lúcifer, misturado com o que poderia ser uma versão de Gabriel, que vez por outra ocupava a função de coadjuvante na mesma extinta série. Ocupa uma função de mentor que aparece de vez em quando para aconselhar o protagonista e desaparece misteriosamente para deixá-lo achar o fio da meada sozinho. Uma mistura de Mestre dos Magos, do desenho Caverna do Dragão com Harry Morgan, do seriado Dexter. 
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Chas (Charles Halford), assim como nos quadrinhos, se dá mal e chega a perder o casamento por sua relação com Constantine, coisa que só acontece no “reboot” de Mike Carey quando Chas é possuído por Nergal e espanca sua esposa. A diferença é que está mais bruto, menos simplório e mais subserviente. Sem querer querendo, Constantine concede a seu amigo uma proteção que o deixa de “corpo fechado”. Tal qual um gato, com muitas vidas. Essa “brilhante” adaptação fez com que Chas se torna-se algo próximo ao Kenny, da animação South Park.
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Zed (Angélica Celaya) é uma mistura da personagem homônima do quadrinho com a coadjuvante Emma, presente na primeira aparição de Constantine, ainda na revista Monstro do Pântano. Além de não parecer em nada com a Zed dos quadrinhos, não varia muito da expressão sexy/apreensiva que apresenta durante toda a primeira temporada. De quebra, dá uma de Zatanna em um dos…
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Episódios:
Non Est Asylum- O primeiro episódio nos mostra Constantine internado por estar traumatizado com o evento de Astra. Sem melodramas, o recurso seria uma maneira prática de mostrar o quão problemático é o personagem e apresentar seu drama pessoal, não fosse o episódio uma versão de Intensive Care, apresentado a primeira vez em Hellblazer #08.
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Outro personagem que surge no primeiro episódio é Ritchie Simpson, na versão mais comportada de um professor universitário. Assim como no quadrinho, Ritchie estava presente no episódio de Astra, mas, em sua versão original, é apenas um hacker que atinge a conexão com o Céu e o Inferno através do que seria mais tarde conhecido como Deep Web.
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O episódio acaba com Liv dando um mapa para John após terem conseguido exorcizar Furcifer, numa cena que lembra ligeiramente a imolação do Rei dos Vampiros, em Hellblazer #69 . Com este mapa, John seguirá, ao longo da série, as manifestações do mal ao redor do mundo. Uma pálida adaptação de sua capacidade de sacar pistas e andar na sincronicidade dos eventos, prática que o apresentou ao mundo dos quadrinhos quando tentava tutorar o então ressurreto Monstro do Pântano, repetida por Mike Carey em seu reboot.
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The Darkness Beneath – O segundo episódio nos apresenta a próxima sidekick de John; que  junta duas personagens dos tempos áureos da revista: Zed, de quem herdou o nome e Emma, apenas uma coadjuvante.  Zed tinha visões de rostos que nunca conhecera e os pintava na parede. A garota meio que psicografava retratos falados. A outra, resolve um dia pintar numa tela um monstro com o qual havia sonhado. Quando volta da cozinha aonde foi tomar um café, depara-se com o quadro vazio. A figura saltara da tela e estava bem atrás dela. Trata-se de umInvunche. Falaremos dele mais tarde.
O fato é que a Zed de Constantine pinta em telas APENAS retratos de John, acaba indo conhecê-lo e descobrindo sua própria paranormalidade.  O episódio em si é o mais fraco e a cena da morte no carro, um plágio de Livros de Sangue, de Clive Barker. A única coisa interessante do episódio são os quadros que Zed pinta: antigas capas da HQ Hellblazer.
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The Devil´s Vinyl- No terceiro episódio, John, Zed e Chas se envolvem com Papa Midnight pela posse de um vinil que tocaria uma gravação do Primeiro dos Caídos em pessoa!
Esse episódio é uma cópia da estória I´m just a Big Baby, de Grant Morrison, em Hellblazer #25 e #26, onde toda uma cidade é bombardeada por frequências inaudíveis de 10 hertz, que liberam os desejos mais nefastos e os instintos mais primitivos de cada um. Só a sidekick, Una (que está ouvindo Sonic Youth), não sucumbe à hipnose coletiva. Nem John escapa dessa, usando uma máscara de Margaret Thatcher para conduzir alguns cidadãos a uma odisseia de atrocidades pela noite.
