UMA HISTÓRIA CENSURADA



Um assunto que está aquecendo o debate entre estudiosos de literatura infantojuvenil é a tentativa de censura a duas obras de Monteiro Lobato, sob a acusação de racismo. Gerações e mais gerações – a minha, inclusive – foram alimentadas, alfabetizadas e introduzidas ao (saudável e louvável) hábito da leitura a partir das peripécias passadas no Sítio do Picapau Amarelo.

Não me ocorre à memória ninguém que tenha crescido racista por conta de passar horas e horas deliciando-se com as travessuras de Pedrinho, Narizinho e a boneca Emília. Assim como as pessoas não se tornam marginais porque cantam “Atirei o pau no gato, mas o gato não morreu” quando crianças. 

Em vez de censurar a obra, não seria o caso fazer um estudo com os alunos da época em que ela foi escrita para entender seu contexto histórico e o porquê dessa ou daquela expressão?

Em busca de entender mais sobre a polêmica, encontrei a palavra de dois estudiosos que destacam pontos importantes. E a censura? Parece bastante questionável.    

A professora Nelly Novaes Coelho, autora de obras de referência na literatura infantojuvenil – em entrevista à Época – considera o veto uma tolice, uma vez que entre as funções da literatura está a de explorar a realidade. “A história brasileira tem a escravidão por base. Isso levou a um preconceito muito fundo e não se pode passar a borracha nisso nem colocar dentro de um armário e fechá-lo.”  

Já João Luís Ceccantini, pesquisador de literatura infantojuvenil e coautor do livro Monteiro Lobato  Livro a Livro, estuda a forma como as crianças assimilam a literatura. Em entrevista à Veja concluiu: "Eu tenho estudado a forma pela qual as crianças absorvem o que leem e minha conclusão é que elas sabem identificar os excessos dos livros. Elas se apegam ao que é bom, à essência das histórias – e, no caso de Lobato, essa essência não é racista."

Realmente não dá para passar uma borracha no passado. E querer censurar histórias – que podemos considerar como obras de arte – porque hoje algumas de suas expressões podem ser interpretadas como estereotipadas ou racistas soa exagerado. O que Lobato escreveu em 1920 era um retrato da época, o recorte da realidade, daquela realidade.

E se as histórias de Monteiro Lobato não tivessem sido publicadas sob a acusação de racismo? 

E se as próximas gerações não conhecerem essas histórias?

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  1. Pois é, Rê, e se essa moda pega... Algo semelhante aconteceu na França, no momento em que o governo francês decidiu retirar o autor Louis-Ferdinand Céline de suas comemorações.
    Vale a leitura do texto do sempre genial Mario Vargas Llosa
    http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,a-literatura-nao-e-edificante,681721,0.htm

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