ÉTICA ARISTOTÉLICA E SUSTENTABILIDADE CONTEMPORÂNEA - por Stefano Giorgi


Desde o século XIX, um dos temas mais traduzidos da antiguidade para o mundo ocidental é a Ética de Aristóteles. A doutrina exposta no conjunto aristotélico dos tratados de Ética a Nicômago e Ética a Eudemo expressa uma visão ou concepção de Eudaimonia, o que Aristóteles apresenta como felicidade. O curioso é que essa felicidade, nos dias de hoje, pode ser vista com distanciamento da realidade. A noção de Eudaimonia é dependente de um conceito: o conceito do Sumo Bem Humano, um bem supremo para todas as pessoas.

Para Aristóteles, todas as nossas ações fazem parte de uma trajetória que se encerra em um ponto final. Esse ponto final é o Sumo Bem Humano, comum a todas as pessoas. O problema da noção de Eudaimonia para a atualidade, reside exatamente ai. Seria realmente possível a existência de um bem comum a todos os seres humanos?

A argumentação de Aristóteles nos faz entender que esse Sumo Bem Humano está ligado à concepção da natureza humana, segundo a qual nós devemos realizar aquilo que é próprio a um ser humano e não a qualquer outro tipo de ser. É na realização de algo próprio ao ser humano que está nossa Eudaimonia.

Nesse sentido, o filósofo grego tenta analisar estilos de vida. O primeiro estilo que se apresenta como um candidato a alcançar um Sumo Bem Humano está ligado aos prazeres, mas logo é descartado porque os animais também sentem e compartilham prazeres. O segundo estilo de vida está ligado a honra e glória, mas também é descartado. Segundo Aristóteles, honra e glória são algo que somente outros podem atribuir a uma pessoa, sendo assim, inatingíveis a uma pessoa por si própria, e a felicidade deve ser algo competente apenas aquele que deseja atingi-la. Seguindo essa linha de raciocínio, Aristóteles introduz a noção de que apenas os seres humanos são seres racionais e a faculdade da razão é algo que apenas uma pessoa pode exercer por si mesma. Por tanto, na Ética a Nicômago de Aristóteles, o Sumo Bem Humano e a Eudaimonia estão na nossa racionalidade e em um estilo de vida racional.

Apontando a racionalidade como Sumo Bem Humano, a Ética é a inteligência compartilhada a serviço do aperfeiçoamento da convivência. E, apesar dos problemas da atualidade, temos um alento. Nossas relações sociais podem ser diferentes do que são. Cabe a nós, seres humanos, a tarefa de refletir, de pensar em conjunto e de argumentar em espaço de diálogo para que nosso amanhã, como conjunto convivendo no mesmo espaço, seja melhor do que o nosso presente.
Por tanto, nós somos capazes de fazer o mundo tal qual ele está. Diferente de animais que agem por instinto e não conseguem fazer algo diferente por livre escolha, exceto quando há influência de pressão ou ambiente externo, como apontado por Darwin, nós podemos agir livremente para moldar o ambiente no qual vivemos. Logo, o mundo de hoje nada mais é do que o resultado das nossas escolhas.


Com pilares tradicionais como religião, família, nação e gênero cada vez mais perdendo o fator de determinação de identidade, o consumo toma conta de espaços que antes eram ocupados por estruturas sólidas que se deterioram na atualidade gaseificada. Sendo assim, o papel como cidadão que um indivíduo exerce em sociedade divide cada vez mais espaço com seu papel como consumidor.

Para aperfeiçoar nossa convivência, não podemos nos limitar a exigir atitudes éticas apenas de líderes políticos e entidades cívicas. Marcas e empresas devem ser cobradas por suas ações e ideais. Não é à toa que a sustentabilidade vem ganhando força nas últimas décadas a partir dessa corrente de pensamento. Racionalmente, consumir produtos dando lucro a empresas que exploram outros seres humanos ou acabam com o meio-ambiente, por exemplo, é algo que resulta em um mundo com maiores dificuldades de coexistência entre seus habitantes. Por isso o consumo sustentável é uma tendência crescente. A consciência de que as compras de cada indivíduo influenciam a sociedade onde o mesmo vive é a chave para uma convivência melhor no futuro.


Logo, em uma sociedade de consumo, o consumo sustentável é uma ação direcionada ao Sumo Bem Humano. O exercício da razão ao consumir é uma forma de buscar nossa Eudaimonia. Diferente de um pássaro que se guia por instinto e não por escolha para se locomover, nós podemos escolher não comprar um carro de certa marca, pois polui o ar ou explora seus trabalhadores. Podemos até mesmo escolher não comprar carro nenhum e usar transportes coletivos ou compartilháveis como forma de locomoção, afetando diretamente, com nossas ações, os problemas de mobilidade urbana e qualidade do ar, enquanto o pássaro pode apenas voa de um lado para o outro. E a escolha ética ao consumir traz um prazer sem culpa, que pode ser tido como felicidade. Concluindo, por tanto, que marcas que zelam por sustentabilidade em seus produtos e serviços tem mais chances de deixarem consumidores não apenas satisfeitos, mas também felizes. Essa é a Ética de Aristóteles aplicada a Sustentabilidade Contemporânea.

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