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No episódio, quem ouve a gravação no rádio surta e John invade o estúdio onde está sendo executada a música, ouvindo Anarchy in the U.K. no MP3. Uma boa saída para os leigos, mas ainda aquém do original. O músico que executa tal gravação é claramente inspirado em Robert Johnson, lenda urbana que chegou a ter um episódio de Supernatural dedicado à sua memória. Não falei que a série Constantine tinha cara de Supernatural?
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A Feast of Friends- No quarto episódio, se você teve saco para chegar até aqui, valeu a pena, mas pela nostalgia de um dos melhores momentos da HQ… Na verdade, o primeiro episódio de Hellblazer nos gibis, Hunger. Um antigo parceiro de John, baterista da banda Mucous Membrane, volta de uma viagem à África onde conheceu um menino hospedeiro de um Demônio da Fome.  Decidido a exorcizá-lo – como faria o próprio Contantine  – Gary tem meio êxito, pois consegue aprisionar o demônio mas não salvar o menino, que morre durante o exorcismo. Viciado e em crise de abstinência, acaba tão dependente da entidade quanto da droga e liberta o demônio por não saber o que fazer com ele. John vai à África para descobrir um modo de aprisionar ou banir o demônio e acaba conhecendo um xamã de nome desconhecido.
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A metáfora com a fome na África é perfeita, mas o episódio conseguiu estragar até isso, fazendo as pessoas possuídas virarem de ponta à cabeça, andando em “ponte”, como Regan na famosa cena deletada da versão original de O Exorcista. A caracterização de Gary como um viciado em abstinência ficou forçada e não tem, nem de longe, o peso da cena em quadrinhos.
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Constantine encontra, sim, um xamã, mas aparece como um velho conhecido – a único que recebe bem Constantine, diga-se – e atende pelo nome de Nommo, personagem esquecido pela DC até sua volta em Os Novos 52, alter ego de Dr. Mist.
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Danse Vaudou- No quinto episódio, mais um pout pourri de personagens e situações. Três fantasmas aparecem em lugares distintos, assassinando pessoas por terem sido tirados de seu descanso embora nunca tenham descansado em paz realmente. Dois deles merecem atenção: Um garoto que pede carona e assassina suas vítimas fazendo com que batam o carro e uma modelo que desfere tesouradas após perguntar à suas vítimas se a acham bonita.
O garoto literalmente ocupa um lugar vivido por Constantine, ainda adolescente, em uma de suas estórias. Ao pedir carona, o jovem Constantine (nossa, parece até nome de série. Tomara que não façam!) acaba seguindo viagem de carro ao lado de um ex-padre que enlouquecera após ouvir a confissão do diabo em pessoa! Curvando-se para praticar sexo oral no jovem, acaba levando uma joelhada de John, que tinha sobre sua perna uma gilete, que usara numa “festinha” com duas amigas. O pedófilo acaba com um corte medonho no rosto, e o mago inglês vem a reconhecê-lo anos mais tarde por causa da cicatriz.
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Quanto à modelo, esta usa uma máscara cirúrgica que impede as demais pessoas de verem sua boca. Ela é um misto do mendigo fantasma da estória Hold Me, de Neil Gaiman, em Hellblazer #27 (que matava abraçando aqueles que se recusavam a lhe dar um alento), com o padre supracitado, pois a máscara cirúrgica esconde uma cicatriz de corte na boca da moça.
Como se não bastasse, John, Chas e Zed têm a ajuda de um detetive chamado Jim Corrigan. DC maníacos logo se lembrarão do hospedeiro do Espectro (personagem da década de quarenta). Ao beijar a mão de Zed, Corrigan proporciona à paranormal uma visão na qual o vê morto e envolto em uma névoa verde, o que nos levava a crer que o Espectro apareceria na série.
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Rage of Caliban- Sexto episódio e – finalmente – John consegue tirar o atraso! Após um rápido prólogo com uma menina que se parece mais com Astra do que a própria Astra do seriado (não só a menina, mas o próprio prólogo em si lembra a origem da personagem), John aparece sendo acordado por uma mulher de nome Nora.
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A cena é muito semelhante à de Hellblazer #30, em que John passa a noite com uma amiga prostituta chamada Norma para aliviar a tensão, porque o pai de John fora assassinado pelo serial killer chamado Homem de Família.
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No decorrer da trama, não é a menina que dá trabalho, mas um menino, que faz lembrar a cena final de Hellblazer #92, embora o roteiro pareça mais com o de um episódio vindouro, como veremos adiante.
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Blessed Are the Damned- Um pastor evangélico caipira vem substituindo seu falecido pai, sem possuir a mesma eloquência, o que tem deixado a igreja cada dia mais vazia. Para criar um clima, resolve repetir a façanha do progenitor, que ostentava cobras em suas mãos durante o sermão. A diferença é que, além de eloquente, seu pai omitia o fato de não utilizar cobras venenosas.
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Imbuído de uma profunda fé em Deus e em Jesus, o filho resolve encarnar o pai e acaba sendo picado pela serpente, o que o leva ao chão, fulminado. Poucos instantes depois, o pastor ressuscita, falando a língua dos anjos e realizando milagres tais como devolver a visão a cegos, a mobilidade a cadeirantes e até mesmo regenerar uma perna decepada! Tudo isso porque voltou à vida segurando, sem que ninguém percebesse, a pena da asa de um anjo, que o impediu de rumar ao Paraíso, devolvendo-o à Terra para curar as pessoas. Ao menos é isso que ele pensa.
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O problema é que aqueles que receberam sua graça começam a se tornar ghouls (algo próximo a zumbis, embora não sejam canibais nem putrefatos) e a cometer assassinatos. Para piorar, o tal anjo que cedeu a pena da asa é uma anja – muito sensual – que acabou caindo na Terra e está presa em um celeiro.
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Até aí, é o episódio mais interessante e original, a começar pelo título, que traz uma inteligente ambiguidade em si mesmo. Mas basta assistir mais um pouco para perceber as sutis semelhanças. Pra começar, a anja, chamada Imogen, é o amálgama de dois personagens do episódio Down to Earth, de Hellblazer #66.
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No quadrinho, quem cai é Gabriel, após ceder à tentação e transar com Chantinelle, um súcubo (demônio sexual muito próximo à ideia de Pombagira na mitologia afro-brasileira) a quem Constantine chama carinhosamente de Ellie. Gabriel foi responsável pela morte de outro anjo, amante de Ellie, que a engravidou. Esse conceito foi reciclado pelo mesmo roteirista, Garth Ennis, na série Preacher, que não fazia parte da continuidade Vertigo/DC. Decidida a se vingar, Ellie seduz Gabriel e arranca seu coração, fazendo com que caia na Terra ficando à mercê dela e de Constantine.
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The Saint of Last Resorts (Parte 1)- Vez por outra John esbarra em uma de suas ex-ficantes (que, com sorte, conseguiram escapar ilesas) ou ex-amigos que quase sempre odeiam reencontrá-lo.  Dessa vez é Annie Marie, que na série estava presente no evento de Astra e resolveu tornar-se freira desde então. Decidiu procurar John para solucionar o mistério de bebês desaparecidos no México, onde atualmente reside num convento. Nada a ver com a senhora Annie Marie, madre superiora morta pelo Invunche em Swamp Thing #46.
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O episódio começa com John interrompendo o insight de Zed, que desenha o Invunche. A cena é a tal que relatei ao comentar o segundo episódio e apareceu a primeira vez em Swamp Thing #37. Ambos são interrompidos pela aparição de Annie Marie, que, embora aparentemente presente, está ali apenas como uma projeção, fenômeno a que John chama de “Dupla Localização”.
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Ótimo gancho! Aparentemente original, não fosse saído de Hellblazer #92, onde o fantasma de uma madre superiora paira sobre uma reitoria em chamas.
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John descobre que os bebês estão sendo raptados por Lamashtu, um demônio sumério que sequestra crianças no momento do parto ou enquanto estão sendo amamentadas. Também saída da mesma estória (Critical Mass, Parte 1), mas não com o mesmo nome, Lamashtu não aparece como uma mulher idosa, mas como algo próximo ao Nosferatu, clássico de 1922, já que  possui dedos alongados e incisivos proeminentes no lugar dos tradicionais caninos vampirescos.
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Lamashtu age a mando da Brujeria, uma seita que aparece em Swamp Thing #48, e a traição de Annie Marie foi semelhante à de Judith, na mesma estória.
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O episódio termina com John e Annie Marie encarando Lamashtu no esgoto, como no encontro de John e Chantinelle em Hellbazer #59.
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The Saint of Last Resorts (Part 2)- Na segunda parte  do episódio, John se vê às voltas com o Invunche, que aparece sem mais nem menos após o mago ter banido Lamashtu invocando Pazuzu. Tradicionalmente, o Invunche (ou Inbunche) é um personagem do folclore da Ilha de Chiloé, no Chile. Seu nome significa “deformado” ou “pessoa pequena”, “anão”, e possui uma perna grudada nas costas.
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Nos quadrinhos a criatura aparece com uma mão costurada nas costas e o pescoço retorcido para trás, como se tivesse sido morto por ter o pescoço quebrado. Sua figura lembra algo próximo ao nosso Exu Mirim.
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Embora o CGI tenha sido muito bem feito, o que surge em cena é algo similar aos zumbis de Resident Evil.
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Para escapar da besta-fera, John convida Pazuzu para possuí-lo numa cena dantesca de tão engraçada, já que os olhos de John brilham como se tivesse tirado uma foto com flash.
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Expulsando o Invunche à base de porrada, John acaba cometendo assassinatos, mutilando pessoas e dando a impressão de que chegou a cometer canibalismo, o que remete ao arco Royal Blood (Hellblazer #52 a #55), de Garth Ennis.
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Vai parar na cadeia (Hard Time – Hellblazer #146 a #150, Brian Azzarello) e quase é apanhado de vez pela Serpente do Éden, que aparece numa caracterização muito displicente, beirando o ridículo, e tirada de Hellblazer #143 – Telling Tales, de Warren Ellis; também fonte de inspiração para o rapto de crianças por Lamashtu.
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Quid Pro Quo- A alma da filha de Chas, Geraldine, junto a de muitas outras crianças, foi tomada pelo mago negro Felix Faust. Essa temática já foi repetida várias vezes em outras obras como A Praga, de Clive Barker e a animação do Doutor Estranho, da concorrente Marvel..
Nada contra. Um bom tema pode ser repetido de várias formas. O ladrão de almas Felix Faust, por exemplo, é um antigo arqui-inimigo de Nommo (que aparece no quarto episódio, embora a série não faça relação entre os personagens), que foi inspirado no personagem Fausto, de Goethe. Mas há também a mistura deste personagem com o demônio Buer, também presente em Critical Mass, de Hellblazer #92.
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Para encontrar Geraldine, Constantine recorre a mais um ex-“amigo”, que, numa espécie de sessão espírita com a ajuda de Zed, consegue localizar a alma da menina, mas é interceptado por Felix Faust que, hackeando a sessão espírita, se apossa do corpo do médium e dá um ultimato ao mago.
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Por fim, incinera o corpo do hospedeiro, numa cena claramente inspirada na morte do pai de Zatanna, em Swamp Thing #50.
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Quando finalmente encontram Felix Faust (muito bem interpretado por Mark Margolis, o matemático de Pi), este pede um favorzinho a Constantine: encontrar o espírito animal que está se apoderando das almas que arrecada e impedindo-o de concretizar seu intento.
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Para realizar tal feito – e encontrar o espírito, já que é invisível – Constantine se vale de um artefato mostrado no começo do episódio: um monóculo usado por Aleister Crowley, que enxerga o mundo espiritual. O episódio ainda conta como Chas adquiriu o poder de se tornar o Kenny (referência feita a South Park na primeira parte do artigo) da série, e ele é quem “salva a pátria”, prendendo o mago negro com o tendão do calcanhar de Aquiles(!), que funciona como uma pulseira bate-enrola. Pode?!
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A Whole World Out There- Um grupo de amigos universitários resolve fazer uma “brincadeira” no estilo Tábua de Ouija, brincadeira do copo, etc., sobre o túmulo de um tal Jacob Shaw para adentrar um mundo paralelo. Desnecessário dizer que eles têm êxito, embora fiquem reféns do ocultista supracitado, que os aprisiona em seu mundo paralelo particular para se “divertir” com seus corpos astrais. A universidade em questão é justo a mesma em que Ritchie Simpson leciona e Constantine mais uma vez recorre ao amigo para auxiliá-lo no resgate dos jovens bruxos.
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O episódio é uma versão da imersão de Ritchie no plano astral através da Deep Web, que nem existia na época, embora tivesse sido postulada em Hellblazer #07. Assim como o pai de Zatanna, Ritchie tem seu corpo incinerado após o longo período de imersão e tido como morto por Constantine que, desolado pela perda de mais um amigo, desliga os computadores. Só volta a aparecer em Hellblazer #12, quando ajuda Constantine a se livrar da perseguição de Nergal.
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No seriado, após derrotarem Jacob Shaw e devolverem os jovens ao plano físico, Ritchie fica tão fissurado com a ideia de customizar um novo mundo que quase fica lá por livre e espontânea vontade. E poderia ter ficado mesmo, pois sua participação na trama é irrelevante.
Angels and Ministers of Grace- Um cristal antediluviano em posse de algum desvairado em um hospital está acarretando  várias mortes. Se você acha que o termo em negrito remete ao RPG Storytelling, não me atrevo a concordar ou desmentir. Apenas convido o leitor a dar uma olhada naquele artigo citado no início da Parte 1. Além dessa semelhança, pessoas mortas pelo poder do cristal desenvolvem veias intumescidas de uma forma bem semelhante ao filme O Parque do Diabo (Devil´s Playground).
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A despeito das hipóteses de plágio, diversas são as teorias “esquisotéricas” que levam a crer que partes do cérebro como a glândula pineal, quando adulterada, gera poderes psíquicos. Na visita ao hospital, Zed tem uma súbita convulsão e acaba sendo realmente internada, o que a leva a descobrir que tem um tumor cerebral e a duvidar de sua mediunidade. Some a isso um médico alcoólatra, e o anjo Manny preso ao plano terreno por uma insígnia gravada em seu peito por Constantine e temos a receita perfeita para o melodrama que se desenrola.
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Como nem só de drama vive uma série, o “anjo caído” desperta interesse em uma enfermeira, que o leva a um cômodo reservado e brinda com uma felação de tirar o fôlego, em contraste com o próprio episódio, que não faz nem cócegas.
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Waiting for the Man- Até que enfim um episódio à caráter! – Ou quase! Era de praxe da linha Vertigo lançar estórias ou ao menos capas com o nome de alguma música famosa. Tivemos Born to be Wild, de Steppenwolf, em Animal Man #29Lust for Life, de Iggy Pop, em 2020 Visions #1 a #3, e Waiting for The Man, de Velvet Underground, em Hellblazer #4. O episódio conservou não apenas o nome, mas o enredo.
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Um estranho homem vive em sua casa nada habitável com três meninas em idade próxima à puberdade. A ideia de pedofilia que permeia a trama já é em si medonha. Ainda mais quando as meninas estão, bem… basta de spoilers.
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O fato é que as três estão à procura de mais uma “noiva” para seu “tutor” e escolhem uma garota que se diverte sozinha em um balanço de brinquedo, já que brigara com seus pais e torce para que alguma coisa realmente aconteça com ela para que sua família se sinta culpada. Seu desejo está prestes a se tornar realidade; e não só o seu. Este é o episódio onde surge a Zed original dos quadrinhos, que o ajuda a resgatar a menina e por fim à maldição do pedófilo satânico.
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Rezam as boas línguas que o seriado não acabou. Apenas passa por um stand by para voltar, com uma segunda temporada, o que será decidido a partir de maio deste ano. Há boatos ainda de uma repaginação da série com o nome de Hellblazer, pelo canal SyFy. No caso da segunda opção, aguardamos esperançosos; no caso da primeira, bom… confira, se ainda não assistiu. Aliás, não assista! Alan Moore agradece.
Publicado originalmente no blogue Formiga Elétrica